Crise fiscal, debate eleitoral e a dívida que ninguém quer discutir
ARTIGO: Dívida avança mesmo com a economia crescendo, enquanto juros pressionam famílias e empresas, mas candidatos evitam discutir as reformas que o próximo governo terá de enfrentar


Alexandre Pierantoni
Managing Director e Head de Investment Banking da Kroll no Brasil
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 07:00.
Faltam poucas semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais e o tema que mais deveria pautar o debate político segue sendo tratado como tabu: a trajetória da dívida pública brasileira. Pode-se sintetizar em uma frase o risco e situação atual: do ponto de vista econômico-financeiro, o país vive hoje uma "pré-crise fiscal", em que o Tesouro consegue colocar seus títulos no mercado, mas paga um preço cada vez mais alto por isso.
Os números apenas reforçam o nível que deveria ser a preocupação com o tema. A dívida bruta do governo fechou junho de 2026 em 81,9% do PIB, segundo o Banco Central — 10,2 pontos percentuais a mais do que no início do governo Lula. O ritmo de deterioração chama atenção: somente entre janeiro e junho, o indicador avançou 3,2 pontos percentuais, impulsionado sobretudo pelo peso dos juros nominais sobre a dívida, que respondem por mais da metade desse avanço. As projeções para os próximos anos são preocupantes: o Boletim Prisma do Ministério da Fazenda estima que a dívida bruta chegue a 86,77% do PIB em 2027, enquanto o próprio FMI, usando metodologia mais ampla, projeta que o indicador ultrapasse 96% do PIB neste ano e alcance a marca simbólica de 100% já em 2027 — patamar que colocaria o Brasil entre as economias emergentes mais endividadas do mundo.
Esse cenário se desenrola apesar de o país não ter enfrentado nenhuma recessão profunda nos últimos anos: o PIB cresceu em torno de 2,8% ao ano, em média, no período recente. É um dado alarmante: a dívida cresce de forma acelerada mesmo em um contexto de expansão econômica, o que indica, o já conhecido, desequilíbrio estrutural, e não conjuntural, entre receitas e despesas obrigatórias.
O reflexo mais imediato dessa desconfiança do mercado aparece na taxa de juros que o Tesouro precisa oferecer para colocar seus títulos. A Selic está hoje em 14% ao ano, após uma sequência de cortes que a trouxe de 15% no início de 2026 — ainda assim, um dos juros reais mais altos do mundo. Esse custo de financiamento elevado retroalimenta o próprio problema: somente em junho, o setor público consolidado pagou R$ 110,7 bilhões em juros nominais, quase o dobro do valor registrado no mesmo mês do ano anterior.
Apesar desta deteriozação econômica, não vimos crise cambial ou inflacionária. Desta vez os méritos são do cenário internacional, favorável aos países emergentes — o real tem se mantido na casa de R$ 5,10–5,20 por dólar, patamar considerado "tranquilo" mesmo em meio a tensões geopolíticas. Esse alívio cambial, somado a programas de crédito subsidiado e estímulos parafiscais, tem funcionado como amortecedor, permitindo que o governo, postergue uma discussão fiscal para o próximo governo.
Mas os efeitos dos juros altos já aparecem na economia real. O Brasil bateu recorde de 81,7 milhões de CPFs negativados em fevereiro de 2026 — alta de 38,1% em uma década, segundo a Serasa Experian. Em média, o brasileiro compromete 70,5% da própria renda com dívidas, um nível de alavancagem que pode ser atribuído diretamente ao patamar elevado da Selic combinado à corrosão inflacionária do poder de compra.
O quadro empresarial segue trajetória semelhante. O número de empresas em recuperação judicial atingiu recorde histórico: 6.341 companhias em processo até junho de 2026, alta de 6,2% frente ao fim de 2025. Já eram 8,7 milhões de CNPJs negativados em janeiro deste ano. O fenômeno atinge com particular intensidade pequenos negócios — desde 2023, a incidência de recuperação judicial entre microempresas mais que dobrou. Casos como as Recuperações Judicias e Extra Judiciais, apenas para mencionar as algumas em 2026, como as do Grupo Toky, Mobly, Raizen, Oncoclínicas, Braskem, GPA, Casas Bahia, Lojas Marabás Habib's, dentre outros, são sintomas visíveis desta crise e aperto monetário.
E existe uma pobreza no debate eleitoral sobre a questão fiscal. Candidatos evitam detalhar propostas sobre temas estruturais — como a idade mínima para aposentadoria, redução do déficit fiscal e reforma administrativa — limitando-se a questões genéricas de um novo teto de gastos. Adiciona-se a este contexto que, do lado governista, o programa do candidato à reeleição também não indicaria disposição para rever a política de valorização do salário-mínimo, hoje uma das principais fontes de pressão sobre o gasto público, já que resultados acima da inflação nesse indicador se propagam automaticamente para benefícios previdenciários e assistenciais.
Os números explicam a magnitude do problema. O salário-mínimo de 2026 é de R$ 1.621 — alta de 6,79% sobre 2025, decorrente do INPC mais o ganho real de 2,5% permitido pelo arcabouço fiscal. Segundo o Ministério do Planejamento, cada R$ 1 de aumento no mínimo gera impacto de aproximadamente R$ 400 milhões no orçamento, porque o valor é referência para aposentadorias do INSS, BPC, seguro-desemprego e abono salarial. Somente pela Previdência Social, o reajuste projetado para 2026 implicaria alta de R$ 115,3 bilhões nas despesas. Pelo lado da oposição, o programa do principal candidato cita um corte de R$ 190 bilhões nos gastos públicos — o chamado "tesouraço" — mas sem especificar onde os cortes ocorreriam.
Traçando um paralelo com o período que precedeu o ajuste fiscal do governo Temer, assim como o teto de gastos e a reforma da Previdência só avançaram depois que o PIB caiu quase 10 pontos em menos de três anos e a inflação alcançou dois dígitos, será que o Brasil pode precisar, novamente, esperar uma crise se manifestar concretamente para que o Congresso e o Executivo priorizem reformas estruturais — entre elas, mexer na aposentadoria rural, revisar a vinculação do funcionalismo militar e desindexar os pisos de saúde e educação do crescimento do PIB, substituindo-os por correção pela inflação.
Fato é que o próximo presidente assumirá em 2027 com pouca margem de manobra política justamente quando a situação fiscal exigirá decisões mais duras — previdência, vinculações orçamentárias e regras de indexação. Agora é trabalhar para buscar fazer dar certo, e aguardar para ver.
Saiba antes. Receba o Insight no seu email
Li e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade

Alexandre Pierantoni
Managing Director e Head de Investment Banking da Kroll no BrasilAlexandre Pierantoni é Managing Director e Head de Investment Banking para a América Latina e Brasil, baseado no escritório de São Paulo.
%3Aformat(webp)&w=1080&q=75)
%3Aformat(webp)&w=1080&q=75)