Economia

O que 100 dias de Trump mostraram ao mundo (e ao Brasil)

Em lançamento da revista EXAME CEO em São Paulo, especialistas debateram o impacto das ações do novo presidente sobre a geopolítica e a economia

Evento de lançamento da EXAME CEO com Celso Toledo, Roberto Abdenur e André Lahoz (Flávio Santana/Biofoto/Site Exame)

Evento de lançamento da EXAME CEO com Celso Toledo, Roberto Abdenur e André Lahoz (Flávio Santana/Biofoto/Site Exame)

João Pedro Caleiro

João Pedro Caleiro

Publicado em 26 de abril de 2017 às 21h52.

Última atualização em 28 de abril de 2017 às 09h21.

São Paulo – Donald Trump vai completar em breve seus primeiros 100 dias como presidente dos Estados Unidos.

O que já ficou claro é que ele continua mais preocupado em satisfazer seu eleitorado do que em unir a sociedade americana, mas será forçado a recuar de algumas de suas posições mais extremistas.

As implicações da Era Trump para o Brasil e o mundo são o tema da EXAME CEO que acaba de ser lançada. A revista tem 3 edições por ano, sempre com um eixo único.

O lançamento foi acompanhado de um debate em São Paulo na noite desta quarta-feira (26) com mediação de André Lahoz Mendonça de Barros, diretor de redação da revista.

Roberto Abdenur, que já foi embaixador no Equador, China, Alemanha, Áustria e Estados Unidos, vê a crise financeira de 2008 como um marco do despertar de forças nacionalistas e de fechamento.

“Foi o fim da era de uma feliz globalização, feliz integração europeia e prevalência da social-democracia nos principais países ocidentais”, diz ele.

Um novo marco do fim dessa era veio com os relatos de que uma ordem executiva estaria sendo preparada para retirar os EUA do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte, o NAFTA.

Pode ser apenas um blefe para forçar a renegociação de certos pontos, já que sua concretização deixaria perdedores nos EUA e romperia muitas cadeias de valor, mas não deixa de ser simbolicamente ruim.

“A economia global está montada na ideia de que o comércio internacional é um jogo de soma positiva e todo mundo ganha com ele. E hoje você vê Estados Unidos e Reino Unido, os dois campeões do liberalismo, recuando da sua defesa”, diz Celso Toledo, diretor técnico da MCM, diretor de Macroeconomia da LCA Consultores e colunista do aplicativo EXAME Hoje.

Ao contrário da maior parte dos países, o Brasil não tem superávit com os Estados Unidos e não foi alvo até agora. No entanto, Celso acha um erro supor que isso nos isola da turbulência de possíveis guerras comerciais.

Ou de outras guerras, tema que voltou a assustar com o aumento da tensão na Coreia do Norte. Algumas medidas de incerteza estão em níveis historicamente altos, mas isso não parece estar afetando o apetite dos investidores.

“Hoje os mercados ainda estão operando em um modo de não-crise. A bolsa americana bateu outro recorde e os mercados cambiais e de juros não estão acusando esse aumento”, diz Celso.

O lado bom é que o presidente vem sido contido pelo sistema de freios institucionais e também pela própria inabilidade política, evidentes na tentativa fracassada de substituir a reforma de saúde do governo anterior, o Obamacare.

“O homem mais poderoso do mundo não pode tudo. O sistema impõe limites”, nota André.

Trump também já precisou recuar da intenção de colocar no Orçamento a construção do muro com o México. A ideia é rechaçada pelos democratas e pela maior parte dos próprios republicanos que representam estados fronteiriços.

Hoje, anunciou planos para cortar o imposto corporativo de 35% para 15%, além de outras mudanças tributárias. É um estímulo fiscal na veia, ainda mais se vier acompanhado pelos gastos em infraestrutura também prometidos pelo presidente.

Mas como a economia americana já está com o desemprego baixo, o risco é que Trump acelere a inflação e aumente o déficit público e ainda sem entregar o crescimento prometido.

Mas para o embaixador, o maior erro estratégico de Trump foi retirar os Estados Unidos da Parceria Transpacífico, um mega acordo comercial com mais 11 países negociado no governo anterior.

“A ideia do Obama era cercar a China, e Trump deixou o campo aberto para que ela seja o centro da integração da região. Foi um erro brutal feito sem nenhuma reflexão, nenhuma análise. Ele foi na onda de próprias palavras” diz Roberto.

Ele deu uma medida impressionante da ascensão chinesa. Quando se tornou embaixador no país em 1989, a economia brasileira ainda era maior que a chinesa e cada um dos países tinha cerca de 1% do fluxo de comércio global.

Atualmente, a economia da China é de 4 a 5 vezes maior que a do Brasil e eles têm 15% do comércio global enquanto nós seguimos com 1%.

E o Brasil, corre o risco de ter o seu Trump? A profecia veio ainda durante a campanha em entrevista para EXAME.com de Peter Navarro, então assessor do republicano e hoje presidente do recém-criado Conselho Nacional de Comércio.

A dúvida é quem seria essa pessoa. Celso nota que populistas vêm de diferentes formatos e ideologias: o prefeito de São Paulo, João Dória, por exemplo, seria um populista com ideias opostas.

Roberto acredita que “alguém com o perfil de Trump seria terrível por aqui” mas acha possível a ascensão de um candidato outsider “de tão desprestigiados que estão os políticos”.

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