Idiotas úteis e bilionários trumpistas

Quem apoia Trump não por causa do racismo dele mas apesar disso, porque espera que ele mantenha impostos baixos, bem, está sendo um idiota
 (Kevin Lamarque/Reuters)
(Kevin Lamarque/Reuters)
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Paul KrugmanPublicado em 21/08/2019 às 15:14.

Quem quer que seja o autor da frase “idiotas úteis” – costuma ser creditada a Lênin, mas não há evidências de que ele a tenha dito – sabia das coisas. Existem épocas em que movimentos políticos perigosos conseguem apoio importante de pessoas que vão estar, caso esses movimentos conquistem e mantenham o poder, entre as maiores vítimas deles.

Com certeza eu me peguei pensando nessa frase quando li sobre o evento de arrecadação de fundos para Trump realizado no imóvel na região de Hamptons de Stephen Ross, diretor de uma companhia que detém o controle acionário das empresas Equinox e SoulCycle.

A maior parte da cobertura do evento de Ross tem focado nos possíveis efeitos negativos do evento no império de negócios dele: os jovens fanáticos por fitness, educados e urbanos que vão às academias de Ross não gostam da ideia do dinheiro deles apoiar Donald Trump. Porém, a tolice do apoio de Ross a Trump vai muito além de um potencial prejuízo à margem de lucros dele.

O que quero dizer é que, se você for um bilionário que por acaso também é racista, apoiar Trump faz todo o sentido: você sabe o que está comprando. Agora, se você estiver apoiando Trump não por causa do racismo dele mas apesar disso, porque você espera que ele vá manter seus impostos baixos, bem, você está sendo um idiota.

É verdade que Trump (quebrando todas as promessas de campanha que fez) de fato tem cortado taxas dos ricos, e com certeza vai cortá-las ainda mais se reeleito. Em comparação, é provável que quem quer os democratas indiquem aumente essas taxas se ele ou ela ganhar a eleição geral, e provavelmente será uma alta substancial.

Mas vamos falar sério. Se você é um bilionário, não precisa do dinheiro extra. A essa altura, qualidade de vida não tem nada a ver com poder de compra para você; ter uma casa de 5 mil metros quadrados em vez de apenas 4 mil, ou voar para uma de suas várias outras casas em um jatinho particular maior, não vai aumentar sua felicidade de modo significativo.

Gente que estudou os extremamente ricos diz que o dinheiro, para essas pessoas, em grande medida não tem a ver com poder comprar coisas, mas, em vez disso, em ganhar no jogo; a satisfação delas vem não de consumir mais coisas, mas de superar quem elas consideram seus semelhantes.

E cortes de impostos não ajudam nesse sentido, já que seus colegas têm os mesmos alívios tributários que você.

Mais ainda, o trumpismo é muito mais do que cortes de taxas: e uma tentativa de acabar com o estado de direito e impor um regime autoritário e nacionalista branco. Até mesmo bilionários deveriam estar horrorizados com o que suas vidas podem virar caso essa tentativa dê certo.

Isso é especialmente verdadeiro se você for parte de uma minoria, ainda que sua pele pareça branca. Ross é judeu – e qualquer um que seja judeu precisa ser totalmente ignorante em História para não saber que, quando o preconceito corre solto, nós sempre somos os próximos na fila da perseguição.

De fato, os ingredientes de um pogrom americano já estão colocados. O suspeito do tiroteio em El Paso, como muitos terroristas de direita, acredita na “teoria da substituição” – a afirmação de que a imigração é parte de um amplo complô para substituir brancos por gente de cor. E quem está por trás dessa conspiração? Vocês sabem: “Judeus não nos substituirão”, declararam os manifestantes que carregavam tochas em Charlottesville em 2017.

Se Trump acredita na teoria da substituição? Os teóricos da substituição acham que sim.

De qualquer modo, bilionários que imaginam que a riqueza deles vai mantê-los à prova de expurgos e da insegurança de um regime autoritário estão se iludindo. Olhem para a Rússia de Vladimir Putin, um lugar que Trump vê como modelo. Com certeza Putin mima um círculo próximo de oligarcas. Mas ele não tem demonstrado hesitação alguma em usar um sistema legal politizado para perseguir e arruinar os críticos dele, não importa quão ricos eles sejam.

Ah, e não digam que isso não pode acontecer aqui. O homem que inspira cantos de “prendam ela” e que vem dizendo que a mídia independente é “inimiga do povo” já deixou mais do que claro que adoraria se envolver em perseguição politizada de qualquer um que estiver no caminho dele.

De novo: sem dúvida existem alguns americanos ricos que querem viver em um país desse. A maioria dos bilionários que apoiam Trump, porém, provavelmente ficaria horrorizada diante de algo assim. Logo, o que eles estão pensando juntando dinheiro para um pretenso ditador?

A resposta é que eles não estão pensando, é claro. Em vez de levar em conta o que uma consolidação do poder trumpista significaria, eles estão reagindo sem pensar com base em uma mistura de ganância e ego.

Por sinal, a parte da ganância é óbvia. Mas também ficou claro desde os anos Obama que um número considerável dos super ricos não está satisfeito em ser imensamente rico; eles também querem bajulação. Eles esperam ser louvados como heroicos criadores de empregos, e se enfurecem à menor sugestão de que alguns dos números deles podem ter se comportado mal, quanto mais à de que eles podem ter se beneficiado de um sistema viciado.

Daí o ódio por progressistas sensatos e pró-mercado como, por exemplo, a senadora Elizabeth Warren. Não é que esses progressistas possam tornar esses bilionário um pouco mais pobres, é que eles podem deixá-los se sentindo pequenos.

Mas agora não é a hora desse tipo de mesquinharia. Grandes fortunas trazem muitos privilégios, e vão continuar a fazê-lo mesmo se os democratas progressistas tirarem a sorte grande no ano que vem. O que a riqueza não traz é o direito de permitir que a autoindulgência transforme você em um idiota útil, ao dar auxílio e conforto a um movimento que está tentando destruir a América que conhecemos.