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“Não limite os seus desafios; desafie os seus limites sempre com foco nos propósitos”.

Na coluna desta semana, conheça a história de Carlos Alberto Garcia

(Histórias de Sucesso/Reprodução)
DR

Da Redação

Publicado em 27 de janeiro de 2023 às 09h43.

Por Fabiana Monteiro

Ao longo de mais de três décadas atuando no mundo corporativo, construí uma carreira robusta dentro da Mercedes-Benz, companhia formidável, mundialmente conhecida e prestigiada. Desde jovem, identifiquei-me com os propósitos da multinacional, portanto, amparado por valores intrínsecos, princípios sólidos e competências que sempre me nortearam, perseverei para lograr o máximo de êxito possível, ao iniciar a minha trajetória como estagiário, até alcançar a ilustre posição de CEO & Presidente.

Apesar de ter nascido na capital paulista, em 1964, morei a vida inteira em São Bernardo, praticamente vizinho à sede da agora Mercedes-Benz Caminhões & Ônibus, sendo que meus pais, José e Maria Aparecida, são oriundos do interior, de Palmital, onde se casaram. Estudei em escolas públicas até o momento de prestar o vestibular para Engenharia Industrial, para ingressar na FEI. Meu pai trabalhava na montadora alemã, ou seja, vivencio o ambiente da companhia desde criança.

Antes de iniciar os estudos no Ensino Superior, cursei tornearia mecânica no SENAI, e comecei atuando na linha de produção de uma empresa do setor. Nesta fase da vida, concluí algumas especializações técnicas, com ênfase em projetos, provendo aprendizados significativos. A opção por Engenharia, no entanto, aconteceu por influência de um tio graduado nessa área e, assim, enveredei por esse caminho.

Trabalhei no Centro de Pesquisa Mecânica da FEI, principalmente para conseguir arcar com as despesas da faculdade. Atuava como freelancer, auxiliando no departamento de desenvolvimento e, concomitantemente, estudava com afinco. Também fiz um importante estágio que me proporcionou colocar em prática o que obtinha de conhecimento teórico.

Porém, no quarto período do curso, em 1988, encontrei com um dos meus professores da época do colegial, o Rubens Machado – ele era um dos gerentes da Mercedes-Benz, responsável pelo setor de treinamentos. Durante a conversa, o Rubens me confidenciou que havia uma vaga para o programa de estágios de férias da empresa. Enviei o currículo, e praticamente uma semana depois fui admitido como estagiário e, pouco tempo depois, recebi a proposta para ser efetivado como Analista de Recursos Humanos.

Por conta dessa movimentação, necessitei me transferir da FEI para a Universidade Santa Cecília, em Santos, em que me graduei em 1991. Jamais poderia desperdiçar a oportunidade de iniciar a carreira na Mercedes-Benz, onde estou há mais de 34 anos. O fato de a universidade se localizar na Baixada Santista fazia com que eu fosse de ônibus diariamente – algo corriqueiro no cotidiano da empresa naquela época. Como morava em frente a empresa, bastava atravessar a rua para me deparar com o portão da companhia.

A carreira edificada dentro de uma conceituada empresa

Comecei na montadora alemã em 25 de abril de 1988, como estagiário e, no dia 13 de junho, celebrei a efetivação no RH, permanecendo nesta função durante oito meses. No final daquele ano, aceitei o convite para ser o coordenador de estágio do grupo.

Meu foco sempre esteve vinculado para atuar na área comercial, haja vista que detenho o perfil de performar com sucesso neste segmento, além de ter competências técnicas específicas para me destacar em outras funções. A venda de veículos comerciais, vans, caminhões e ônibus é muito importante para a Mercedes-Benz e exige um background bastante técnico.

Porém, o setor comercial também demanda um background consistente para lidar com pessoas, ou seja, considero que “ganhei na loteria” por duas vezes, ao conseguir o estágio e depois ser efetivado em Recursos Humanos. A parte do desenvolvimento de pessoas me ajudou muito na compreensão deste outro universo, proporcionando-me ampliar “o leque” na promoção de profissionais gabaritados.

Como responsável por toda interface da empresa junto às instituições de ensino, estava à frente de uma divisão que contava com mais de 200 estagiários, englobando as divisões de Campinas, de São Bernardo e de Humaitá-AM. Também comandava os times de trainees e o Programa Universidade com o custeio de bolsas de estudo para mestrado e doutorado. Enfim, sempre estava transitando entre o mundo acadêmico e o setor prático, marcando como uma excelente etapa de desenvolvimento. Não raro, ainda encontro com muitos desses ex-estagiários que prosperaram ao seguir carreira dentro da montadora ou em outras instituições admiráveis.

