Inteligência artificial, para Rodrigo Dib: “Não existe revolução chegando. A mudança já ocorreu” (Getty Images)
Especialista em mercado de trabalho
Publicado em 8 de abril de 2026 às 14h00.
Existe uma conversa sobre inteligência artificial que o mercado brasileiro insiste em adiar. Não a conversa técnica. Essa acontece em todo congresso, painel e revista.
A conversa que não acontece é a outra: a do profissional comum. O analista de marketing, o coordenador de RH, o vendedor, o gestor. Quem não programa, não trabalha com dados e nunca vai desenvolver um modelo de IA.
Esse profissional ainda acha que IA é assunto de outra área. Que é tecnologia. Que vai chegar.
Não vai. Já chegou.
E não chegou substituindo empregos em massa, como muitos gostam de vender. Ela chegou mudando o que se exige de qualquer profissional, em qualquer setor.
O primeiro impacto da IA não foi dentro das empresas. Foi antes de entrar nelas.
Mais da metade das organizações já usa inteligência artificial em recrutamento, segundo a SHRM. Plataformas como Gupy e Indeed utilizam IA há anos para triagem de currículos.
Na prática, isso significa que, em muitos processos, um algoritmo decide se você chega ou não a um ser humano. E isso vale para qualquer vaga.
Mas a mudança mais relevante não é essa.
Empresas já começam a testar entrevistas iniciais conduzidas por agentes de IA, que fazem perguntas, estruturam respostas e entregam relatórios ao recrutador. No Brasil, isso ainda está mais concentrado nas etapas iniciais, mas a direção é clara.
O ponto não é tecnológico. É comportamental.
Chegar a um processo seletivo em 2026 sem entender como a IA filtra, organiza e avalia candidatos é entrar em desvantagem real em qualquer tipo de vaga.
Um dado da PwC resume bem o momento: o número de vagas que exigem conhecimento Um dado da PwC resume bem o momento: o número de vagas que exigem conhecimento em IA no Brasil saltou de 19 mil em 2021 para 73 mil em 2024. Deste dado, o mais importante não é o número. É o tipo de vaga.
Essas posições estão em áreas como agronegócio, varejo, serviços financeiros, marketing e logística. Setores que nunca foram associados à tecnologia.
No agronegócio, o crescimento de vagas com IA passou de 600%. No varejo, mais de 300%.
Não são vagas para engenheiros. São vagas para profissionais que entenderam que a ferramenta mudou.
Outro sinal claro: a exigência de diploma formal começa a perder peso nessas posições. O mercado está valorizando mais a capacidade de execução do que o histórico acadêmico.
E aqui está um erro comum: achar que dominar IA é só fazer um curso.
Não é.
O que o mercado busca é capacidade de uso. É integrar a ferramenta no trabalho real, no dia a dia.
Um profissional de comunicação que usa IA para estruturar ideias, pesquisar e revisar textos entrega mais e melhor. Um gestor que usa IA para analisar dados e antecipar problemas ganha velocidade e qualidade.
Nenhum dos dois precisa saber como o modelo foi treinado.
O diferencial não é técnico. É prático. E a prática não se constrói na teoria, se constrói no uso.
A IA já transformou funções administrativas, atendimento ao cliente, análise de dados, produção de conteúdo e rotinas jurídicas básicas.
Nos próximos anos, deve avançar sobre gestão, educação personalizada, desenvolvimento de software e tomada de decisão.
E onde ela ainda não chega com força?
No trabalho físico com alta variabilidade: pedreiro, eletricista, diarista, cuidador.
Não por limitação conceitual, mas por custo e complexidade.
Mas isso não significa proteção.
A IA muda quem contrata, quem gerencia e como o trabalho é organizado. O impacto a estas funções mais “braçais” não vem imediatamente na função mas vem da cadeia, pela forma de gestão.
A discussão ainda gira em torno da substituição. Mas esse não é o principal movimento.
Quem usa IA produz mais, ganha mais e trabalha melhor.
O Slack Workforce Index 2025, com mais de cinco mil profissionais em seis países, mostra que usuários frequentes de IA reportam maior produtividade e maior satisfação no trabalho.
A PwC aponta que salários em funções que exigem IA crescem duas vezes mais rápido e que setores mais expostos tiveram ganhos relevantes de produtividade.
Mas existe um contraponto.
Pesquisa publicada na PNAS, por pesquisadores da Universidade de Duke, mostra que profissionais que usam IA podem ser percebidos como menos competentes por colegas, mesmo entregando melhores resultados.
A tecnologia avança mais rápido do que a cultura.
Depois de mais de duas décadas trabalhando com jovens e empresas, uma coisa ficou clara: A linguagem do mercado já mudou. A percepção do candidato ainda não.
As empresas não perguntam mais se você conhece IA. Elas percebem se você usa.
Isso aparece na forma como você resolve problemas, na velocidade da sua entrega, na qualidade do que você produz.
A pergunta não é mais “você vai aprender IA?”. É: “como você já está usando IA hoje?”
E existe um ponto simples aqui: você não precisa mais de uma barreira técnica para começar.
Diferente da programação, que exige aprendizado mais profundo, a IA já está acessível. Qualquer pessoa que sabe ler e escrever consegue usar.
Quem ainda trata isso como futuro está atrasado.
Se essa transformação já está acontecendo, existe uma escolha clara.
Ou a IA vira ferramenta de aumento de produtividade, renda e relevância ou vira mais um fator de exclusão para quem não acompanha.
Para o jovem brasileiro, essa talvez seja a mudança mais importante da década.
Não porque exige mais formação.
Mas porque exige mais atitude e proatividade.
E isso ninguém terceiriza.