Mulheres no Mercado Imobiliário: a mudança necessária

Apesar do crescimento das oportunidades, as mulheres ainda enfrentam diversos desafios ao lutar por espaço no mercado imobiliário
Mercado imobiliário: até 1958, por lei, somente homens podiam trabalhar como corretores de imóveis – ano em que esse artigo foi alterado pelo Tribunal de Justiça (Germano Lüders/Exame)
Mercado imobiliário: até 1958, por lei, somente homens podiam trabalhar como corretores de imóveis – ano em que esse artigo foi alterado pelo Tribunal de Justiça (Germano Lüders/Exame)
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Genoma ImobiliárioPublicado em 29/06/2022 às 11:52.

Gabriela Zaninetti*

Em quase todas as áreas de atuação, as mulheres têm conquistado cada vez mais espaço, inclusive em posições mais altas no mercado de trabalho, mas esta é uma batalha ainda em jogo. No setor de imóveis, isso não é diferente. Apesar do crescimento das oportunidades, as mulheres ainda enfrentam diversos desafios ao lutar por espaço no mercado imobiliário.

Até 1958, por lei, somente homens podiam trabalhar como corretores de imóveis – ano em que esse artigo foi alterado pelo Tribunal de Justiça, permitindo que as mulheres pudessem também começar a exercer esse cargo. No entanto, somente nos anos 90 é que a participação feminina no setor passou a ser maior.

O debate sobre a importância da igualdade entre os gêneros ganha palco no cenário político econômico a partir da década de 70, buscando principalmente fortalecer o papel da mulher no crescimento econômico. Mas, um dos principais marcos, e que ainda pode ser considerado recente, é que em 2006 a igualdade entre gêneros foi estabelecida como um dos objetivos do milênio pela ONU e foi apresentado um plano chamado de “Gender Equality as Smart Economics”.

O princípio desse plano era simples: a subutilização da capacidade feminina no mercado de trabalho era ineficiente, portanto promover o equilíbrio de oportunidades, principalmente em educação, promoveria um aumento das posições ocupadas por  mulheres, o que levaria ao aumento dos rendimentos e, consequentemente, à redução da pobreza e ao crescimento econômico.

Nas últimas décadas os esforços para incentivar o aumento de oportunidades para mulheres no mercado de trabalho têm crescido consideravelmente e podemos acompanhar cada vez mais um crescimento da capacitação e qualificação feminina. No entanto, o caminho ainda tende a ser longo, pois apesar das conquistas, as mulheres ainda estão marcadas na lista das altas taxas de desemprego, os salários são em média mais baixos que os dos homens, e existem diversos setores em que a concentração é majoritariamente masculina: em especial, o mercado imobiliário brasileiro.

Para exemplificar, podemos citar alguns números: na base desse setor, 94% dos profissionais da área de ajudantes de obras civis (inclui, por exemplo, pedreiros) empregados formalmente em 2010, eram homens. Em 2020, esse percentual aumentou, chegando a 97%, segundo os dados do Ministério da Economia. Além disso, quase todas as profissões ligadas à base do setor, tais como, supervisores de construção, pintores e eletricistas, em média superam em 95% a participação masculina no mercado ainda em 2020.

Muito dessa movimentação é justificada pela herança da legislação trabalhista, anterior a 1988, em que o artigo 387 impedia que mulheres exercessem funções ligadas a trabalhos subterrâneos, mineração, pedreiras e obras de construção públicas ou particulares, ou seja, por décadas as mulheres eram formalmente impedidas de exercer tais profissões.

Já ao pensarmos nas profissões que exigem diplomas de ensino superior, segundo os dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), temos alguns avanços em 2020. O número de arquitetas é de 61%, e elas já eram a maioria com 57% da participação do mercado formal em 2010. Também é interessante ressaltar a figura de design de interiores em 2020: 59% das profissionais formadas trabalhando formalmente na área eram mulheres. Ambas as profissões estão ligadas a habilidades artísticas e também à figura feminina.

Na engenheira civil, em 2020, apenas 23% dos profissionais que estavam trabalhando formalmente na área eram mulheres, em 2010 o percentual era menor, chegando a 19%. As engenheiras eletroeletrônicas, responsáveis principalmente pelas estruturas de transmissão de energia elétrica, água e gás na área da construção civil, formaram apenas 10%  das contrações em 2020.

Além das profissões nas áreas de construção e design, destaca-se o corretor de imóveis como figura tradicional do setor. Em 2010, a participação feminina era de 44%, uma década depois passou a ser de 49%, ou seja, temos 51% dos corretores de imóveis sendo homens. Outro ponto é que as mulheres contratadas para serem corretoras em 2010 recebiam em média um rendimento 19% menor do que o dos homens contratados para a mesma posição.  Em 2020, houve um pequeno avanço com a  diferença entre o rendimento médio feminino em relação ao masculino que passou a ser 17% menor.

Estes são apenas alguns exemplos que conseguimos levantar com a nossa inteligência de dados. Para mitigar esses efeitos, temos a obrigação de promover capacitação e colocar uma lupa em iniciativas que promovam a diversidade no setor, como o Conecta Imobi, por exemplo. Hoje o evento é um dos mais completos da América Latina em termos de atualização profissional e relacionamento que reúne todo ecossistema do setor e esse ano - em especial - a diversidade será um dos temas centrais.

Se pudermos chegar a algum consenso sobre o respeito e espaço dado para diversidade e inclusão no mercado é que os recortes apresentados só comprovam a importância da igualdade e da equidade para o desenvolvimento e evolução da sociedade como um todo. O mundo apenas ganhará com isso.

*Gabriela Zaninetti é vice-presidente de Marketing do ZAP+