O legado acontece todos os dias e é construído a cada decisão que tomamos

Na coluna desta semana, conheça a história de Rodrigo Kede Lima, Presidente da Microsoft para a América Latina
Rodrigo Kede Lima, Presidente da Microsoft para a América Latina (Histórias de Sucesso/Reprodução)
Rodrigo Kede Lima, Presidente da Microsoft para a América Latina (Histórias de Sucesso/Reprodução)
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Histórias de sucessoPublicado em 10/06/2022 às 15:00.

Por Fabiana Monteiro  

Propósito é algo que tem sido bastante discutido em diferentes ambientes, e também no mundo corporativo.  Eu acredito que o propósito é uma visão que impulsiona todas as decisões, grandes e pequenas, definindo quem somos e como agimos. E isso se aplica a tudo, desde indivíduos e comunidades até empresas. 

Eu acredito que a combinação de pessoas boas e tecnologia pode fazer deste mundo um lugar muito melhor, e entendo que não faz sentido estar em uma organização que não esteja alinhada ao meu propósito. Para mim, vencer na vida não significa ter dinheiro. Faço um paralelo com a medicina, que, na minha opinião, é a profissão mais bonita que existe: você decide ser médico porque gosta de salvar, curar e ajudar as pessoas. Ganhar dinheiro é importante, mas é consequência. Você precisa gostar e acreditar no que faz, dedicar-se muito e ser resiliente para aguentar os momentos difíceis. 

Poucos sabem que quase fui médico. Mudei o curso do vestibular no último momento e me matriculei no curso de engenharia mecânica. Por que? Não sei. Apesar de realmente achar a medicina a mais bonita das profissões, segui minha intuição, pois já era muito curioso e apaixonado por tecnologia.  

A ideia de uma carreira em tecnologia despertou uma visão de impacto transformacional, além do que eu poderia imaginar. A tecnologia pessoalmente me inspirou. Lembro-me da emoção que senti ao aprender a programar, pensando comigo mesmo que essa era realmente a nova matemática, uma linguagem para construir e para criar coisas incríveis. A programação até se tornou uma espécie de atividade meditativa para mim, uma maneira de relaxar e de focar. Embora eu não tenha a chance de fazer isso com frequência, hoje em dia, ainda gosto muito de programar. 

Nos anos seguintes, tive a oportunidade de viajar, de conhecer pessoas incríveis e de fazer parte de uma indústria em rápida transformação. Entrei na IBM em 1993 na divisão de finanças, depois migrei para serviços e finalmente tive a chance de liderar os negócios da empresa na América Latina. O tempo passa rápido e, portanto, é crucial nos lembrarmos constantemente do que nos inspira, e logo sair da nossa zona de conforto para continuarmos aprendendo. 

Minha carreira avançava em um período de profundas mudanças no mundo e, não por coincidência, grande parte dessa transformação estava profundamente ligada ao progresso da tecnologia. Considero que tenho muita sorte por ter a oportunidade de ver inovações como a Internet, a tecnologia em nuvem e a Inteligência Artificial revolucionarem todos os aspectos da atividade humana. 

Ao mesmo tempo, nosso planeta entrou rapidamente em um período crítico que infelizmente ainda estamos, colocando em risco o futuro que eu esperava que a humanidade construísse usando essas novas ferramentas. A mudança climática surgiu como o desafio definidor de nossa geração e, para mim, tornou-se uma questão de convicção pessoal. 

Eu sou um surfista apaixonado, e acredito que nenhum surfista vai discordar que você constrói uma conexão especial com a natureza quando está no mar surfando as ondas. A própria noção de que a atividade humana estava destruindo o mesmo mundo que me proporciona tantos momentos de alegria, realmente, foi um sinal de alerta para mim. Como parte de uma empresa de tecnologia, percebi que nosso setor tinha uma enorme responsabilidade em endereçar essa questão, além de fornecer caminhos sem precedentes para resolver o problema. 

 

Buscando gerar impacto na América Latina 

Foi em meio à pandemia global do COVID-19 que comecei um novo capítulo na minha vida profissional. Ingressei na Microsoft como presidente da América Latina durante o período que ainda considero um ponto de virada para a região. A transformação digital estava e está se acelerando em um ritmo sem precedentes, abrindo uma janela de oportunidades para as economias em desenvolvimento darem um passo à frente em sua jornada em direção à maturidade digital inclusiva e sustentável, e eu me juntei a uma equipe que tem como missão a de contribuir para esse progresso. 

