Eleições presidenciais de 2022 no Brasil: a demanda ainda espera a oferta

38% dos brasileiros não querem votar nem em Lula, nem em Bolsonaro, mas o universo político carece de alternativas que atendam essa importante fatia do eleitorado
 (Miguel Schincariol/Evaristo Sá/Getty Images)
(Miguel Schincariol/Evaristo Sá/Getty Images)
Por IDEIA PúblicaPublicado em 12/03/2021 18:34 | Última atualização em 12/03/2021 18:41Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Adam Smith foi um dos mais influentes economistas da era moderna. Por muitos foi batizado como pai do liberalismo econômico. Sua publicação, a “Riqueza das Nações”, é leitura obrigatória para os interessados em história das nações (independente das crenças ideológicas). Nesse livro, o economista escocês deu luz a alguns conceitos marcantes para a ciência econômica como por exemplo a “Lei da Oferta e da Procura” e a “mão invisível”. Para ele, havia uma “mão invisível” que pesava sobre o mercado, determinando seus rumos. Um conceito bem simples: sempre que a oferta de um bem no mercado supera sua demanda (procura), o valor do produto cai; e sempre que a demanda de um bem no mercado ultrapassa sua oferta, o valor do produto sobe. Nesse contexto de maneira simplória, um equilíbrio geral de preços é atingido. Nas especulações das eleições presidenciais brasileiras de 2022 temos, até o presente momento, um fenômeno de desequilíbrio geral da oferta da política com a demanda da opinião pública.

De um lado, não nos enganemos, temos um favorito: o presidente Jair Bolsonaro. Além de manter um grupo de apoiadores fiéis que aprovam seu governo (atualmente no patamar de 26% de avaliação positiva), o mesmo ainda lidera todas as pesquisas de intenção de voto da Exame/IDEIA. A sua popularidade depende da velocidade de vacinação e da gestão da economia. Ambos desafios gigantescos. Todavia, nessas frentes se imagina que não faltarão recursos para garantir um melhor posicionamento para sua campanha de seguir no Planalto. Se isso acontecer, a conta fiscal virá em 2023 e não será branda. Manobras econômicas semelhantes já aconteceram antes nas re-eleições de Dilma em 2014 e Fernando Henrique em 1998. Nunca é demais lembrar que o presidente em exercício além de pautar o debate público ainda tem a caneta.

Do outro lado, e agora legalmente pré-candidato, temos o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem dúvida o maior líder político brasileiro dos últimos cinquenta anos e com enorme capacidade de aglutinar parte do eleitorado brasileiro e chegar ao segundo turno. Todavia, o ícone petista ainda carrega uma enorme rejeição na classe média brasileira em função dos escândalos de corrupção durante os governos do PT e um passivo relevante por ter indicado Dilma Rousseff como sua sucessora. Em segmentos mais populares de eleitores(as), a crise econômica que país viveu nos últimos anos (antes da pandemia) se deve a gestão da ex-presidente. Nada triviais são os obstáculos que separam São Bernardo de Brasília.

Dito isso e colocados os dois polos “dominantes”, enorme fatia dos(as) brasileiros(as) não quer nem Bolsonaro e nem Lula (os “nem-nem”). São 38%, segundo a pesquisa nacional Exame/IDEIA publicada dia 12/03/21, os que adorariam despertar em 01/01/2023 com outro(a) residente do Alvorada. Seguramente há uma demanda da opinião pública que não represente o presente bolsonarista ou o passado petista. E uma demanda que nunca houve mesmo quando comparamos ao auge da polarização PSDB-PT.

Porém, a oferta da política para essa polarização ainda é diluída e difusa no imaginário da opinião pública. Para derrotar presidente (e/ou ex-presidentes) é preciso “ofertar” soluções disruptivas. Sem mencionar os Estados Unidos (cujo sistema eleitoral é bem particular) podemos citar a Argentina, a Ucrânia e a França como exemplos de caminhos alternativos bem sucedidos para vencer projetos políticos no poder.

Na Argentina, a ex-presidente Cristina Kirchner abriu mão de sua candidatura (apesar de ser mais conhecida e reconhecida que Alberto Fernandez) para ser vice. Com isso demonstrou enorme maturidade política e conduziu sua chapa a uma acachapante vitória sobre Mauricio Macri que tentava a re-eleição. Na Ucrania, Volodymyr Zelensky, um comediante de televisão (que tinha um programa humorístico se fazendo de presidente) se apresentou como um candidato totalmente fora da política e venceu o presidente em exercício Petro Poroshenko. Nada mais disruptivo que o piadista vencer o sistema. Na França, Emmanuel Macron, para vencer a centro-esquerda no poder e a candidata de extrema direita Marina Le Pen, criou um partido absolutamente novo (La Republique En Marché!) e organizou um movimento que dialogou com os “nem esquerda-nem direita” franceses.

Para encarar o favorito Presidente Bolsonaro nas urnas e ofertar uma alternativa de poder, a política brasileira terá de buscar a maturidade política de Kirchner, a sagacidade histórica de Zelensky e capacidade de mobilizar do En Marché! de 2017. Não será esperando a “mão invisível" que isso irá se resolver.