Regine Feigel, a empreendedora do século XX

As elites brasileiras padecem do vício de condenar ao ostracismo as mulheres que inovaram o empreendedorismo no século passado
 (foto/Thinkstock)
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Coriolano GattoPublicado em 17/12/2020 às 15:54.

As elites brasileiras padecem do vício de condenar ao ostracismo as mulheres que inovaram o empreendedorismo no século passado. Elas se transformam em personagens fadadas ao esquecimento.

A empresária Regine Feigel faz parte desse círculo. Nascida em uma família judia polonesa, em 1897, e tendo estudado em Viena, à época capital do Império Austro-Húngaro, ela foge dos nazistas com o marido, o notável químico Fritz Feigel e o filho, de Bruxelas até Lisboa _ então uma espécie de Suíça europeia durante a Segunda Guerra Mundial _ para o Brasil, em 1940. A família chegou a cogitar ir para os Estados Unidos - o então ditador Getulio Vargas nutria simpatias pela Alemanha nazista -, mas, para o bem do Brasil, optou por fixar moradia no Rio, o distrito federal.

À exceção da comunidade judaica carioca e da PUC-Rio, onde fora professora e benemérita, a sua história desapareceu do tempo. Feigel era doutora em Química, engenheira nata e com sólidos conhecimentos de finanças e de economia.

Feigel já teria entrado para a galeria dos grandes nomes do empreendedorismo apenas por um feito de enormes proporções: a construção do moderno Edifício Avenida Central, no coração do Centro do Rio, o primeiro e o mais alto prédio erguido sobre estrutura de aço pré-moldado produzido no Brasil. Para ganhar a concorrência do terreno, onde se encontrava o velho hotel Avenida, Feigel, que antevia o futuro, contratou, em 1954, o advogado Heráclito de Fontoura Sobral Pinto para resolver problemas legais com o então governo da capital federal em torno do certame.

Nesse momento, ela dá o grande salto como uma visionária em um país atrasado: estoca o máximo de material que estava ao seu alcance, em um galpão do subúrbio, e propõe entregar o prédio antes do prazo previsto _ um grande conjunto de mais de mil salas e cerca de 250 lojas. A cada mês antecipado, ganharia uma espécie de bônus. As autoridades debocharam da ousadia da empresária, pois naquela época era comum a entrega de prédios comerciais atrasar muitos meses dada a escassez de matéria prima e de mão de obra. Feigel apresentou a melhor proposta e cumpriu à risca o que fora projetado: em maio de 1961, já no Estado da Guanabara, alguns meses antes do prazo, é inaugurado com pompa o que seria, duas décadas mais tarde, o conceito moderno de um shopping center - antes ela desenvolvera o Centro Comercial de Copacabana, Zona Sul do Rio, na tradicional rua Siqueira Campos.

A empresária tinha uma rara capacidade para transformar ideias em negócios sólidos e lucrativos. Foi assim com a fábrica de alcaloides, a ALCA, em 1944, quatro anos depois de chegar ao Brasil, com a colaboração técnica do seu marido, Fritz, professor catedrático da antiga Escola Nacional de Química, hoje pertencente à UFRJ.

Os projetos fervilhavam. Ao descobrir que durante a Segunda Guerra Mundial o Brasil jogava ao mar o café que não era exportado _ até início dos anos 1960 representava 70% da pauta de nossas vendas externas _, Regine, com a ajuda do marido, e a colaboração decisiva de Mario da Silva Pinto, então chefe do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM, junta os fios da meada. (Mario Pinto, duas décadas depois, teria  como sócio Roberto Campos na Consultec, a primeira empresa de projetos do país).

A empresária transformou o café desperdiçado em cafeína, vendendo, por três anos, à Coca-Cola do Brasil, amealhando uma grande fortuna. Durante o conflito armado, com navios alemães alvejando o Forte do Leme, no Rio, ela viu uma enorme oportunidade. E não perdeu tempo. (O mesmo Leme seria a sua última moradia nos anos 1980).

