Nova iniciativa conecta empresas e fundos a startups boas para o clima

Greentechs receberão mentoria e treinamento para negociar com investidores e potenciais clientes
 (Marco Bottigelli/Getty Images)
(Marco Bottigelli/Getty Images)
I
Ideias renováveisPublicado em 27/05/2022 às 11:27.

Daniel Contrucci*

Não são todos os fundos de investimento ou grandes empresas que conseguem - ou desejam – colocar recursos em núcleos de inovação na área de sustentabilidade. Isso ocorre porque esse movimento demanda mais do que aporte financeiro. Exige também a criação de uma cultura que precisa ser orgânica para se tornar sustentável. Afinal de contas, núcleos de inovação não dependem somente de ideias disruptivas, mas de uma visão global de áreas específicas, que pode se mostrar inviável para muitas empresas, especialmente quando elas estão dedicadas a atender as demandas de seus respectivos negócios.

No entanto, para reduzir esse gargalo e fomentar soluções e negócios verdes, existe uma aposta cada vez maior na associação de fundos de investimento de impacto ambiental e empresas a startups que prometem acelerar a transição para uma economia regenerativa e de baixo carbono, as chamadas greentechs.

E o mercado já está se adaptando para oferecer ambientes de negócios onde encontros desse tipo possam acontecer. Um exemplo é o Conexões Onda Verde, iniciativa focada na ligação e geração de oportunidades de negócios entre startups de clima, grandes empresas e investidores institucionais. Diferente de outros projetos do tipo, o Conexões possui uma agenda de atuação exclusivamente voltada a ideias que tenham impacto no combate às mudanças climáticas. A iniciativa, que tem inscrições abertas até o dia 27 de junho, é o resultado de três anos de atuação do Climate Ventures no desenvolvimento de startups pertencentes ao setor, sendo que o próprio instituto é uma plataforma de inovação especializada em conectar organizações, governos, investidores e empreendedores em busca de um futuro melhor para o clima. O Fundo Ipu - Water & Sanitation Venture Philanthropy , que reúne investidores sociais para apoiar negócios de impacto ou organizações sociais que estejam desenvolvendo soluções voltadas para o setor de água e saneamento, também é um dos realizadores da iniciativa.

Oportunidades de negócios e troca de experiências

As relações construídas através do Conexões visam a geração de impacto positivo ao meio ambiente, mas, acima de tudo, a oportunidade de realização de negócios verdes, por meio da captação de recursos e aumento da receita dos participantes. Outro forte elemento promovido pela iniciativa é a troca de cultura corporativa entre as empresas e as greentechs. Quem investe pode ganhar com as novas ideias de se fazer e pensar um negócio apresentadas pelas startups, enquanto aqueles que recebem o aporte são positivamente impactados pela cultura empresarial e alta profissionalização dos processos do dia a dia de organizações e instituições de grande porte.

Da experiência das grandes, os novatos podem retirar lições importantes para salvá-los do temido Vale da Morte, período compreendido entre a data de criação de uma empresa e o momento em que ela atinge seu equilíbrio financeiro. Um estudo elaborado pelo Núcleo de Inovação e Empreendedorismo da Fundação Dom Cabral, em 2015, estimou que uma em quatro novas empresas brasileiras não passa do primeiro ano de vida, e metade não chega até o quarto ano após a sua fundação.

Do outro lado, grandes empresas nunca contaram tanto com as startups para encontrar soluções inovadoras para seus ambientes de negócios. De acordo com relatório da Inside Venture Capital, da plataforma Distrito, no primeiro bimestre de 2022, foram realizadas 34 operações de fusões e aquisições no mercado brasileiro de startups, 14 a mais do que no mesmo período do ano passado. Outro dado impactante revela que, somente em fevereiro de 2022, as startups brasileiras receberam UR$ 763 milhões em investimento.

Grande parte desse montante ainda é direcionada para as fintechs, como são chamadas as startups voltadas para soluções financeiras, para as retailtechs, de varejo, ou para as foodtechs, de alimentação. No entanto, em face da emergência climática, esse cenário deve mudar em escala progressiva. O Relatório do Instituto Smart Prosperity mostra que as greentechs devem receber até US$ 3,6 trilhões em investimento em todo o mundo, até 2030. Outro estudo, realizado em 2021 pela State of Climate Tech, da consultoria PwC, aponta o investimento de UR$ 87,5 bilhões em tecnologia climática entre o segundo semestre de 2020 e o primeiro de 2021, representando um crescimento de 210% sobre o mesmo período anterior.

Ou seja, o cenário para as parcerias entre empresas, investidores e startups de clima nunca esteve tão favorável e otimista. O intercâmbio entre a nova visão de mundo projetada pelas startups e a experiência daqueles que dominam cadeias complexas envolvendo fornecedores e sistemas de produção e distribuição, revela-se como um ambiente rico e produtivo, fundamental para gerar resultados efetivos para ambos os lados.

Como vai funcionar

O Conexões Onda Verde irá selecionar até 20 startups com maior potencial de impacto climático e de geração de negócios em função de setores chave, que vão desde agropecuária, água e saneamento, até florestas e uso do solo. Ao longo de quatro meses, as startups terão a oportunidade de se relacionar com as empresas e investidores, além de receber acesso a conteúdo e mentorias preparatórias para os encontros. A iniciativa também irá oferecer um prêmio de R$ 50 mil para a startup de destaque. As empresas e os investidores receberão acesso a relatórios exclusivos, com dados de agendas das áreas das startups participantes, além da participação de rodadas de negócios e do Demoday, dia das apresentações finais das startups.

Empresas como Ferrero, Itaú e Neoenergia, e investidores como Positive Ventures, Mirova, MOV, Din4mo e VOX já garantiram participação na iniciativa, que conta com o Fundo Vale e Instituto Clima e Sociedade como financiadores.

A realidade nos mostra que é cada vez mais urgente alcançar uma economia inclusiva, circular e regenerativa. E para que isso aconteça de verdade, criar pontes entre aqueles que podem investir e aqueles que precisam de investimento é de extrema importância para um futuro sustentável.

*Daniel Contrucci é diretor executivo da Climate Ventures