Exerci essa atividade até o final de 1993, quando resolvi mudar de trajetória. Mantinha um contato grande com pessoas que vinham da Alemanha, e um desses profissionais era o Philipp Schiemer, atual CEO da Mercedes-AMG. Ele acreditava demais em mim e no meu potencial, e com toda sua influência, ajudou a viabilizar a minha transferência da área de RH para um setor que estava sendo criado dentro da empresa, com o intuito de formar um novo mercado.

Sendo assim, em 1994, fomos os precursores ao lançarmos um produto inédito no mercado brasileiro, o MB180, um veículo de carga leve. Na sequência, três anos depois, introduzimos o Sprinter no mercado, um case extremamente exitoso. Tais ações me propiciaram a oportunidade de migrar para a área comercial – o interessante nesta empreitada se deve ao fato de que todos estavam nivelados hierarquicamente, compondo um time unido de sete pessoas – detenho um imenso orgulho por ter integrado esse grupo.

A ascensão ao posto de executivo e líder

Já em 1997, assumi o projeto da Sprinter, sucessor natural do MB180, levando-me a transitar entre o Brasil e a Argentina, para desenvolver o lançamento do veículo. Portanto, desafiei-me ao abarcar também no marketing de produtos, marcando como o meu primeiro contato com o mercado internacional.

No ano seguinte, fui o escolhido para ser um dos gerentes regionais de vendas, na introdução do primeiro automóvel produzido no Brasil, o Mercedes-Benz Classe A. Essa etapa assinalou o início da minha jornada como executivo, tornando-me o responsável por montar a equipe, contratando representantes de vendas, estruturando todo o time. Com a primeira vivência gerencial, destaquei-me por assegurar cerca de 60% do volume de vendas dentro do projeto.

Desde essa experiência inicial até o presente momento, posso asseverar que, a cada três anos, deparava-me com mudanças, seja migrando entre diversas áreas de atuação, ou mesmo sendo alocado em outros países. Um exemplo icônico ocorreu em 2002, quando fui para a Alemanha para trabalhar com o projeto do smart, carro moderno, econômico e compacto. Minha base em recursos humanos me ajudou com o idioma, um grande diferencial, além de ter sido o primeiro brasileiro a atuar expatriado no headquarter de vendas, pois normalmente o caminho é o inverso.

Após retornar da Alemanha, em 2005, tive a incumbência de criar uma área dentro da Mercedes-Benz do Brasil. Neste projeto, o objetivo tratava-se de edificar uma interface entre a comunicação de mercado e vendas integrando a logística e produção. Basicamente, tive que unificar todos os setores distribuídos dentro da corporação e transformar esse nicho, que chamamos internamente de PODI (Planning, Ordering, Delivery & Invoice), envolvendo toda parte de planejamento, processamento de pedidos, faturamento de veículos e entregas.

Após concluir essa missão, em 2008, fui convocado para liderar outro desafio, ao assumir a região da América Latina como responsável de vendas de caminhões e de vans. Excetuando Brasil e Argentina, que estavam sob outra gestão, cuidávamos de todos os países entre o Uruguai até a Guatemala, gerenciando exportação, além de também prestarmos atendimento para plantas da Europa com quem comercializávamos. Posteriormente, em 2011, liderei o setor de ônibus, praticamente para exercer as mesmas funções do cargo anterior.

Contudo, três anos depois, conquistei um grande turning point, ao ser promovido a Managing Director de Marketing e Vendas de veículos comerciais para o mercado brasileiro. Enfim, depois de vinte anos, a área a qual havia sido convidado para elaborar um novo produto ficou sob a minha gestão. Retornei para implementar uma reestruturação, colocando um foco específico ao unificar a pós-venda, vendas, marketing, como se fosse uma empresa dentro de outra. Estive à frente desse processo entre 2014 e 2017.

Conforme entregava os resultados com sucesso, as propostas tornavam-se mais desafiadoras. Em 2016, recebi um convite e fui para a Argentina, onde fiquei encarregado por montar todo o escritório regional para o mercado de vans, pois nossa principal planta de produção se encontrava nesse país. Defrontei-me com aspectos culturais diferentes, partindo do zero, sendo o funcionário número 1.

