Educação. Para quando?

Apesar de enormes dificuldades e, especialmente, do longo caminho a percorrer, o Brasil tem tido avanços importantes na educação
Sala de aula em Sobral, no Ceará, excelência em ensino público no Brasil: já temos experiências de avanços de aprendizagem importantes no Brasil e que podem nos animar quanto ao que virá (Alexandre Battibugli/Exame)
Sala de aula em Sobral, no Ceará, excelência em ensino público no Brasil: já temos experiências de avanços de aprendizagem importantes no Brasil e que podem nos animar quanto ao que virá (Alexandre Battibugli/Exame)
Por Regina EstevesPublicado em 29/04/2022 16:28 | Última atualização em 29/04/2022 16:28Tempo de Leitura: 5 min de leitura

Essa semana comemoramos mais uma vez o Dia Mundial da Educação, que foi instituído por intermédio de líderes de 164 países, incluindo o Brasil. Possibilidades de mobilidade social ascendente, aumento de renda e até mesmo da longevidade são alguns dos muitos efeitos positivos que a educação traz para os indivíduos e sociedades e, por isto, dedicamos esforços e recursos materiais e humanos significativos para construir sistemas educacionais que apoiem nossas novas gerações em seu caminho de desenvolvimento pessoal e social.

No caso do Brasil, apesar de enormes dificuldades e, especialmente, do longo caminho ainda a percorrer, temos obtido avanços importantes no que diz respeito a educação ao longo das últimas décadas.

Por exemplo, se analisamos os dados da educação básica, em nossas redes públicas e privadas de ensino, iremos perceber que o percentual de alunos com aprendizagem adequada em português, no 5º ano do ensino fundamental, saiu de 27,9%, em 2007, para 61,1%, em 2019. Em matemática, no mesmo período, o percentual de estudantes que aprendeu adequadamente foi de 23,7% para 51,1%.

Todavia, quando vamos aos mesmos dados para os alunos do ensino médio, os números embora positivos, são extremamente desafiadores, pois em português, a evolução da aprendizagem adequada dos estudantes foi de 24,5% para 37,1%, enquanto em matemática, em 2007, 9,8% dos estudantes tinham aprendizagem adequada e, em 2019, o percentual era de apenas 10,3%.

Esta realidade de avanços tímidos e de enormes dificuldades para os nossos jovens precisa, cada vez mais, tomar conta de nosso debate público, na perspectiva de construção de uma agenda pública potente e transparente, que confronte o Brasil com o seu futuro. E é fácil argumentar em torno desta agenda, pois vivemos tempos de mudanças profundas!

Para além da pandemia e da guerra no Leste Europeu, eventos recentes e influentes, as profundas transformações da estrutura econômica mundial implicam a necessidade de investimentos para que nossas futuras gerações tenham condições de mobilidade, renda e qualidade de vida em um futuro breve.

A presença cada vez maior de novas tecnologias de automação, digitalização, inteligência artificial e aprendizado de máquina e, com isto, as mudanças por que passa o mercado de trabalho ratificam a percepção de que a agenda da educação permanece no topo das preocupações de todas as sociedades.

Como afirma Minouche Shafik, Diretora da London School of Economics (LSE), no seu instigante “Cuidar uns dos Outros. Um novo contrato social”, “em termos de contrato social, a educação também cumpre o papel econômico vital de preparar a força de trabalho do futuro, dotando-nos com as habilidades de que precisamos para encontrar emprego, sermos produtivos e, assim, contribuirmos para a sociedade.”

Diante disto, o nosso desafio é ainda maior, pois a economia vai se transformando de um lado e os alunos ainda não conseguem aprender adequadamente do outro. Como fazer para que essas linhas se cruzem, e rápido?

Por um lado, já temos experiências de avanços de aprendizagem importantes no Brasil, que podem nos animar quanto ao que virá.

Entre as redes públicas municipais, Sobral/CE, Teresina/PI, Coruripe/AL e Londrina/PR têm sido exemplo por conta das lições que podem ofertar a outras redes, em face de seus resultados positivos recentes.

Entre as redes estaduais, Ceará, Pernambuco e Espírito Santo vêm se destacando, não apenas através da melhoria da aprendizagem dos alunos, como também por conseguirem, através de suas secretarias estaduais, estimular a melhoria do ensino de seus municípios.

Internacionalmente, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), estudo comparativo internacional realizado a cada três anos pela OCDE, oferece informações sobre o desempenho dos estudantes na faixa etária dos 15 anos e com base nos resultados da avaliação de 2018, divulgados em 2020, o ex-Ministro da Educação de Portugal, Nuno Crato, reuniu especialistas de 10 países com o objetivo de identificar e analisar as políticas que levaram os alunos à melhoria de sua aprendizagem. (Improving a Country’s Education | SpringerLink)

Dentre os países analisados, Portugal se destaca como a história de maior sucesso, pela evolução do resultado de seus alunos desde o início das avaliações em 2000. A partir de um resultado inicial preocupante, com base nas evidências originadas das avaliações dos alunos portugueses, durante todo este período, Portugal foi capaz de reestruturar seu sistema e políticas de educação de modo a alcançar esta façanha internacional.

Entre os fatores de sucesso apontados estão a reestruturação e fortalecimento do currículo e dos objetivos de aprendizagem das principais matérias, especialmente Língua Portuguesa, Matemática e Ciências; a melhoria do treinamento dos professores, bem como das exigências para o acesso à profissão; e a introdução de uma avaliação nacional de certificação dos estudantes, em Língua Portuguesa e Matemática, para os alunos do 9º ano, em 2005.

Deste modo, nacional e internacionalmente temos luz no fim do túnel e diante da realidade das mudanças econômicas e do mercado de trabalho, em um ano como este de 2022, o Dia Mundial da Educação traz reflexão fundamental sobre o futuro de nossos crianças e jovens e, com isto, o próprio futuro do país.

Certamente, nenhuma outra pauta é mais urgente e importante, especialmente, porque já temos lições aprendidas, aqui e lá fora, que nos mostram não apenas que é possível, mas também que há políticas adequadas na direção de mudanças tão necessárias.