Dinamarquês que “abandonou” país lança documentário da Copa

Embora não prove principal denúncia prometida – extermínio de crianças de rua em Fortaleza – vídeo do "gringo que viu o que gringos não devem ver" é bem realizado. Assista

São Paulo – Depois de virar debate nacional por ter deixado o Brasil após ver o que gringos não “deveriam ver, o dinamarquês Mikkel Keldorf lançou seu anunciado documentário, O Preço da Copa. O material, de quase 30 minutos, foi disponibilizado no YouTube ontem e mostra o custo social do mundial (assista ao final da matéria).

Após uma passagem sem destaque como jornalista independente no país – o que levantou suspeitas de que o famoso desabafo no Facebook tivesse intenções promocionais – Keldorf  revelou em abril deste ano que voltaria à Dinamarca porque o sonho de cobrir a Copa virou “um pesadelo”.

Com o documentário, ele espera concluir a promessa de mostrar o lado dos prejudicados com o evento, incluindo a denúncia mais grave: a de que crianças estariam sendo mortas em Fortaleza para limpar a cidade para os jogos.

Embora bem realizado, o vídeo não cumpre este último ponto: a informação é passada por um dirigente de uma entidade beneficente, mas fica o dito pelo não dito.

Começou a haver na cidade grupos de extermínio atirando em meninos dormindo na rua. Dois estavam dormindo com mais seis amigos na fachada de uma farmácia em uma avenida conhecida de Fortaleza. E um carro preto parou à noite, baixou o vidro e atirou em todos. Dois morreram. Os organizadores desse evento não querem que os turistas, que a imprensa internacional veja o lado pobre e desigual do nosso país, diz Manoel Torquato, da ONG Criança não é da rua, aos 13 minutos da gravação.

O documentário pode confundir estrangeiros em ao menos um trecho: no momento seguinte à fala de Torquato, o deputado estadual Marcelo Freixo, do Rio de Janeiro, aparece explicando o funcionamento das milícias e de grupos de extermínio investigados pela Assembleia do estado.

São pessoas, na grande maioria das vezes agentes da segurança pública, contratados por comerciantes para fazer um serviço de extermínio, matar assaltantes, moradores de ruas, aqueles que incomodam, afirma.

Misturar um fato confirmado e investigado – milícias no Rio de Janeiro – com outro – extermínio de crianças em Fortaleza – pode dar a impressão de que são a mesma coisa, ou que estão relacionadas.

Restrições à parte, Keldorf, que narra o vídeo, entrevistou ainda vários especialistas e pessoas removidas de suas casas, assim como crianças de rua.

Reside aí o ponto forte – e emocional – do documentário. Ele mistura a vida de dois jovens.

Um deles é um exemplo de superação e já não é morador de rua: ajudado por uma ONG, Dario vive em Fortaleza em uma pequena casa com a namorada, e aparece entre os jogadores vencedores de uma partida da Copa de crianças que estiveram em situação de rua.

A outro é Alisson, menino de 13 anos, de olhar desencontrado, que diz apenas querer emprego e estudo, mas que hoje, para passar o tempo, usa drogas: crack, maconha, pó.

O vídeo, em inglês, tem legendas em português.

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