Logo após concluir a operação, em 2020, recebi o chamado para ser o General Manager das nossas operações em Dubai, partindo para mais esta jornada, novamente com a minha esposa, Teresa, e nossos filhos, Pedro Henrique e João Victor. Nesta movimentação, cuidava dos negócios situados no Oriente Médio e no norte da África, entre o Paquistão e o Marrocos.

O sucesso de tais empreitadas resultou em minha promoção, no começo de 2022, para assumir como CEO e Presidente da Mercedes-Benz Cars & Vans. Hoje, somos duas companhias separadas, pertencentes a grupos distintos, derivando na Mercedes-Benz do Brasil e na Mercedes-Benz no Brasil Cars & Vans Brasil. Nossa operação conta com dois anos de formação – costumo dizer que somos uma empresa nova, porém com mais de 130 anos de idade. Dentre minhas atribuições, estou novamente formando equipes, alinhando os times, com o intuito de incrementar todos os processos e os projetos delineados pela matriz.

A inspiração proveniente de relações sólidas e sadias

A gratidão é essencial e sempre menciono pessoas que contribuíram para o meu crescimento. Perdi o contato com o professor Rubens Machado, mas isso não diminui de forma alguma a importância dele na minha trajetória. Penso que os mentores, de alguma forma, marcam sua vida observando e acreditando em seu potencial.

Já com o Philipp Schiemer mantenho conexão diária. O Philipp é um “espelho”, a quem admiro bastante. Em 2013, ele assumiu a presidência da Mercedes-Benz do Brasil e o convívio próximo me ajudou a analisar sua forma de atuação, empregando importantes habilidades de liderança, como a forma de se relacionar, o jeito de tratar o negócio e as pessoas – ele é uma referência, um exemplo. Ressalto, embasado por todos os ensinamentos angariados ao longo da carreira ao lado de profissionais, como o Philipp Schiemer, que todo mundo tem que ser tratado como cliente.

Outro ponto primordial a se destacar em termos de composição do perfil remete à fase em que atuei como DJ, durante oito anos, para ajudar no custeio da faculdade. Além de ser uma forma de escapar de toda tensão causada pelo trabalho e pelos estudos, ajudou a compreender a dinâmica do business, da diversão e de como confluir tudo isso. Metaforicamente, enxergava a pista de dança como se fosse o meu mercado. Essa atividade requer muito foco, atenção, proporcionando outras leituras em relação ao mundo empresarial.

Projetos bem-sucedidos geram orgulho e reconhecimento

A introdução do Sprinter no mercado brasileiro, idealizando e lançando esse produto, marcou em demasia a minha carreira. Comemoramos em 2022 os 25 anos desse case, e é como ver um filho nascer e vê-lo crescer. Demandou muito do meu know-how técnico ao me expor pela primeira vez em termos de trocas de culturas estrangeiras, especialmente com os argentinos.

Os idiomas que domino obtive em decorrência das necessidades exigidas pelas minhas atribuições profissionais. Outro ponto importante deu-se em 1999, quando assumi pela primeira vez como gestor, com o propósito de arquitetar uma equipe, buscando características intrínsecas nas pessoas, para que agregassem, com o devido engajamento.

E, obviamente, ter atingido o posto de CEO e Presidente da corporação me enche de orgulho, principalmente ao imaginar que esse ciclo teve início com o meu pai trabalhando na Mercedes-Benz. Infelizmente, não tivemos a oportunidade de atuar juntos, mas ocupar essa cadeira certamente é um sonho devidamente concretizado. Espero que essa breve biografia possa inspirar outras pessoas a delinearem suas respectivas carreiras.

Não limite os seus desafios; desafie os seus limites

A construção da própria carreira representa um grande turning point. A posição na qual me encontro atualmente coroa todo esforço e êxito perante os desafios enfrentados, ressaltando que iniciei como estagiário na companhia. Ao longo desses 34 anos, aprendi demais e, atualmente, necessito deter uma visão geral de todo o negócio, provendo suporte à área de recursos humanos e ao setor financeiro.

Não que antes estivesse isento de tais responsabilidades, mas hoje tenho que aplicar o “olhar de 360 graus”, com o foco em todos os setores, sempre me preparando para o que ainda virá. São grandes desafios, que trato com o máximo de perspicácia. Acredito que tenha que ser exatamente dentro dessa linha – o limite, pois, por vezes, situa-se somente dentro das nossas próprias cabeças.

