Adriano Lima: "O líder que não encontra espaço para suas relações começa a perder a capacidade de construir relações"
Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 23 de setembro de 2026 às 09h50.
Durante muito tempo, construímos uma imagem perigosa sobre liderança.
A do líder que aguenta tudo.
Aquele que suporta pressão, toma decisões difíceis, entrega resultado, resolve conflitos, cuida do time e continua em frente independentemente do que esteja acontecendo na própria vida.
Eu mesmo já acreditei muito nisso.
Hoje acredito em outra coisa: líder que não se sustenta desaba sobre os outros.
É justamente por isso que um dos pilares do Sistema L5, que nasce da tese de Liderança Nada Artificial, é o Lastro.
Lastro é aquilo que sustenta alguém quando a pressão aumenta.
E não estou falando apenas de saúde mental. Estou falando de saúde integral. Da capacidade de sustentar as diferentes dimensões da vida: profissional, familiar, física, mental, social, financeira e espiritual.
Porque nenhuma delas fica do lado de fora quando entramos no escritório.
Existe uma fantasia corporativa de que conseguimos separar perfeitamente o profissional do pessoal.
Não conseguimos.
O líder que dorme mal lidera cansado. O líder que vive permanentemente ansioso toma decisões sob ansiedade. O líder que não encontra espaço para suas relações começa a perder a capacidade de construir relações. O líder que vive no limite tende a espalhar esse limite pelo ambiente.
E isso não é apenas uma questão individual. É uma questão de liderança.
Uma pesquisa da Accenture mostrou que apenas 26% dos CEOs têm uma estratégia de saúde e bem-estar incorporada ao negócio, embora 96% reconheçam que poderiam fazer mais para apoiar o bem-estar das pessoas.
Existe uma distância enorme entre reconhecer o problema e transformar essa preocupação em gestão.
E talvez exista uma pergunta anterior a todas elas: quem está cuidando de quem precisa cuidar de todo mundo?
Quando falamos em equilíbrio, parece que estamos propondo uma vida em que tudo funciona ao mesmo tempo.
Carreira brilhante, família perfeita, corpo saudável, dinheiro organizado, amigos presentes, espiritualidade em dia e oito horas de sono.
Essa vida provavelmente não existe.
Eu prefiro falar em sustentação.
Haverá momentos em que o trabalho exigirá mais. Outros em que a família precisará ocupar o centro. Haverá períodos de enorme energia e outros em que será necessário diminuir o ritmo.
Lastro não é distribuir a vida matematicamente. É perceber quando uma dimensão começa a comprometer todas as outras.
Aprendi isso também pela experiência.
Em mais de três décadas de carreira executiva, vivi ambientes de enorme pressão, grandes transformações, fusões, turnarounds, crescimento acelerado e decisões difíceis. Em alguns momentos, descobri que performance sem sustentação cobra sua conta.
Por isso, quando hoje falo sobre liderança, não consigo separar resultado da pessoa que precisa produzi-lo.
Liderar é entregar resultados de maneira sustentável.
Se o resultado destrói sistematicamente quem o produz, alguma coisa está errada no modelo.
Existe uma ironia acontecendo agora.
Quanto mais inteligência artificial colocamos dentro das organizações, maior nossa capacidade de automatizar tarefas, analisar informações, gerar cenários, acompanhar indicadores e acelerar decisões.
Em tese, deveríamos ganhar tempo.
A pergunta é: o que faremos com esse tempo?
Vamos devolvê-lo às pessoas ou simplesmente preencher cada minuto liberado com mais trabalho, mais reuniões, mais metas e mais cobrança?
Esse talvez seja um dos grandes testes da liderança nos próximos anos.
Porque a IA pode aumentar nossa capacidade de processamento. Mas não aumenta automaticamente nossa capacidade emocional.
Ela não melhora nossas relações. Não cria vínculos verdadeiros com nossos filhos. Não substitui amigos. Não faz exercício por nós. Não organiza nossa relação com dinheiro. Não constrói propósito. Não responde às grandes perguntas da nossa existência.
E não assume as consequências humanas das nossas escolhas.
Quanto mais artificialmente inteligente se tornar a gestão, mais humana precisará ser a liderança.
Talvez algumas perguntas sejam mais importantes para um líder hoje do que aprender mais um novo prompt.
Como está meu corpo?
Como está minha cabeça?
Como estão minhas relações?
Como está minha família?
Tenho pessoas com quem consigo conversar sem precisar representar o papel de líder?
Minha vida financeira me dá liberdade ou aumenta minha ansiedade?
Existe espaço para algo que dê sentido à minha vida além do crachá?
E talvez a pergunta mais incômoda: o que daquilo que não estou conseguindo sustentar em mim já estou despejando sobre os outros?
Porque o time percebe.
Percebe o líder ansioso. O líder permanentemente irritado. O líder que perdeu a capacidade de ouvir. O líder que transforma sua urgência em urgência para todos. O líder que cobra serenidade enquanto distribui tensão pelo ambiente.
Liderança nunca foi apenas sobre aquilo que fazemos. Também é sobre o lugar de onde fazemos.
Na era da inteligência artificial, máquinas serão cada vez melhores em sustentar processos, informações, indicadores e tarefas.
Mas alguém ainda precisará sustentar as relações.
E, para sustentar pessoas, primeiro precisamos aprender a sustentar a nós mesmos.
Esse é o Lastro.
Talvez seja o L mais silencioso do Sistema L5. Até o dia em que ele falta.
Porque líder que não se sustenta desaba sobre os outros.