A antifragilidade e as cadeias de suprimentos

Acontecimentos recentes, como a guerra da Ucrânia, a pandemia de covid-19 e o bloqueio do Canal de Suez, trouxeram à tona a importância do tema
 (Leandro Fonseca/Exame)
(Leandro Fonseca/Exame)
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Impacto SocialPublicado em 16/08/2022 às 09:00.
O conteúdo desse blog é gerenciado pelo Insper Metricis, o núcleo do Insper especializado em realizar estudos sobre estratégias organizacionais e práticas de gestão envolvendo projetos com potencial de gerar alto impacto socioambiental. 

Por Fernando Picasso*

Acontecimentos recentes, como a guerra da Ucrânia, a pandemia de covid-19 e o bloqueio do Canal de Suez, trouxeram à tona a importância das cadeias de suprimentos. Alguns produtos ficaram escassos, ondas inflacionárias foram alimentadas e organizações tiveram interrupções completas em suas operações. Comum a esses eventos estão as rupturas nas cadeias de suprimentos.

Gestores do setor público e privado têm se debruçado cada vez mais sobre como podem lidar com rupturas nas cadeias de suprimentos para que os impactos sejam os menores possíveis. Como exemplo recente, podemos citar o plano do governo americano para recuperar e fortalecer algumas cadeias de suprimentos. Para entender melhor o que acontece, podemos contrastar as cadeias de suprimentos e organizações que se recuperaram pior daquelas que se recuperaram melhor após uma ruptura. As primeiras chamaremos de frágeis e as últimas, de antifrágeis.

Cadeias frágeis são aquelas que se recuperam piores de uma ruptura, eventualmente algumas organizações até param de operar. Por exemplo, durante a pandemia, a Zara não conseguiu fazer uma boa transição na sua operação de lojas físicas para lojas online, fechando mais de 1.200 lojas nesse período e perdendo cerca de 400 milhões de dólares em receita. Outro exemplo é o caso da Blockbuster, que não visualizou uma mudança na cadeia de suprimentos do entretenimento de filmes. Antes, essa cadeia de suprimentos era formada por grandes produtoras, locadoras e consumidores. O avanço da internet causou uma ruptura nessa cadeia com o desenvolvimento do streaming, que impactou as grandes produtoras e eliminou as locadoras físicas. Por não visualizar esse movimento e não conseguir se recuperar dessa ruptura, a Blockbuster saiu completamente de operação.

Diferente das cadeias de suprimentos que se recuperam mais fracas, as cadeias antifrágeis são aquelas capazes de se recuperar melhor após uma ruptura, de modo a usar esse evento para fortalecer sua operação. O conceito de antifragilidade foi desenvolvido por Nassim Taleb em seu livro “A Lógica do Cisne Negro”. Nesse livro, o autor discute como alguns organismos se beneficiam de eventos negativos inesperados e se fortalecem por causa deles. Por exemplo, no final de 2013, a Amazon não conseguiu entregar a tempo muitos pedidos de clientes prime antes do Natal, pois dependia de empresas como UPS e Fedex. A empresa então percebeu que não poderia depender de terceiros para fazer suas entregas e começou a investir no desenvolvimento de sua logística de última milha para garantir que eventos como esse não acontecessem. Depois disso, a Amazon fortaleceu sua operação e pode lidar de forma bem-sucedida com outras rupturas em sua cadeia de suprimentos, como a causada pela covid-19.

Com cadeias de suprimentos cada vez mais complexas tendo mais organizações operando em diferentes países, uma coisa é certa: essas cadeias inevitavelmente terão que lidar com rupturas. A questão aqui será se essas cadeias serão antifrágeis ou se sucumbirão a esses eventos. Os exemplos discutidos mostram que no contexto organizacional e de cadeias de suprimentos, a antifragilidade está mais relacionada a decisões estratégicas do que à sorte ou ao acaso.

*Fernando Picasso é doutor em administração pela FGV – EAESP e professor no Insper, onde leciona as disciplinas de Gestão da Cadeia de Suprimentos e Riscos e Resiliência em Cadeias de Suprimentos. Seus temas de pesquisa incluem sustentabilidade e risco e resiliência em cadeias de suprimentos.