Portanto, ao ponderar sobre o perfil do líder contemporâneo, pontuo como esse profissional jamais deve achar que já sabe de tudo. Em nossas atividades cotidianas, precisamos explorar o universo em nosso entorno, em busca de mais conhecimentos – não dá para assumir como premissa que algo que se conheça 100% possa ser aplicado em todos os processos, pois é essencial acreditar na existência de coisas novas a serem assimiladas.

Além disso, deixar de ouvir as pessoas é extremamente prejudicial. Quando isso ocorre, o indivíduo cria um mundo próprio, fica retido em uma bolha, o desconectando da realidade. Circulo muito dentro da empresa, interagindo com os colaboradores, e com o modelo híbrido, tornou-se mais viável implementar essa prática de promover as relações interpessoais.

No sentido de romper as barreiras, sou eu quem precisa dar o primeiro passo, apresentando-me como um modelo, aberto e disposto a ouvir os meus liderados, demonstrando interesse legítimo nas pessoas, independentemente da função. Sempre sinalizo, explano, até como forma de me ouvir sob outro viés.

A posição na qual estou não é aquilo que sou

Posso estar “várias” coisas. Hoje, sou CEO e Presidente, mas já ocupei outras posições. É imprescindível não mesclar a pessoa com aquilo que se tem como função, justamente para evitar de me frustrar, seja no âmbito pessoal ou no profissional.

Liderar não é simplesmente falar ou indicar o que deve ser feito. Na realidade, é aplicar e inspirar pelo exemplo, para que as pessoas vejam e analisem. Caso contrário, instala-se uma dicotomia: façam o que falo, mas não façam o que faço. Se precisar colocar a “mão na massa” serei o primeiro a fazê-lo – não pedirei a outrem. Com essa conduta não vou precisar pedir para alguém me seguir – será um movimento natural.

Temos alguns programas, como o Garagem Mercedes-Benz, voltado para os nossos colaboradores, para que eles tenham mais contato com os produtos automóveis e vans. Em uma dessas ações, participei como motorista na demonstração, sem que alguém soubesse. Depois surgiu o interesse. Eu, como presidente, preciso conhecer a fundo o produto, saber qual é sua função e seu valor mercadológico.

Por conta disso, costumo ponderar: se eu encontro tempo para me atualizar, permanecendo preparado para superar eventuais obstáculos, por quais razões outros colaboradores não podem contar com a mesma disposição? É muito mais fácil demonstrar, para que as pessoas tirem suas próprias conclusões, pois no ato de falar estou exercitando somente um sentido, e aprendi, amparado pela maturidade, que, quanto mais sentidos envolvemos nas atividades, conseguindo conectá-los, torna-se mais simples de as pessoas manterem os propósitos vivos na cabeça.

Assim, cria-se a memória e, através das emoções, o trabalho ganha relevância. Tudo que introduzo dentro da empresa inclui elementos como músicas, vídeos, passando até pela forma como realizo as dinâmicas, com meu jeito peculiar de me expressar. Busco transmitir paixão pelo trabalho aos colaboradores. Ao externar isso, outros captam tais sentimentos e seguem o exemplo positivo. São pontos que gosto de praticar e, conforme incorporo em minha rotina, torna-se um hábito.

Como líder, valorizo especialmente a atitude, o ato de agir, além da iniciativa de questionar. Se proporciono espaço para falar, exponha-se, não importa o que seja e sem o receio de demonstrar insegurança por conta de uma possível dúvida. Isso facilita bastante o entendimento e, por conseguinte, a comunicação. É assim que crescemos na vida pessoal e profissional. Cada pessoa é única, com suas próprias crenças – é fundamental respeitar os aspectos individuais, mas claro, com o propósito de gerar resultados em conjunto, em prol da prosperidade da empresa.

No momento, meu principal papel está concentrado no esforço para implementar todas as estratégias definidas dentro do grupo e trazê-las para o mercado brasileiro. Contudo, outro aspecto primordial é o de formar sucessores, pois da forma como estamos estruturados, quero contar com pessoas aptas a assumir qualquer posição dentro da companhia, inclusive a minha. Em função das constantes movimentações da companhia, gerar sucessores me ajuda a desenvolver a minha própria carreira.

Sempre haverá soluções para se contornar obstáculos

“Precisamos enxergar nossas vidas e carreiras como se fôssemos água corrente. Ou seja, sempre vamos nos deparar com obstáculos, mas também existirá uma forma de superá-los. Não existe vida fácil e os desafios surgem para crescermos.

É preciso correr riscos, encarar diversas situações. Nunca fui um revoltado, mas sim um inconformado. Se estiver incomodado com determinada situação, vou encontrar forças para encontrar caminhos, alternativas, com o intuito de poder contornar o problema – para tudo existe solução. Trata-se de colocar o foco na coisa correta ”.

