Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 1 de julho de 2026 às 14h03.
Última atualização em 1 de julho de 2026 às 14h04.
No intervalo de Brasil e Japão, a Seleção Brasileira estava perdendo, jogando mal e carregando aquela sensação incômoda de que o pior podia acontecer. Em Copa do Mundo, alguns minutos ruins não parecem apenas alguns minutos ruins. Parecem uma sentença. O Japão havia saído na frente, o Brasil tinha dificuldade para impor seu jogo, e o ambiente emocional começava a pesar mais do que o próprio placar.
Foi justamente ali que apareceu uma das maiores virtudes da liderança: a capacidade de não transferir ansiedade para o grupo.
Pelos relatos dos jogadores após a partida, Carlo Ancelotti não promoveu uma revolução no intervalo. Não desmontou emocionalmente a equipe, não transformou o vestiário em um tribunal nem buscou culpados. Ajustou aspectos táticos, preservou a confiança no plano de jogo e reforçou uma mensagem simples, mas poderosa: manter o foco, continuar executando e acreditar que o primeiro gol chegaria. Depois dele, o segundo teria grandes chances de acontecer.
Foi exatamente assim.
O Brasil empatou com Casemiro e virou nos acréscimos, com Gabriel Martinelli, vencendo o Japão por 2 a 1 e garantindo a classificação. Mais do que uma virada no placar, foi uma demonstração de que, nos momentos de maior pressão, a serenidade pode ser mais decisiva do que a velocidade das decisões.
Essa cena me fez pensar em quantas vezes vemos exatamente o contrário dentro das empresas.
Um trimestre abaixo do esperado, um projeto atrasado, uma meta perdida, uma crise de imagem ou uma reunião difícil com o conselho costumam produzir o mesmo reflexo: mudar tudo imediatamente. Trocam-se pessoas, abandonam-se prioridades, iniciam-se novos projetos e reescrevem-se estratégias antes mesmo de compreender se o problema está na direção ou apenas na execução.
Só que existe uma enorme diferença entre ajustar a rota e destruir a confiança.
O líder inseguro sente necessidade de demonstrar ação. O líder maduro sabe que sua principal responsabilidade é preservar a clareza do time. Nem toda crise exige uma guinada. Muitas vezes, exige serenidade para corrigir o que precisa ser corrigido sem abandonar aquilo que continua fazendo sentido.
Também existe uma diferença importante entre insistência e teimosia. A teimosia ignora evidências. A insistência protege uma estratégia consistente enquanto aperfeiçoa sua execução. Foi exatamente isso que vimos naquele intervalo. Não houve imobilismo, mas também não houve pânico. Houve liderança.
O primeiro gol mudou muito mais do que o placar. Mudou o estado emocional da partida. Validou a confiança, devolveu coragem ao grupo e abriu espaço para a virada. Nas organizações acontece algo semelhante. As grandes transformações raramente começam com movimentos espetaculares. Elas costumam começar quando alguém consegue impedir que o medo se torne o principal critério das decisões.
A liderança mais valiosa não é a que fala mais alto durante a crise. É a que transmite calma sem perder a ambição, faz os ajustes necessários sem desmontar a equipe e consegue enxergar possibilidades quando todos os outros enxergam apenas o problema.
Contra o Japão, o Brasil não venceu apenas porque marcou dois gols. Venceu porque atravessou seu pior momento sem perder a convicção.
E talvez essa seja a principal lição para qualquer líder. As equipes não esperam que você tenha todas as respostas. Esperam que, quando a pressão aumentar e o placar estiver contra, você seja a última pessoa a entrar em pânico.
Porque é exatamente aí que as viradas começam.