Voltemos ao arranha céu Avenida Central, situado à Avenida Rio Branco, 156. O projeto, como foi dito, tinha como alvo demolir o Hotel Avenida, pertencente à canadense Light, mas o governo - o Rio foi capital federal até 1960 - criou barreiras, alegando dívidas da empresa estrangeira, apelidada, nos anos 1950, de “polvo canadense” pela esquerda brasileira devido aos monopólios da empresa, alguns feitos com a ajuda do governo federal. Ajuda? É melhor não falar disso.  Feigel contratou Sobral Pinto porque nutria por ele enorme respeito pela defesa de presos políticos, durante o Estado Novo de Getulio Vargas (1937-1945).

Com sólido conhecimento de direito administrativo, o experiente advogado criminal abre caminho para demover todos os obstáculos do procurador demagogo, segundo palavras de Sobral que não levava desaforo para a casa e tinha a verve afiada, além de missivista compulsivo (foram cerca de 15 mil cartas).  Anos mais tarde, o antigo procurador federal, Alexandre José Barbosa Lima Sobrinho, escritor, jornalista e político, e Sobral estariam juntos no combate à tigrada.

Conhecendo a fama de Sobral Pinto de não aceitar honorários (“não posso, não quero e não vou fazer”), Feigel faz uma jogada de mestre de xadrez: custeou uma cirurgia cara em Nova York nos nervos trigêmeos e concedeu uma sala no empreendimento. Com isso, juntou uma iniciativa humanitária - o advogado não dispunha de recursos - com o pagamento de todas as custas da cirurgia. Sobral Pinto não sabia,  mas quem ocuparia também uma sala no Avenida Central seria o coronel Golbery do Couto e Silva, já preparando a conspiração que derrubaria João Goulart, em 31 de março de 1964.

Como se não bastassem tantos investimentos na área imobiliária, ela se dividia dando aulas na PUC-Rio, onde Sobral Pinto era professor de Direito, e fazendo caridade. Doou generosos recursos para a Pró-Matre _ não esqueçam cara leitora e caro leitor que ela perdera o seu único filho aos 23 anos de câncer _, para a Orquestra Sinfônica Brasileira e para o Museu de Arte Moderno (MAM) do Rio, a exemplo do que fizera Alberto Soares Sampaio, pioneiro da petroquímica, ao MASP. Os dois empresários, não à toa, têm os seus nomes em relevo na PUC-Rio, uma universidade de excelência em todos os campos do conhecimento.

Como toda grande empreendedora, era econômica em conceder entrevistas, mas capaz de produzir frases singelas como essa:

“O meu ideal é realizar alguma coisa, e poder provar que uma mulher tem coragem”.

Regine quebrou outro paradigma, nos anos 1920: era uma moça moderna que recusava o casamento em troca de uma vida pacata de dona de casa. Ela gostava do seu ofício e certamente repetiria uma velha frase do político Ulysses Guimarães: transforme o seu dever no seu prazer.

Dona Regine - como era respeitosamente chamada - tinha uma coragem fora do comum, como a do seu amigo Sobral Pinto.

Os dois asseverariam uma famosa frase de Dom Hélder Câmara, um bispo católico caridoso, que vivia como um verdadeiro monge:

“Quando os problemas se tornam absurdos, os desafios se tornam apaixonantes.”

Nessa paixão, Dona Regine, que passou os seus últimos dias no prédio que leva o seu nome no início da Avenida Atlântica, Leme, deixou lições de que o Brasil é possível mesmo ainda em tempos de capitalismo de compadrio e de cartórios poderosos.

Morreu aos 94 anos, em 1991, o mesmo ano de falecimento do velho amigo Sobral Pinto, que chegou aos 98 anos. Na festa de 90 anos do advogado, Dona Regine, segundo uma testemunha, deu boas risadas com o aniversariante, aquele que admirava a coragem de Luís Carlos Prestes, seu antigo cliente, e de muitos outros ex-presos políticos. Regine e Sobral morreram lúcidos, mesmo tendo enterrado entes queridos ao longo de suas vidas cheias de aventuras. Sobral foi um católico tradicional, ela uma judia convencional. Eles prestaram um bom serviço ao país e a seus clientes.

* Coriolano Gatto é jornalista e colunista da EXAME