Por Fabiana Monteiro

Ao longo de mais de três décadas atuando no mundo corporativo, construí uma carreira robusta dentro da Mercedes-Benz, companhia formidável, mundialmente conhecida e prestigiada. Desde jovem, identifiquei-me com os propósitos da multinacional, portanto, amparado por valores intrínsecos, princípios sólidos e competências que sempre me nortearam, perseverei para lograr o máximo de êxito possível, ao iniciar a minha trajetória como estagiário, até alcançar a ilustre posição de CEO & Presidente.

Apesar de ter nascido na capital paulista, em 1964, morei a vida inteira em São Bernardo, praticamente vizinho à sede da agora Mercedes-Benz Caminhões & Ônibus, sendo que meus pais, José e Maria Aparecida, são oriundos do interior, de Palmital, onde se casaram. Estudei em escolas públicas até o momento de prestar o vestibular para Engenharia Industrial, para ingressar na FEI. Meu pai trabalhava na montadora alemã, ou seja, vivencio o ambiente da companhia desde criança.

Antes de iniciar os estudos no Ensino Superior, cursei tornearia mecânica no SENAI, e comecei atuando na linha de produção de uma empresa do setor. Nesta fase da vida, concluí algumas especializações técnicas, com ênfase em projetos, provendo aprendizados significativos. A opção por Engenharia, no entanto, aconteceu por influência de um tio graduado nessa área e, assim, enveredei por esse caminho.

Trabalhei no Centro de Pesquisa Mecânica da FEI, principalmente para conseguir arcar com as despesas da faculdade. Atuava como freelancer, auxiliando no departamento de desenvolvimento e, concomitantemente, estudava com afinco. Também fiz um importante estágio que me proporcionou colocar em prática o que obtinha de conhecimento teórico.

Porém, no quarto período do curso, em 1988, encontrei com um dos meus professores da época do colegial, o Rubens Machado – ele era um dos gerentes da Mercedes-Benz, responsável pelo setor de treinamentos. Durante a conversa, o Rubens me confidenciou que havia uma vaga para o programa de estágios de férias da empresa. Enviei o currículo, e praticamente uma semana depois fui admitido como estagiário e, pouco tempo depois, recebi a proposta para ser efetivado como Analista de Recursos Humanos.

Por conta dessa movimentação, necessitei me transferir da FEI para a Universidade Santa Cecília, em Santos, em que me graduei em 1991. Jamais poderia desperdiçar a oportunidade de iniciar a carreira na Mercedes-Benz, onde estou há mais de 34 anos. O fato de a universidade se localizar na Baixada Santista fazia com que eu fosse de ônibus diariamente – algo corriqueiro no cotidiano da empresa naquela época. Como morava em frente a empresa, bastava atravessar a rua para me deparar com o portão da companhia.

A carreira edificada dentro de uma conceituada empresa

Comecei na montadora alemã em 25 de abril de 1988, como estagiário e, no dia 13 de junho, celebrei a efetivação no RH, permanecendo nesta função durante oito meses. No final daquele ano, aceitei o convite para ser o coordenador de estágio do grupo.

Meu foco sempre esteve vinculado para atuar na área comercial, haja vista que detenho o perfil de performar com sucesso neste segmento, além de ter competências técnicas específicas para me destacar em outras funções. A venda de veículos comerciais, vans, caminhões e ônibus é muito importante para a Mercedes-Benz e exige um background bastante técnico.

Porém, o setor comercial também demanda um background consistente para lidar com pessoas, ou seja, considero que “ganhei na loteria” por duas vezes, ao conseguir o estágio e depois ser efetivado em Recursos Humanos. A parte do desenvolvimento de pessoas me ajudou muito na compreensão deste outro universo, proporcionando-me ampliar “o leque” na promoção de profissionais gabaritados.

Como responsável por toda interface da empresa junto às instituições de ensino, estava à frente de uma divisão que contava com mais de 200 estagiários, englobando as divisões de Campinas, de São Bernardo e de Humaitá-AM. Também comandava os times de trainees e o Programa Universidade com o custeio de bolsas de estudo para mestrado e doutorado. Enfim, sempre estava transitando entre o mundo acadêmico e o setor prático, marcando como uma excelente etapa de desenvolvimento. Não raro, ainda encontro com muitos desses ex-estagiários que prosperaram ao seguir carreira dentro da montadora ou em outras instituições admiráveis.

