A volta do cafezinho

A retomada do trabalho presencial é uma tendência que já vem sendo adotada no exterior
Faria Lima: os proprietários de edifícios de alto padrão também se preocupam com a questão da sustentabilidade e os escritórios estão cada vez mais atualizados e alinhados com as políticas ESG (Germano Lüders/Exame)
Faria Lima: os proprietários de edifícios de alto padrão também se preocupam com a questão da sustentabilidade e os escritórios estão cada vez mais atualizados e alinhados com as políticas ESG (Germano Lüders/Exame)
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Genoma Imobiliário

23 de julho de 2022, 08h05

A chegada da pandemia da covid-19 em 2020 trouxe um desafio global para a grande maioria das empresas. Com a adoção do trabalho totalmente remoto como uma das estratégias para a contenção da disseminação do vírus, colaboradores ao redor do mundo tiveram que se adaptar a uma dinâmica de trabalho até então pouco usual.

No Brasil não foi diferente, e as empresas se adaptaram e adotaram um modelo de trabalho “100% home office” durante parte de 2020 e 2021. Porém, com a maciça vacinação da população adulta e um cenário cada vez mais próximo da contenção da disseminação da doença, muitas empresas iniciaram a volta gradual aos escritórios. Esse movimento também aqueceu os debates sobre a real necessidade dos amplos espaços de trabalho e do convívio presencial diário. Surge então uma pergunta: estaríamos prestes a vivenciar a predominância do ambiente de trabalho virtual sobre o presencial?

Os dados não comprovam essa teoria. Vemos que a retomada do trabalho presencial é uma tendência que já vem sendo adotada no exterior, incluindo casos de empresas de tecnologia que não só voltaram aos escritórios, mas também estão buscando mais espaço, de modo a permitir uma configuração mais flexível e amigável dos ambientes corporativos. No Brasil não está sendo diferente. Mesmo em períodos mais críticos da pandemia, a demanda por metro quadrado em escritórios de alto padrão continuou a existir – na Brookfield vimos a taxa de ocupação média dos nossos edifícios comerciais aumentar de 86% para 97% nesse período. Um exemplo interessante é que alguns locatários já começaram a solicitar a ampliação da área alugada para proporcionar maior distanciamento entre as mesas e aumentar a segurança e conforto de seus colaboradores, e também oferecer mais espaços colaborativos.

A hora dos escritórios de alta qualidade

Essa tendência também se reflete na busca cada vez mais intensa por escritórios em edifícios de alto padrão, com classificações que variam entre A, AA e AAA, em localizações estratégicas e com diferenciais que focam no bem-estar dos ocupantes. Estamos falando de benefícios e amenidades nas áreas comuns do edifício, tais como barbearia, espaço pet, food trucks, lavanderia e sapataria, entre outros. Nas próprias áreas privativas das empresas a tendência é a mesma, com a implantação, por exemplo, de áreas de relaxamento, restaurantes temáticos, auditórios, salas de criatividade, de jogos e até mesmo creches. São diferenciais que contribuem diretamente com a atração e retenção de talentos, tendo em vista que elevam a experiência do trabalho presencial e aumentam o desejo de retornar aos escritórios.

Antes da pandemia, a taxa média de ocupação de empresas dos setores de serviços e indústria era de uma pessoa para cada 10m². Bancos de investimentos, que possuíam ambientes mais generosos, separavam 20m² para cada funcionário. Hoje, já identificamos casos de empresas dos setores de serviços e indústria com uma pessoa para cada 25 m², mesmo com parte dos colaboradores em sistema híbrido.

Além disso, os proprietários de edifícios de alto padrão também se preocupam com a questão da sustentabilidade e os escritórios estão cada vez mais atualizados e alinhados com as políticas ESG. A maior parte dos prédios da Brookfield em operação e todos em desenvolvimento no Brasil, por exemplo, contam com certificações como LEED, do Green Building Council, que atestam benefícios como bem-estar dos ocupantes, a acessibilidade dos espaços e o compromisso ambiental dos empreendimentos. As construções que seguem esses altos padrões de qualidade sempre acabam conquistando reconhecimentos importantes. Em abril de 2022, os edifícios 17007 Nações, Brazilian Financial Center e Eldorado Business Tower, todos em São Paulo, receberam a certificação Well Health-Safety Rating, e agora são certificados com políticas, protocolos operacionais e de manutenção, planos de emergência e educação de stakeholders para endereçar um ambiente cada vez mais seguro e saudável no futuro.

Como resultado, tais edifícios apresentam uma taxa de vacância mais baixa, o que se manteve inclusive nos períodos mais críticos da pandemia, e apontam para uma tendência que já está se consolidando no exterior: a busca cada vez maior por escritórios de alta qualidade. Essa movimentação tem sido percebida pela Brookfield, que atua em mais de 30 países e em alguns dos principais centros empresariais, como Nova York, Sydney, Londres, Seul e Dubai. Em Nova York, por exemplo, 84% das atividades de locação no centro de Manhattan, desde o início da pandemia, ocorreram com ativos de classe A ou considerados premium.

Escritórios como hubs de interação e fortalecimento cultural

Para além da questão do espaço físico, e por mais que tenhamos vivido um longo período longe do nosso ambiente de trabalho usual, é inegável que os escritórios ainda possuem relevância na relação dos colaboradores com suas empresas, sendo um dos principais agentes para uma dinâmica de trabalho que permite uma troca e compartilhamento de experiências mais rica, algo que nem sempre o trabalho remoto consegue entregar.

Mesmo que o trabalho à distância tenha sido uma solução eficaz e necessária durante o período mais rigoroso da pandemia, ele não substitui a interação humana que o trabalho presencial é capaz de proporcionar. O uso amplo de ferramentas que minimizaram a falta da socialização com colegas, por exemplo, foi necessário para recriar uma experiência parecida com o contato real, o que corrobora nossa necessidade de interações presenciais. Também vale destacar que o convívio presencial é particularmente importante para os novos talentos e jovens profissionais no desenvolvimento de suas carreiras. Em um ambiente virtual, a colaboração, as interações, a atenção pessoal e a orientação tornam-se mais difíceis, e fazer com que os novos contratados se sintam incluídos no futuro de uma empresa e abracem a cultura corporativa pode ser desafiador.

Sendo assim, já enxergamos sinais de que o “novo normal” será muito mais similar a nosso cenário pré-pandemia do que se imaginava, com os escritórios ressurgindo como um centro de gravidade para as empresas e seus colaboradores. Evidentemente, dentro de um novo contexto de busca por escritórios de alta qualidade, com a oferta de maior segurança e conforto, adaptações que acentuem os benefícios do trabalho presencial e, ao mesmo tempo, complementem o trabalho remoto. Manteremos o espaço para trabalhar de casa, mas já estamos voltando à rotina do bom e velho “cafezinho” entre colegas, momento importante para interações sociais que aproximam as pessoas e fazem com que a cultura da empresa seja construída, compartilhada e perenizada.

Roberto Perroni é Líder do Negócio Imobiliário da Brookfield no Brasil e é responsável pela aquisição e desenvolvimento de um dos maiores portfólios imobiliários do país, composto por edifícios corporativos, parques logísticos, empreendimentos multifamily e shopping centers.