Da sustentabilidade à inclusão, da democratização à segurança, a tecnologia pode ajudar a humanidade a enfrentar seus desafios mais prementes. Quando comecei a falar com equipes de toda a região e a me envolver com os clientes e parceiros do ecossistema da Microsoft, me vi cercado e inspirado por pessoas com ideias semelhantes. A compreensão de que, como plataforma de tecnologia, temos a capacidade de empoderar outras pessoas a alcançar mais, impulsiona todas as iniciativas e as conversas. 

Pude conhecer e me envolver com projetos como o PrevisIA, lançado recentemente pela Microsoft ao lado da Vale e do Imazon, uma ferramenta que utiliza Inteligência Artificial para fornecer informações sobre regiões da Amazônia com alto risco de desmatamento e de queimadas, ou Seeing AI, um aplicativo desenvolvido pela Microsoft que usa a nuvem e a IA para transformar o mundo visual em uma experiência audível, empoderando as pessoas portadoras de deficiência visual.  

Estes são projetos que traduzem propósitos em ações reais e concretas, inovações das quais eu simplesmente não consigo parar de falar, já que traduzem a razão pela qual decidi trabalhar em tecnologia, e que são apenas a ponta do iceberg. Aquela faísca que senti anos atrás como estudante, e que me fez embarcar nesta maravilhosa jornada, transformou-se em uma realidade brilhante, e eu me realizo todos os dias fazendo parte dela. 

Ainda há muito a se fazer e estou animado com o que os próximos anos trarão para a América Latina e o Brasil. Os desafios são grandes, mas nossas ambições também.  

 

 

Aprender é sair da zona de conforto e assumir riscos 

A inspiração para alcançar uma posição de sucesso pode surgir a partir de diversas situações. Quando analiso as minhas escolhas, percebo que obtive êxito ao fugir da “zona de conforto” e me colocar em situações nas quais não sabia o suficiente, logo tive que procurar uma nova forma de entregar o que esperavam de mim. Acredito que arriscar e fazer coisas que você não sabe sequer por onde começar ensinam muito e nos deixam resilientes, tanto pessoal quanto profissionalmente. Eu sou uma pessoa competitiva, menos com os outros e mais comigo mesmo, assim sempre acredito que consigo fazer melhor.  

Constantemente faço referência a um livro que ganhei chamado “A Eterna Busca da Infelicidade”, que fala sobre a busca incansável pelo melhor. Segundo o livro, ser muito bom não basta; é preciso ser muito, muito, muito bom. Talvez essa fase traduza de forma simples como penso e faço do meu dia a dia. Não acredito que você possa ter resultados acima da média sem sacrifício pessoal, seja no mundo corporativo, nos esportes ou em qualquer atividade. 

Outra característica minha é de que nunca gostei da palavra inevitável. Desde muito pequeno, aprendi que você deve acreditar de forma visceral que tudo tem uma solução, que todo sonho é possível e que tudo tem uma saída ou uma forma de se resolver, e isso sempre fez diferença para mim. Gosto de usar uma frase do Walt Disney com os meus times: “Gosto do impossível, porque lá a concorrência é menor”. 

Outra questão são as experiências no exterior que foram tão fundamentais para o meu desenvolvimento quanto a minha formação acadêmica. Sempre entendi que ser um engenheiro com MBA em finanças me permitiu ter uma visão diferente das coisas e uma facilidade maior com números e lógica. Morar no exterior desenvolveu não somente o meu lado profissional, criando network, aprendendo mais sobre a cultura da empresa e aprofundando meus conhecimentos sobre a companhia, mas também foram experiências de vida fantásticas. Como tinha menos de 30 anos, em três das quatro vezes que fui morar fora, sentia que minha vida era uma locomotiva de aprendizado, de crescimento e de muito trabalho. Nunca reclamei. Adorava essa vida acelerada e inesperada. 

Em minha carreira sempre busquei, e continuo a ser um empreendedor.  Sempre tive a oportunidade de criar, de mudar e de arriscar. Nunca gostei do status quo e, por isso, sempre aceitei desafios complicados, tentei quebrar paradigmas e mudar as coisas, mesmo que a maioria fosse contra.  