Exerci essa atividade até o final de 1993, quando resolvi mudar de trajetória. Mantinha um contato grande com pessoas que vinham da Alemanha, e um desses profissionais era o Philipp Schiemer, atual CEO da Mercedes-AMG. Ele acreditava demais em mim e no meu potencial, e com toda sua influência, ajudou a viabilizar a minha transferência da área de RH para um setor que estava sendo criado dentro da empresa, com o intuito de formar um novo mercado.

Sendo assim, em 1994, fomos os precursores ao lançarmos um produto inédito no mercado brasileiro, o MB180, um veículo de carga leve. Na sequência, três anos depois, introduzimos o Sprinter no mercado, um case extremamente exitoso. Tais ações me propiciaram a oportunidade de migrar para a área comercial – o interessante nesta empreitada se deve ao fato de que todos estavam nivelados hierarquicamente, compondo um time unido de sete pessoas – detenho um imenso orgulho por ter integrado esse grupo.

A ascensão ao posto de executivo e líder

Já em 1997, assumi o projeto da Sprinter, sucessor natural do MB180, levando-me a transitar entre o Brasil e a Argentina, para desenvolver o lançamento do veículo. Portanto, desafiei-me ao abarcar também no marketing de produtos, marcando como o meu primeiro contato com o mercado internacional.

No ano seguinte, fui o escolhido para ser um dos gerentes regionais de vendas, na introdução do primeiro automóvel produzido no Brasil, o Mercedes-Benz Classe A. Essa etapa assinalou o início da minha jornada como executivo, tornando-me o responsável por montar a equipe, contratando representantes de vendas, estruturando todo o time. Com a primeira vivência gerencial, destaquei-me por assegurar cerca de 60% do volume de vendas dentro do projeto.

Desde essa experiência inicial até o presente momento, posso asseverar que, a cada três anos, deparava-me com mudanças, seja migrando entre diversas áreas de atuação, ou mesmo sendo alocado em outros países. Um exemplo icônico ocorreu em 2002, quando fui para a Alemanha para trabalhar com o projeto do smart, carro moderno, econômico e compacto. Minha base em recursos humanos me ajudou com o idioma, um grande diferencial, além de ter sido o primeiro brasileiro a atuar expatriado no headquarter de vendas, pois normalmente o caminho é o inverso.

Após retornar da Alemanha, em 2005, tive a incumbência de criar uma área dentro da Mercedes-Benz do Brasil. Neste projeto, o objetivo tratava-se de edificar uma interface entre a comunicação de mercado e vendas integrando a logística e produção. Basicamente, tive que unificar todos os setores distribuídos dentro da corporação e transformar esse nicho, que chamamos internamente de PODI (Planning, Ordering, Delivery & Invoice), envolvendo toda parte de planejamento, processamento de pedidos, faturamento de veículos e entregas.

Após concluir essa missão, em 2008, fui convocado para liderar outro desafio, ao assumir a região da América Latina como responsável de vendas de caminhões e de vans. Excetuando Brasil e Argentina, que estavam sob outra gestão, cuidávamos de todos os países entre o Uruguai até a Guatemala, gerenciando exportação, além de também prestarmos atendimento para plantas da Europa com quem comercializávamos. Posteriormente, em 2011, liderei o setor de ônibus, praticamente para exercer as mesmas funções do cargo anterior.

Contudo, três anos depois, conquistei um grande turning point, ao ser promovido a Managing Director de Marketing e Vendas de veículos comerciais para o mercado brasileiro. Enfim, depois de vinte anos, a área a qual havia sido convidado para elaborar um novo produto ficou sob a minha gestão. Retornei para implementar uma reestruturação, colocando um foco específico ao unificar a pós-venda, vendas, marketing, como se fosse uma empresa dentro de outra. Estive à frente desse processo entre 2014 e 2017.

Conforme entregava os resultados com sucesso, as propostas tornavam-se mais desafiadoras. Em 2016, recebi um convite e fui para a Argentina, onde fiquei encarregado por montar todo o escritório regional para o mercado de vans, pois nossa principal planta de produção se encontrava nesse país. Defrontei-me com aspectos culturais diferentes, partindo do zero, sendo o funcionário número 1.

Logo após concluir a operação, em 2020, recebi o chamado para ser o General Manager das nossas operações em Dubai, partindo para mais esta jornada, novamente com a minha esposa, Teresa, e nossos filhos, Pedro Henrique e João Victor. Nesta movimentação, cuidava dos negócios situados no Oriente Médio e no norte da África, entre o Paquistão e o Marrocos.

