Covid-19 derruba até Austrália, único país rico sem recessão há 29 anos

Apelidada de "país de sorte" em 1960 de forma irônica, o país acabou merecendo o apelido ao longo das décadas, mas não deve escapar do azar desta vez

A pandemia de coronavírus colocou à prova as economias mais fortes do planeta. Ninguém escapou. Nem a Austrália, há quase 30 anos com crescimento ininterrupto.

É um resultado único no mundo desenvolvido. A última vez que o país teve dois trimestres seguidos de queda do Produto Interno Bruto (PIB), a definição de recessão técnica, foi em 1991.

Mas na última semana, o banco central australiano faz o alerta: vem aí uma contração econômica “muito grande”. Na quarta-feira o país teve a perspectiva de rating AAA rebaixada pela Standard & Poor’s de “estável” para “negativo”. A agência de classificação de risco avalia que a pandemia “causou um severo choque econômico e fiscal” no pais.

A taxa de desemprego australiana deverá dobrar para 10% nos próximos meses, segundo expectativa do banco UBS, semelhante a de outras instituições. O banco espera um recuo de 6,1% no PIB em 2020.

São informações duras para o lugar que chamado de “lucky country“. O apelido foi criado de forma irônica em 1960, mas a Austrália acabou merecendo o título devido à sua resiliência em momentos críticos para a economia global, como a crise de 2008 ou da bolha da internet, no fim dos anos 90.

Em 2020, porém, as políticas de isolamento contra a disseminação do coronavírus estão reduzindo muito a atividade e elevando o risco de uma quebradeira entre pequenos negócios. Bares, restaurantes, cinemas e academias estão fechados desde 23 de março.

Companhias aéreas e empresas de turismo também sofrem com a menor movimentação de pessoas e com a proibição da entrada de não residentes no país. Além da mineração, o turismo é outro setor forte da economia australiana, junto com educação, finanças e tecnologia.

Os pedidos de ajuda se multiplicaram, e o governo anunciou que vai subsidiar o salário de seis milhões de trabalhadores – cerca de um quarto da população australiana –  pelos próximos seis meses como forma de conter a alta do desemprego.

O plano é pagar 1.500 dólares australianos (U$ 928) a cada quinze dias aos funcionários de qualquer empresa que tenha tido uma redução de ao menos 30% na receita. O plano deve responder por US$ 130 bilhões do pacote de US$ 320 bilhões do governo e do banco central australianos contra a crise.

 

País de sorte

A Austrália foi exemplo de gestão fiscal austera e continuidade de reformas mesmo em tempos de vacas gordas. O país tomou medidas importantes nos anos 90, como a liberação da flutuação cambial, que a ajudaram a passar pela década com uma infllação média anual pouco acima dos 2%.

Já no início dos anos 2000, a Austrália passaria a se beneficiar bastante do ciclo de alta dos preços das commodities (que também ajudou o Brasil). Sua proximidade com a China foi uma vantagem extra, e a forte demanda do vizinho impulsionou o setor de mineração australiano.

A queda nos preços dos insumos e a redução da demanda vinda da China nos últimos anos, porém, já vinham acendendo um sinal amarelo no país, que respondeu com cortes seguidos na taxa de juros, que atualmente está em seu menor nível, a 0,25% ao ano.

A pá de cal veio com o choque do coronavírus, que começou justamente na parceira China, que pode registrar seu menor crescimento em quatro décadas. Já o preço do minério de ferro, ainda que mais resiliente do que de outras commodities, teve uma queda acumulada de 8% só esse ano, segundo o Fastmarkets MB.

No momento, a Austrália parece estar diante de dois cenários possíveis de curto prazo. O mais provável, segundo o UBS, é uma recuperação a partir do terceiro trimestre em função do relaxamento nas restrições de mobilidade possibilitado por um achatamento na curva de contágios.

Já chega a 6.000 o número de casos de Covid-19 na Austrália e 50 o de mortes, embora o ritmo do contágio pareça estar diminuindo desde a semana passada.

“O principal risco, em nossa opinião, continua sendo um cenário econômico ainda pior, dado que os comentários do governo indicam que a crise da saúde exige uma ‘estratégia de hibernação’ de 90 dias ou até 6 meses”, diz o UBS em relatório desta semana.

Se essa última hipótese se concretizar, segundo o banco, os efeitos na economia e no emprego serão bem piores. A Austrália precisa, mais do que nunca, de sorte.

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