Adriano Lima: "Todo mundo percebe que a inteligência artificial mudou o jogo, mas pouca gente consegue dizer exatamente como se preparar emocionalmente para isso" (Divulgação/Divulgação)
Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 21 de maio de 2026 às 16h22.
Última atualização em 21 de maio de 2026 às 16h23.
A São Paulo Innovation Week terminou, mas algumas reflexões continuam ecoando na minha cabeça. E talvez a principal delas seja a seguinte: nunca se falou tanto sobre inteligência artificial e, ao mesmo tempo, nunca ficou tão evidente o tamanho da importância da liderança humana.
Foram milhares de pessoas circulando pelo Mercado Livre Arena Pacaembu, dezenas de palcos simultâneos, centenas de empresas, startups, executivos, criadores, investidores e especialistas debatendo o futuro dos negócios, da tecnologia e da sociedade.
A expectativa do evento era reunir cerca de 90 mil participantes, mais de 1.500 palestrantes e dezenas de trilhas de conteúdo espalhadas pela cidade. E o interessante é perceber que, no meio de tanta inovação, os temas que mais provocavam as pessoas continuavam profundamente humanos: ansiedade, pertencimento, confiança, cultura, saúde mental, relações de trabalho e liderança.
Participei da São Paulo Innovation Week como embaixador, acompanhando discussões estratégicas e conectando pessoas ao longo da semana, mas também tive a oportunidade de apresentar o videocast oficial do evento, entrevistando líderes, empreendedores e executivos que estão ajudando a construir esse novo mercado em tempo real.
E isso me deu um privilégio muito interessante: ouvir bastidores, inseguranças, provocações e percepções que muitas vezes não aparecem nos painéis oficiais.
Existe uma ansiedade silenciosa acontecendo dentro das empresas. Ela está nos corredores. Nas reuniões. Nos grupos de liderança. Todo mundo percebe que a inteligência artificial mudou o jogo, mas pouca gente consegue dizer exatamente como se preparar emocionalmente para isso. E talvez esse seja um dos maiores problemas do momento. As empresas estão acelerando a transformação tecnológica numa velocidade impressionante, mas o desenvolvimento humano das lideranças não está acompanhando essa mesma velocidade.
Foi exatamente sobre isso que falei na minha palestra “Liderança Nada Artificial”.
Eu provoquei o público dizendo que a inteligência artificial vai facilitar quase tudo. Vai automatizar tarefas, acelerar análises, organizar dados, aumentar produtividade e eliminar parte importante do trabalho operacional. Mas ela também vai revelar líderes despreparados. Porque quando a tecnologia resolve aquilo que pode ser gerenciado, sobra para os líderes aquilo que nunca poderá ser automatizado: gente.
Sobra a angústia de um colaborador inseguro.
Sobra o conflito entre áreas.
Sobra a dificuldade de dar feedback.
Sobra a construção de confiança.
Sobra a pressão emocional.
Sobra a cultura.
Sobra o senso de pertencimento.
Sobra a tomada de decisão em cenários ambíguos.
E nenhum prompt irá salvar um líder ruim.
Talvez a grande ilusão corporativa atual seja imaginar que transformação digital é apenas uma agenda tecnológica. Não é. Toda transformação digital é, antes de tudo, uma transformação humana. A tecnologia muda processos. Mas quem sustenta mudanças são pessoas emocionalmente preparadas para lidar com velocidade, pressão, incerteza e adaptação contínua.
Uma das coisas mais interessantes da São Paulo Innovation Week foi perceber que os debates mais lotados não eram necessariamente os mais técnicos. Eram justamente aqueles que falavam sobre comportamento, relações humanas, saúde emocional e liderança.
Isso mostra que o mercado começa finalmente a entender algo importante: no futuro, quase todas as empresas terão acesso às mesmas ferramentas de inteligência artificial. O diferencial competitivo não estará apenas na tecnologia. Estará na qualidade da liderança e na capacidade de construir culturas fortes num ambiente cada vez mais acelerado.
A IA não elimina pressão. Ela aumenta a velocidade da pressão.
Ela não reduz complexidade. Ela aumenta a necessidade de discernimento.
Ela não substitui líderes. Ela expõe líderes frágeis.
Saio da São Paulo Innovation Week ainda mais convencido de que estamos entrando numa era em que competência técnica continuará importante, mas inteligência emocional, repertório humano, comunicação, influência, equilíbrio e capacidade de inspirar pessoas deixarão de ser diferenciais. Passarão a ser requisitos mínimos de sobrevivência.
Porque, no fim, a inteligência artificial pode até transformar empresas. Mas serão líderes profundamente humanos que decidirão quais delas continuarão relevantes.