O sucesso de tais empreitadas resultou em minha promoção, no começo de 2022, para assumir como CEO e Presidente da Mercedes-Benz Cars & Vans. Hoje, somos duas companhias separadas, pertencentes a grupos distintos, derivando na Mercedes-Benz do Brasil e na Mercedes-Benz no Brasil Cars & Vans Brasil. Nossa operação conta com dois anos de formação – costumo dizer que somos uma empresa nova, porém com mais de 130 anos de idade. Dentre minhas atribuições, estou novamente formando equipes, alinhando os times, com o intuito de incrementar todos os processos e os projetos delineados pela matriz.

A inspiração proveniente de relações sólidas e sadias

A gratidão é essencial e sempre menciono pessoas que contribuíram para o meu crescimento. Perdi o contato com o professor Rubens Machado, mas isso não diminui de forma alguma a importância dele na minha trajetória. Penso que os mentores, de alguma forma, marcam sua vida observando e acreditando em seu potencial.

Já com o Philipp Schiemer mantenho conexão diária. O Philipp é um “espelho”, a quem admiro bastante. Em 2013, ele assumiu a presidência da Mercedes-Benz do Brasil e o convívio próximo me ajudou a analisar sua forma de atuação, empregando importantes habilidades de liderança, como a forma de se relacionar, o jeito de tratar o negócio e as pessoas – ele é uma referência, um exemplo. Ressalto, embasado por todos os ensinamentos angariados ao longo da carreira ao lado de profissionais, como o Philipp Schiemer, que todo mundo tem que ser tratado como cliente.

Outro ponto primordial a se destacar em termos de composição do perfil remete à fase em que atuei como DJ, durante oito anos, para ajudar no custeio da faculdade. Além de ser uma forma de escapar de toda tensão causada pelo trabalho e pelos estudos, ajudou a compreender a dinâmica do business, da diversão e de como confluir tudo isso. Metaforicamente, enxergava a pista de dança como se fosse o meu mercado. Essa atividade requer muito foco, atenção, proporcionando outras leituras em relação ao mundo empresarial.

Projetos bem-sucedidos geram orgulho e reconhecimento

A introdução do Sprinter no mercado brasileiro, idealizando e lançando esse produto, marcou em demasia a minha carreira. Comemoramos em 2022 os 25 anos desse case, e é como ver um filho nascer e vê-lo crescer. Demandou muito do meu know-how técnico ao me expor pela primeira vez em termos de trocas de culturas estrangeiras, especialmente com os argentinos.

Os idiomas que domino obtive em decorrência das necessidades exigidas pelas minhas atribuições profissionais. Outro ponto importante deu-se em 1999, quando assumi pela primeira vez como gestor, com o propósito de arquitetar uma equipe, buscando características intrínsecas nas pessoas, para que agregassem, com o devido engajamento.

E, obviamente, ter atingido o posto de CEO e Presidente da corporação me enche de orgulho, principalmente ao imaginar que esse ciclo teve início com o meu pai trabalhando na Mercedes-Benz. Infelizmente, não tivemos a oportunidade de atuar juntos, mas ocupar essa cadeira certamente é um sonho devidamente concretizado. Espero que essa breve biografia possa inspirar outras pessoas a delinearem suas respectivas carreiras.

Não limite os seus desafios; desafie os seus limites

A construção da própria carreira representa um grande turning point. A posição na qual me encontro atualmente coroa todo esforço e êxito perante os desafios enfrentados, ressaltando que iniciei como estagiário na companhia. Ao longo desses 34 anos, aprendi demais e, atualmente, necessito deter uma visão geral de todo o negócio, provendo suporte à área de recursos humanos e ao setor financeiro.

Não que antes estivesse isento de tais responsabilidades, mas hoje tenho que aplicar o “olhar de 360 graus”, com o foco em todos os setores, sempre me preparando para o que ainda virá. São grandes desafios, que trato com o máximo de perspicácia. Acredito que tenha que ser exatamente dentro dessa linha – o limite, pois, por vezes, situa-se somente dentro das nossas próprias cabeças.

Portanto, ao ponderar sobre o perfil do líder contemporâneo, pontuo como esse profissional jamais deve achar que já sabe de tudo. Em nossas atividades cotidianas, precisamos explorar o universo em nosso entorno, em busca de mais conhecimentos – não dá para assumir como premissa que algo que se conheça 100% possa ser aplicado em todos os processos, pois é essencial acreditar na existência de coisas novas a serem assimiladas.