Claro que errei. Muitas vezes. Não existe sucesso sem erro. Errar significa uma oportunidade de aprender (e não cometer o mesmo erro, claro) e na Microsoft a cultura está baseada no conceito de Growth Mindset, segundo a qual você assume riscos para inovar e aprende com eles. 

 

Valores acima de realizações 

Tenho bastante orgulho da minha carreira. Tive momentos bons e ruins. Muita gente olha e acha que foi simples, que foi fácil e que tudo sempre deu certo, mas não foi assim. Normalmente, a atenção é voltada para os acertos, mas já errei e me enganei. Porém, consegui achar uma forma de “dar a volta” e seguir adiante. Quando me perguntam o que me fez ser bem-sucedido, respondo: “Você tem que ter o coração de um empreendedor e o estômago de uma corporação”. Essa frase me retrata bem. 

Também sei que um dia o sucesso passa, pois você muda, o mercado se transforma e outros concorrentes surgem. Como diria um amigo: “a fila anda”. O mais importante para mim é construir uma história que sirva de exemplo para as pessoas com as quais tenho a oportunidade de trabalhar. É importante poder dizer que você deixou algo melhor de quando chegou, e que ajudou a mudar a vida de alguém ou que ensinou muita gente. 

Isto faz eu mencionar o que talvez seja meu papel mais importante – ser pai. Não adianta ter sucesso e ter dinheiro se você não pode estar com seus filhos, assim participar, educar, ser um exemplo para eles e ser capaz de transmitir os valores nos quais acredita. O tempo é escasso, mas não deixo de transmitir a eles que o amor é o sentimento mais forte do mundo, que humildade e simplicidade são caraterísticas fundamentais em qualquer líder, que a honestidade é a base de qualquer relacionamento e que, por último, não existe sucesso sem esforço pessoal e muito trabalho. De que vale chegar aos 70 anos e ter filhos que não possuem os mesmos valores que você?  

 

As pessoas fazem a diferença 

Tenho certeza de que meu sucesso não seria possível sem as pessoas que trabalharam comigo. Se você se cerca de pessoas melhores e mais corajosas que você, de pessoas diferentes e que tenham opiniões diferentes, você aprende muito e o sucesso será bem mais fácil. 

Acredito firmemente que a tecnologia é um dos aliados mais poderosos que temos para enfrentar os problemas mais prementes do nosso mundo, mas no final, a tecnologia não pode transformar algo sem que as pessoas a usem e a aproveitem da maneira correta. 

Talvez meu maior aprendizado seja que o propósito vem das pessoas e se relaciona com as pessoas. Pois, é a combinação de características humanas e de tecnologia que está movendo nosso mundo para o futuro. Não há progresso sem criatividade, não há inclusão sem empatia, não há sustentabilidade sem cooperação. Todas essas características humanas são os verdadeiros motores da transformação, são a razão e o objetivo final. 

Sinto-me extremamente grato por poder acordar todos os dias e perceber que cada reunião, cada encontro, cada conversa, é preenchido com a paixão e com o propósito de criar um mundo melhor.  Acredito que legado significa pouco se permanecer vinculado a um indivíduo ou a uma única organização, trata-se do que podemos criar e melhorar para aqueles que nos rodeiam e para aqueles que virão depois de nós. 

O legado acontece todos os dias e é construído a cada decisão que tomamos. Da nossa própria família aos nossos amigos, às equipes, aos colegas da indústria, às próprias cidades e países em que nascemos ou vivemos, impactando positivamente essas comunidades e esses ecossistemas.  

No fundo acredito que um pouco daquele DNA de médico, que quase me levou para a profissão, sempre existiu em mim. Gosto de estar com pessoas, ajudá-las, ensiná-las e aprender com elas. Sou curioso sobre o comportamento delas, assim tento sempre extrair o melhor. Você pode ter os melhores produtos e processos do mundo, ainda assim não ser bem-sucedido. As pessoas foram e sempre serão a diferença entre o sucesso e o fracasso. 

No fundo, meu trabalho, hoje, tem um pouco da essência que me fez pensar seriamente em ser médico – quanto mais alta a sua posição, mais importante é o seu dever de ajudar as pessoas a resolver problemas, de crescer e de construir um legado que possa trazer orgulho um dia.