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FIDC deixou de ser coisa de gigante: por que esse mercado já vale R$ 867 bilhões

ARTIGO: Patrimônio da indústria mais que dobrou em dois anos, enquanto mudanças regulatórias e maior acesso ao mercado ampliaram o uso do instrumento por empresas de diferentes portes e setores

Caminho de crédito ao FIDC (Reprodução /Reprodução)
Caminho de crédito ao FIDC (Reprodução /Reprodução)
Bruno Schaffer

Bruno Schaffer

Sócio de Capital Solutions da IGC Partners

Publicado em 12 de setembro de 2026 às 07:00.

O patrimônio líquido da indústria de FIDCs mais que dobrou em dois anos no Brasil, saindo de R$ 376 bilhões, em julho de 2023, para R$ 867 bilhões, em abril de 2026. Isso não é uma bolha, nem um modismo do mercado de capitais. É a consolidação de uma mudança estrutural na forma como empresas brasileiras, de diferentes portes e setores, estão captando recursos.

Por muito tempo, o FIDC era um instrumento acessível somente para grandes empresas de capital aberto, instituições financeiras, varejistas e distribuidores com faturamentos bilionários. Mas os números tornam evidente que o FIDC deixou de ser uma estrutura acessível para poucos e está virando a melhor alternativa de financiamento para a grande maioria das companhias que acessam ou flertam com a ideia de debutar no mercado de capitais.

Um dos grandes motivos foi a recente mudança normativa. A Resolução CVM 175 passou a permitir que o investidor comum comprasse cotas de FIDC, algo até então restrito a quem tinha pelo menos R$ 1 milhão aplicado e estivesse qualificado nas categorias de Investidor Profissional.

A captação de recursos dos gestores de crédito privado ganhou uma tração sem precedentes e fez com que a busca por esse tipo de ativo crescesse mais do que a oferta. Afinal, ficou ainda mais claro que, através do FIDC, é possível diversificar e pulverizar a alocação por setor, indústria, geografia, e ainda assim entregar um retorno substancial acima do CDI para os investidores.

E o mais fascinante disto tudo é que a abrangência faz com que quase tudo se torne "fidicável": crédito corporativo, consignado, distribuição, locação de equipamentos, agronegócio, educação, saúde, energia solar, SaaS, real estate, consórcios, mídia e conteúdo. Setores com naturezas de negócio completamente distintas estão chegando à mesma conclusão: o FIDC é hoje a ferramenta mais eficiente para financiar o próprio ecossistema de uma empresa.

Como as cotas funcionam

De maneira simplificada, um FIDC conta com dois tipos de cotas: sênior e subordinada, ou júnior. Normalmente, numa proporção de 80% e 20%, respectivamente. Via de regra, os investidores institucionais entram pela cota sênior, que tem prioridade nos pagamentos e recebe uma remuneração pré-estabelecida, em geral CDI mais um spread.

Já a cota subordinada costuma ficar com a própria empresa ou com seus sócios. Isso mostra um alinhamento de interesses, já que a própria cedente dos créditos e/ou o acionista do grupo está investindo nessa estrutura, e, se houver qualquer inadimplemento, é a cota subordinada que sofre essas perdas, até o limite do montante aplicado nela.

Esse colchão de proteção dá aos investidores da cota sênior a segurança de que, mesmo com uma política de crédito austera e carteira diversificada, eventuais perdas serão absorvidas até 20% sem impacto no capital deles.

Mas por que as empresas estariam migrando sua fonte de captação das linhas bancárias tradicionais — ou, ainda, as mais sofisticadas, que já teriam uma Debênture, Nota Comercial ou um CRA — em busca da estruturação de um FIDC?

O FIDC não é apenas o dinheiro pelo dinheiro. Ao longo de uma trajetória que já soma quase R$ 2 bilhões estruturados nesse instrumento até o primeiro semestre de 2027, identificamos uma série de benefícios para as empresas. Um deles é a redução do custo de capital, já que o diferimento tributário pode tornar o custo final dos recursos mais baixo. A estrutura também pode gerar receita financeira para o empresário ou para a própria companhia, que participa do fundo por meio de cotas subordinadas e recebe juros da operação.

Outro ganho está no alongamento do passivo. Diferentemente de linhas bancárias mais curtas, um FIDC bem estruturado permite trabalhar com prazos maiores. A antecipação dos recebíveis também gera despesa financeira, reduzindo a base tributável de IR e CSLL. Uma vez criado o veículo, novas emissões de cotas podem ser feitas no mesmo fundo, aproveitando o histórico de crédito já conhecido por gestores e investidores, com menos custos de estruturação e potencialmente condições melhores de captação.

O FIDC também ajuda a diversificar a base de credores e reduz a dependência dos bancos, dando à companhia maior poder de negociação na contratação de outras linhas de crédito. Por fim, a estruturação do fundo exige avanços em governança, auditoria dos recebíveis e relacionamento com investidores institucionais, criando condições que podem facilitar, mais adiante, um evento de liquidez para os sócios.

Portanto, a pergunta que fica é: se a indústria de FIDCs mais que dobrou de tamanho em dois anos, se a grande maioria dos setores já possui empresas nessa dinâmica, e se o FIDC tem se mostrado tão versátil e vencedor — o que ainda prende a sua empresa a essas linhas ultrapassadas?

Para quem decide. Por quem decide.

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Bruno Schaffer

Bruno Schaffer

Sócio de Capital Solutions da IGC Partners

Bruno Schaffer é sócio de Capital Solutions da IGC Partners e especialista na estruturação de soluções de capital para empresas

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