Além disso, deixar de ouvir as pessoas é extremamente prejudicial. Quando isso ocorre, o indivíduo cria um mundo próprio, fica retido em uma bolha, o desconectando da realidade. Circulo muito dentro da empresa, interagindo com os colaboradores, e com o modelo híbrido, tornou-se mais viável implementar essa prática de promover as relações interpessoais.

No sentido de romper as barreiras, sou eu quem precisa dar o primeiro passo, apresentando-me como um modelo, aberto e disposto a ouvir os meus liderados, demonstrando interesse legítimo nas pessoas, independentemente da função. Sempre sinalizo, explano, até como forma de me ouvir sob outro viés.

A posição na qual estou não é aquilo que sou

Posso estar “várias” coisas. Hoje, sou CEO e Presidente, mas já ocupei outras posições. É imprescindível não mesclar a pessoa com aquilo que se tem como função, justamente para evitar de me frustrar, seja no âmbito pessoal ou no profissional.

Liderar não é simplesmente falar ou indicar o que deve ser feito. Na realidade, é aplicar e inspirar pelo exemplo, para que as pessoas vejam e analisem. Caso contrário, instala-se uma dicotomia: façam o que falo, mas não façam o que faço. Se precisar colocar a “mão na massa” serei o primeiro a fazê-lo – não pedirei a outrem. Com essa conduta não vou precisar pedir para alguém me seguir – será um movimento natural.

Temos alguns programas, como o Garagem Mercedes-Benz, voltado para os nossos colaboradores, para que eles tenham mais contato com os produtos automóveis e vans. Em uma dessas ações, participei como motorista na demonstração, sem que alguém soubesse. Depois surgiu o interesse. Eu, como presidente, preciso conhecer a fundo o produto, saber qual é sua função e seu valor mercadológico.

Por conta disso, costumo ponderar: se eu encontro tempo para me atualizar, permanecendo preparado para superar eventuais obstáculos, por quais razões outros colaboradores não podem contar com a mesma disposição? É muito mais fácil demonstrar, para que as pessoas tirem suas próprias conclusões, pois no ato de falar estou exercitando somente um sentido, e aprendi, amparado pela maturidade, que, quanto mais sentidos envolvemos nas atividades, conseguindo conectá-los, torna-se mais simples de as pessoas manterem os propósitos vivos na cabeça.

Assim, cria-se a memória e, através das emoções, o trabalho ganha relevância. Tudo que introduzo dentro da empresa inclui elementos como músicas, vídeos, passando até pela forma como realizo as dinâmicas, com meu jeito peculiar de me expressar. Busco transmitir paixão pelo trabalho aos colaboradores. Ao externar isso, outros captam tais sentimentos e seguem o exemplo positivo. São pontos que gosto de praticar e, conforme incorporo em minha rotina, torna-se um hábito.

Como líder, valorizo especialmente a atitude, o ato de agir, além da iniciativa de questionar. Se proporciono espaço para falar, exponha-se, não importa o que seja e sem o receio de demonstrar insegurança por conta de uma possível dúvida. Isso facilita bastante o entendimento e, por conseguinte, a comunicação. É assim que crescemos na vida pessoal e profissional. Cada pessoa é única, com suas próprias crenças – é fundamental respeitar os aspectos individuais, mas claro, com o propósito de gerar resultados em conjunto, em prol da prosperidade da empresa.

No momento, meu principal papel está concentrado no esforço para implementar todas as estratégias definidas dentro do grupo e trazê-las para o mercado brasileiro. Contudo, outro aspecto primordial é o de formar sucessores, pois da forma como estamos estruturados, quero contar com pessoas aptas a assumir qualquer posição dentro da companhia, inclusive a minha. Em função das constantes movimentações da companhia, gerar sucessores me ajuda a desenvolver a minha própria carreira.

Sempre haverá soluções para se contornar obstáculos

“Precisamos enxergar nossas vidas e carreiras como se fôssemos água corrente. Ou seja, sempre vamos nos deparar com obstáculos, mas também existirá uma forma de superá-los. Não existe vida fácil e os desafios surgem para crescermos.

É preciso correr riscos, encarar diversas situações. Nunca fui um revoltado, mas sim um inconformado. Se estiver incomodado com determinada situação, vou encontrar forças para encontrar caminhos, alternativas, com o intuito de poder contornar o problema – para tudo existe solução. Trata-se de colocar o foco na coisa correta ”.

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