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Stablecoins e privacidade: o paradoxo do futuro das finanças digitais

Expansão dos ativos digitais impulsiona pagamentos globais e reacende o debate sobre rastreabilidade, autonomia financeira e os limites da supervisão regulatória

Representação da Tether (crédito: DrawKit Illustrations/Unsplash)

Representação da Tether (crédito: DrawKit Illustrations/Unsplash)

Da Redação
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Publicado em 17 de maio de 2026 às 11h00.

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Por Vadim Taszycki*

O avanço das stablecoins criou uma das maiores transformações silenciosas do mercado financeiro nos últimos anos. Diferente de outras criptomoedas, esses ativos não ganharam espaço por promessas especulativas, mas por resolverem um problema direto: movimentar valor com estabilidade. No entanto, à medida que esse crescimento acelera, até que ponto é possível conciliar eficiência financeira com privacidade real?

Os dados mais recentes mostram que esse não é mais um tema teórico. Um levantamento da AMLBot rastreou mais de US$ 4,2 bilhões em fluxos de stablecoins passando por protocolos de privacidade. Isso revela como usuários estão ativamente buscando alternativas para proteger suas transações em um ambiente cada vez mais monitorado por reguladores, como vem ocorrendo no Brasil com as novas regras da Receita Federal e do Banco Central.

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O crescimento das stablecoins é, por si só, um fenômeno difícil de ignorar, ainda mais no Brasil no qual dados do Banco Central apontam que mais de 90% de todo volume de cripto negociado no país é de stablecoins. Empresas, instituições financeiras e até departamentos de tesouraria já começam a tratá-las como infraestrutura. Um estudo recente do PYMNTS Intelligence mostra que 42% das empresas de médio porte já discutiram, testaram ou utilizaram stablecoins, um número significativamente maior do que o observado para criptomoedas tradicionais. Mais importante ainda, esse interesse não está ligado à especulação, mas ao uso prático.

Hoje, stablecoins são utilizadas principalmente para pagamentos. Elas viabilizam liquidações internacionais, reduzem custos operacionais e aceleram transferências que antes levavam dias. Em muitos casos, funcionam como uma camada invisível da infraestrutura financeira, algo que usuários finais nem percebem, mas que empresas já começam a adotar estrategicamente.

Falta de privacidade

Esse movimento, porém, traz uma contradição central. Ao mesmo tempo em que stablecoins facilitam transações globais, elas também carregam um nível de rastreabilidade muito superior ao dinheiro tradicional. Diferente do dinheiro em espécie, praticamente todas as movimentações ficam registradas em blockchain. Isso cria um ambiente onde transparência e vigilância caminham lado a lado.

É justamente nesse ponto que entram os protocolos de privacidade. Os dados mostram que o comportamento dos usuários muda drasticamente dependendo do nível de controle do protocolo. Em ambientes sem monitoramento, como mixers tradicionais, há uma preferência clara por ativos como DAI, que não podem ser congelados por emissores. Já em protocolos com algum nível de compliance ou filtragem, o uso migra para stablecoins como USDC e USDT.

Quando usuários escolhem DAI em ambientes não rastreados, eles estão optando por resistência à censura. Por outro lado, ao usar USDC em ambientes com triagem, aceitam um modelo mais alinhado às exigências regulatórias. Isso cria dois mundos distintos dentro do mesmo ecossistema, um mais aberto e outro mais institucionalizado.

O caso recente do exploit da Kelp DAO, que desviou cerca de US$ 292 milhões, reforça essa dinâmica. Parte dos fundos passou por protocolos como THORChain, Umbra e Chainflip, evidenciando como essas ferramentas já fazem parte da infraestrutura real do mercado, tanto para usos legítimos quanto para atividades ilícitas e, portanto, ignorar esse cenário seria um erro.

Desde que o Office of Foreign Assets Control sancionou o Tornado Cash em 2022, o mercado não parou. Protocolos como Railgun e zkBOB ganharam espaço, mostrando que a demanda por privacidade não desaparece com proibições. Isso levanta uma questão central para o futuro: será possível regular stablecoins sem eliminar sua utilidade em ambientes descentralizados?

Bancos como pontes

Na prática, o que vemos hoje é um equilíbrio instável. De um lado, empresas e bancos pressionam por mais integração e conformidade. Do outro, usuários continuam buscando ferramentas que preservem autonomia e confidencialidade. Os próprios CFOs deixam claro esse dilema. Embora 77% apontem a incerteza regulatória como barreira, muitos já utilizam stablecoins como “trilhos de pagamento”, convertendo rapidamente os valores para dólar.

Se stablecoins são infraestrutura, então a discussão sobre privacidade deixa de ser ideológica e passa a ser funcional. Empresas precisam de eficiência, mas também de segurança operacional. Usuários querem conveniência, mas não abrem mão de controle sobre seus ativos.

O futuro provavelmente não será definido por uma vitória de um lado sobre o outro, mas por uma convergência. Veremos o surgimento de soluções híbridas, onde protocolos incorporam mecanismos de privacidade seletiva, permitindo auditoria quando necessário, mas protegendo dados sensíveis por padrão. Tecnologias como provas de conhecimento zero tendem a desempenhar um papel central nesse processo.

Ao mesmo tempo, bancos e instituições tradicionais devem atuar como pontes entre esses dois mundos. A preferência por soluções integradas ao sistema bancário mostra que a adoção em massa dependerá da capacidade de encaixar stablecoins nos fluxos financeiros existentes. E é exatamente nesse equilíbrio que o futuro da privacidade financeira será definido.

*Vadim Taszycki é head de crescimento da StealthEX

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