Black Influence busca ampliar a presença de negros na publicidade

Black Influence, fundada por Ricardo Silvestre, realizou mais de 200 campanhas e tem clientes como Amazon Prime, Pinterest e Magazine Luiza. Segundo Silvestre, desafio das marcas é promover ações contínuas e antirracistas de fato
 (Bruno Gomes/Reprodução)
(Bruno Gomes/Reprodução)
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Marina Filippe

Publicado em 02/02/2022 às 08:00.

Última atualização em 02/02/2022 às 10:51.

Entrar na faculdade de publicidade com bolsa pelo ProUni, em 2014, ganhar um intercâmbio por ser bom aluno, e começar um estágio em uma das maiores agências do Brasil no ano seguinte, parecia o plano perfeito para Ricardo Silvestre quando ele tinha seus 20 anos. Mas, com o passar do tempo, Silvestre começou a ter dificuldades estruturais no ambiente de trabalho. “Era difícil conviver com comentários racistas e classistas, que perduraram em diferentes companhias. Na minha última experiência como contratado tive um Burnout, e não por trabalhar longas jornadas, mas por ter questionamentos e distanciamentos que não deveriam ocorrer”, diz.

Em agosto de 2019, Silvestre entendeu que não conseguiria continuar em agências tradicionais. “Eu precisava me reinventar ou mudar de profissão”, afirma. Ele enxergou a oportunidade de ressignificar o trabalho, combater o racismo estrutural e iniciar um negócio de visibilidade para influenciadores pretos, especialmente para além do Mês da Consciência Negra, em novembro. “A Black Influence nasceu para atender as marcas que querem se conectar verdadeiramente com o público preto”, diz.

A Black Influence

A Black Influence, que fechou 2021 com faturamento de 5 milhões de reais, realizou mais de 200 projetos para diferentes marcas, como Spotify, Amazon Prime, Pinterest, Magazine Luiza etc. Para isto, há mais de 100 influenciadores na rede de contato, entre eles a biomédica Jaqueline Goes de Jesus, cientista que sequenciou o genoma do vírus SARS-CoV-2 apenas 48 horas após a confirmação do primeiro caso de covid-19 no Brasil; o fotógrafo escritor e apresentador Roger Cipó; a engenheira, TEDx Speaker e comunicadora Kamilla Albino; e os criadores de conteúdo Preta Araújo e Murilo Araújo.

Em dois anos e meio de companhia, Silvestre consegue ver como as marcas ainda têm um longo caminho para evoluir em diversidade e inclusão.

“As marcas estão fazendo ações pontuais, muitas vezes por pressão. Durante a pandemia a comunicação foi aquecida, e o tema da diversidade e inclusão também, mas o desafio é normalizar negros em qualquer campanha, sobre qualquer tema, e não apenas em datas comemorativas ou assuntos específicos”.

O sentimento do executivo foi comprovado pelos influenciadores em uma pesquisa realizada em 2020 pela SQUID, YOUPIX, SHARP, Black Influence e site Mundo Negro. Na ocasião, os respondentes que se consideram pretos tiveram a menor participação entre os que já haviam feito alguma campanha, taxa 17.2% menor que a média das respostas. Outro resultado foi a diferença de pagamentos entre criadores, sendo a média do valor máximo recebido por um creator preto de R$ 1.626,83, enquanto a recebida por um influenciador branco era de R$ 4.181,01.

Para Silvestre, a mudança na comunicação acontece quando há um trabalho para além da ação pontual. “A parte educacional é muito dissolvida no nosso trabalho. Primeiro temos uma conversa com o cliente sobre mercado, comunidade negra, apelo de diversidade e mais. Isto tudo faz com que ele trabalhe de forma mais genuína e preparada”.

Um exemplo de campanha que assim ocorreu foi com a marca de streaming Amazon Prime, para o lançamento da série Manhãs de Setembro, protagonizada pela atriz e cantora Liniker. “Fizemos grupos de pesquisa com pessoas pretas e LGBTI+, ouvimos o que elas queriam, e tivemos mais de 60 influenciadores criando narrativas”.

Para continuar avançando, Silvestre e seu time de cerca de 10 pessoas pretende trabalhar a vivência cultural dos influenciadores, os vieses inconscientes dos envolvidos nas campanhas, e mais. “Já tivemos caso, por exemplo, de influenciador que teve seu tom de pele modificado na imagem. Este tipo de coisa é inaceitável na comunicação antirracista, mas que só passa a ser percebida quando vai além de colocar uma campanha na rua, sem considerar contexto e impacto”.