ESG

O que Bill Gates sabe sobre mudanças climáticas, e suas ideias para resolver a crise

No livro “Como evitar um desastre climático”, fundador da Microsoft apresenta visão realista, mas otimista, de uma das maiores crises já enfrentadas pela humanidade

Bill Gates no evento Novo Fórum Econômico, em Pequim, na China (Takaaki Iwabu/Bloomberg)

Bill Gates no evento Novo Fórum Econômico, em Pequim, na China (Takaaki Iwabu/Bloomberg)

Renata Faber
Renata Faber

Diretora de ESG na EXAME

Publicado em 23 de agosto de 2023 às 08h58.

Última atualização em 25 de agosto de 2023 às 15h40.

Para realmente entender de um assunto, diz a sabedoria popular, é preciso ser capaz de explicá-lo. O bilionário Bill Gates, ex-homem mais rico do mundo e fundador da Microsoft, parece levar a sério essa máxima. Seu livro Como evitar um desastre climático: As soluções que temos e as inovações necessárias, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, é a prova de seu esforço em compreender as mudanças climáticas, talvez o maior desafio já enfrentado pela humanidade; e a didática clara e concisa da obra mostra que Gates se tornou um especialista no tema – e um dos melhores.

O livro nos faz compreender a urgência e a importância de enfrentarmos a crise climática. E isso significa unir esforços em escala e velocidade jamais vistas na história. Mas, apesar de soar alarmista, o autor reconhece que já temos algumas ferramentas e podemos inventar tecnologias que, agindo a tempo, evitarão um desastre.

A necessidade de inovar é uma ideia reforçada durante todo o livro. Segundo Gates, o sucesso de nossa batalha contra as mudanças climáticas depende de 1) chegar a zero emissão (lembrando que nunca teremos zero, mas reduzir o máximo possível); 2) usar as tecnologias que já temos de forma mais rápida e eficiente; e 3) criar tecnologias. E os países ricos precisam liderar esse movimento de atingir o “net zero” até 2050, pois, além de serem os maiores causadores dos problemas ambientais, têm mais condições de desenvolver novas tecnologias.

Gates explica que, para combater as mudanças climáticas, precisamos de duas ações: mitigação – que se resume a reduzir ao máximo as emissões de gases de efeito estufa (GEE) – e adaptação, que consiste em minimizar o impacto das mudanças que já estão acontecendo.

Para explicar como mitigar as emissões, Gates discorre sobre as cinco principais fontes de emissão de GEE – energia, indústria, agro, transportes e aquecimento/refrigeração – explicando porque emitem e quais seriam as alternativas. Sem mistério, as soluções passam por eletrificar a maior parte possível de processos, investir em energia limpa e muita inovação.

Ao falar sobre energia limpa, o autor defende o aumento dos investimentos em energia nuclear, por ser carbono neutro, comprovada em grande escala e operar sem intermitência. Quanto à segurança, “mais pessoas morrem todos os anos em razão da poluição do carvão do que morreram na história com desastres nucleares”, diz Gates.

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Quando explica sobre novas tecnologias, em diferentes frentes, Gates traz o conceito do “prêmio verde”. Os combustíveis fósseis representam 2/3 da energia consumida no mundo, e um dos motivos que explicam esse alto número é o fato de o petróleo ser barato. Para ser uma alternativa viável, as novas tecnologias não apenas têm de reduzir emissões, mas também precisam reduzir ao máximo o “prêmio verde”, que é a diferença de custo entre a tecnologia atual e a tecnologia de baixo carbono.

O prêmio verde nos faz entender quais tecnologias estão prontas para uso (aquelas com prêmio verde baixo ou inexistente) e quais ainda precisam de redução no custo – seja por avanços tecnológicos, seja por incentivos do governo. Outra maneira de reduzir o prêmio verde é incorporar no custo de grandes emissores de carbono os danos ambientais que eles causam. Políticas governamentais como uma taxa sobre o carbono ajudam a tornar a comparação mais justa entre novas tecnologias e aquelas existentes, reduzindo o prêmio verde e acelerando as inovações.

Mas o papel dos governos pode ir além de regular e taxar a emissão de carbono. Eles podem também acelerar a inovação ao criar os incentivos certos para viabilizar os desenvolvimentos de novas tecnologias. Por meio de políticas, podem reduzir custos e criar demanda.

Justiça Climática  

Gates também traz preocupações sociais em seu livro. Os efeitos das mudanças climáticas serão piores para o bilhão de pessoas mais pobres do mundo. Por isso, é preciso trabalhar na adaptação dos mais vulneráveis – tanto os que moram em infraestruturas precárias, e, portanto, estão mais expostos a eventos climáticos como inundações, como os pequenos produtores rurais, que podem ter sua fonte de renda alterada por mudanças no clima.

Segundo Gates, precisamos pensar na adaptação em três estágios: 1) reduzir os riscos, o que considera, por exemplo, uma melhoria na infraestrutura; 2) estar mais bem preparado para prever e responder a emergências e 3) se recuperar depois de desastres – nesse caso, não apenas seguros podem ajudar no recomeço, mas também investimentos em educação e saúde.

A oferta de alimentos também é um tema bastante explorado no livro. Secas e inundações serão mais frequentes, consequentemente a produção de alimentos será afetada e a inflação pode dificultar o acesso a comida e causar desnutrição nos países mais pobres. Gates também comenta sobre a necessidade de dar incentivos para que comunidades rurais não desmatem, e inclusive um pagamento para que os países em desenvolvimento conservem suas florestas – tema recorrente nas COPs.

Ao abordar a justiça climática, Bill Gates nos lembra que a crise ambiental é também social, e deveria ser uma preocupação urgente de todos nós.

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