A festa no céu

2020 foi um ano diferente dos outros, mas o sentimento pode ser definido pela palavra do ano: luto. É a quinta vez que o Ideia e a consultoria Cause fazem o levantamento
 (Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images)
(Luiz Souza/NurPhoto/Getty Images)
Por IDEIA PúblicaPublicado em 22/12/2020 16:23 | Última atualização em 22/12/2020 16:23Tempo de Leitura: 4 min de leitura

O ano de 2020 passa, 2021 já voa e a avaliação do presidente Bolsonaro continua numa boa. O governo fecha a década com 36,5% de ótimo e bom (pesquisa EXAME/IDEIA de 14/12 a 17/12, com 1200 pessoas), um percentual estatisticamente igual ao resultado de dezembro de 2019.

E não se pode dizer que nestes 365 dias nada tenha acontecido, pelo contrário, foi um ano diferente de todos os outros, mas o sentimento pode ser definido pela palavra do ano: luto. É a quinta vez que o Ideia, em conjunto com a consultoria Cause, faz a pesquisa da palavra do ano no Brasil e neste que termina agora, a escolhida foi a da descrição do médico Sigmund Freud, de 1915:

“O luto é um processo lento e doloroso, que tem como características uma tristeza profunda, afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre o objeto perdido, a perda de interesse no mundo externo e a incapacidade de substituição com a adoção de um novo objeto de amor.”

Com quase 190 mil mortes no Brasil pela Covid-19 desde março - e mais de 1,6 milhão no mundo – a sensação geral é de desalento, quando não de luto mesmo pela perda de familiares e amigos próximos.  Nesta situação, é difícil pensar em algo que não seja a sobrevivência. No ano passado, a palavra escolhida foi “dificuldades”.

A sociedade – através do governo, do Congresso e de outros setores - tentava fazer as mudanças (sim, a palavra de 2018 foi “mudança”) esperadas pela troca de comando no país, mas dificuldades de toda a ordem se impunham. Em 2016, a palavra escolhida havia sido indignação, enquanto que em 2017 foi diretamente corrupção.

Agora, combate à corrupção é das poucas áreas do país que encontra uma expectativa de mudança positiva para os próximos seis meses (25% assim consideram, enquanto outros 25% também acreditam que a segurança pública, a segunda bandeira de Bolsonaro, vai melhorar).

No mais, os pensamentos são negativos ou ilusórios. O auxílio emergencial, que começou com R$ 600 e vai até este mês com R$ 300, não tem perspectivas de continuar, ainda assim 36% da população acredita que ou a ajuda vai prosseguir por todo o ano de 2021 ou pelo menos nos primeiros seis meses dele.

A retirada da ajuda pode ser o primeiro baque de popularidade para o governo lidar já no início de 2021. Outras serão as área da Saúde e da Educação, as duas que aparecem como maiores preocupações dos pesquisados, seja pelos problemas crônicos delas em nosso país, seja pelas consequências da pandemia em ambas.

Finalmente, alheia `as brigas políticas, aproximadamente 70% da população espera para o primeiro semestre de 2021 uma vacinação que breque a contaminação pela Covid-19 ou, na pior hipótese, no segundo semestre (25%). Também chama a atenção que 43% esperam que a vacina seja oferecida de forma gratuita, distribuída pelo SUS, o que é uma (boa) tradição em nosso país.

Entre os que têm maior expectativa com relação à vacinação em curto prazo, a maioria aprova o governo federal. Portanto, vale acompanhar a correlação entre a expectativa da vacina e a avaliação presidencial em 2021. Importante acompanhar também (e se comunicar com) as populações de renda mais baixa e da região nordeste, as que mais esperam que a vacina seja gratuita.

Enquanto a morte é desorganizadora, o ritual do luto é organizador. Ele serve para aproximar as pessoas da família e da comunidade; facilita a expressão do sofrimento e auxilia o enlutado a dar sentido à perda. Em um ano em que o ritual também foi decepado pelas restrições sanitárias, cabe às lideranças encontrarem um jeito de oferecer consolo para as pessoas, seja pela empatia ou por medidas objetivas, como um plano de vacinação.

Aproveitando o bicho escolhido pelo presidente pros humanos se transformarem como efeito colateral da vacina, seria um bom momento pros políticos de situação e de oposição recordarem da fábula infantil A festa no Céu. Pra quem não lembra:

O macaco reúne a bicharada no meio da floresta e anuncia:

- Vai haver uma festa no céu!

E o sapo responde:

- Oba!

O macaco continua:

- Vai haver muita comida!

E o sapo, novamente:

- Oba!

- Mas há um porém: bicho de boca muito grande não entra.

- Coitadinho do jacaré! - exclama o batráquio.

Moral da história: Quem muito quer, nada tem.

Feliz Natal a todos!