CPI deixa orçamento, meio-ambiente e supersalários muito atrás nas redes

Apesar de uma série de pautas polêmicas na semana em Brasília, a mais comentada foi a CPI da covid-19. Assuntos como os supersalários e o licenciamento ambiental foram pouco notados

A CPI da covid dominou o noticiário na semana, e também as redes sociais. A Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado que investiga as ações do governo federal na gestão da pandemia foi o tema mais discutido e "ofuscou" outras movimentações políticas dos últimos dias, como a autorização de supersalários no alto escalão do governo ou o relaxamento das regras de licenciamento ambiental.

Levantamento da consultoria de análise de dados Bites feito a pedido da EXAME mostrou que a CPI — e termos correlatos, como nomes de senadores e depoentes na comissão — gerou 2,5 milhões de menções no Twitter até a tarde desta sexta-feira, 14.

Foi mais de seis vezes a movimentação gerada pelo outro assunto mais comentado da semana, o chamado "orçamento paralelo" do governo federal. Para atender aliados, o Planalto criou gastos de 3 bilhões de reais que não aparecem no orçamento oficial, como revelou reportagem do jornal O Estado de S.Paulo.

Termos como "tratoraço" e "bolsolão", como alguns chamaram o episódio nas redes, apareceram entre as postagens, mas ainda muito abaixo do barulho gerado pela CPI.

"A CPI dominou completamente a pauta. Os outros temas ficaram muito abaixo. O orçamento secreto foi o que chegou mais perto, e ainda não chega nem a 20% do volume de menções à CPI", diz André Eler, diretor adjunto da Bites.

O orçamento foi mais comentado sobretudo na segunda-feira, 10, quando teve cerca de 250.000 menções, um dia depois de o Estadão publicar sua primeira reportagem. Ainda que a imprensa tenha continuado a repercutir o assunto nos dias seguintes, o tema termina a semana praticamente "esquecido", com menos de 20.000 menções no Twitter.

Já a CPI nesta sexta-feira, mesmo sem trabalhos oficiais, já somava mais de 200.000 menções até o meio da tarde.

Outras movimentações políticas da semana chamaram pouca atenção, como foi o caso da mudança nas regras do licenciamento ambiental aprovada pela Câmara e criticada por ambientalistas. O uso de termos relacionados (como "licenciamento" ou "boiada") começou a aumentar na terça-feira, 11, e desde então tem tido quase 40.000 postagens ao dia, mas não chegou perto da CPI ou mesmo do orçamento paralelo.

Questões mais técnicas de medidas do governo e do Congresso também ficaram para trás na discussão.

O assunto dos supersalários, por exemplo, ganhou espaço após portaria que permite a alguns funcionários do governo, incluindo o presidente Jair Bolsonaro, o vice Hamilton Mourão e ministros, ganhar salário superior ao teto do funcionalismo, que já passava de 39.000 reais. A depender do caso, os salários podem chegar a 66.000 reais, um aumento de quase 70%.

O debate sobre os supersalários cresceu entre os usuários do Twitter nesta quinta-feira, 13, mas ainda abaixo das 50.000 menções no dia.

A mudança do regimento da Câmara que dificulta o trabalho da oposição também gerou alguma reação, mas com menos de 15.000 menções em seu pico, na terça-feira, quando a urgência da medida foi defendida pelo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP). A oposição tem chamado a mudança de "kit obstrução", pois tira a possibilidade de ação da minoria.

Enquanto isso, a conversa sobre o presidente Jair Bolsonaro também teve ampla participação da CPI. Segundo a Bites, do volume de 2,6 milhões de tweets com menções a Bolsonaro desde a segunda-feira, cerca de 20% cita diretamente a CPI. Se incluída a covid, a fatia sobe para quase 36%.

Eler aponta que outros temas politicamente relevantes da semana passaram "completamente batidos". "Ninguém está dando tanta atenção a isso quanto está dando para a CPI."

Wajngarten e Pfizer movimentam redes

Dentre os dias de trabalho da CPI, os que mais fizeram barulho foram os depoimentos do ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten, na quarta-feira, e do ex-presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo, hoje gerente-geral da empresa na América Latina, na quinta-feira. Em ambos os dias, as menções à CPI ficaram em cerca de 1,1 milhão e 900.000, respectivamente.

No dia anterior, no depoimento do presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, as menções foram de menos de 200.000 -- embora ainda em patamar maior do que os demais temas da semana.

O depoimento de Wajngarten registrou o ápice de movimentação no Twitter. A participação do ex-secretário marcou o dia mais tenso na CPI até agora, com discussões e polêmicas desde o início. Depois de apontar inconsistências nas falas do depoente, o relator da comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL), avisou que pediria a prisão de Wajngarten por mentir na CPI.

O presidente do colegiado, Omar Aziz (PSB-AM), rejeitou o pedido, mas o assunto rendeu até uma visita do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), que não faz parte da CPI, para defender o ex-secretário. O filho do presidente Jair Bolsonaro aproveitou o momento de fala para chamar Renan de “vagabundo”, e recebeu como resposta um “vagabundo é você, que roubou dinheiro de pessoal do seu gabinete”, em referência ao caso das “rachadinhas”.

O depoimento do dia seguinte, quinta-feira, também rendeu assunto — no Senado e nas redes sociais. Dessa vez, não por discussões, mas pelas revelações feitas pelo ex-presidente da Pfizer no Brasil, Carlos Murillo. Ele contou que o governo brasileiro rejeitou seis ofertas de vacina desde agosto de 2020. Se tivesse aceito a segunda proposta feita pela Pfizer, em agosto de 2020, o Brasil teria recebido 1,5 milhão de doses ainda no ano passado.

O depoimento de Murillo gerou comentários indignados pela falta de atuação do governo e também expôs mais contradições nas falas de Wajngarten. O ex-presidente da Pfizer no Brasil disse que o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, participou de reunião com representantes da farmacêutica, após uma ligação telefônica recebida pelo ex-secretário durante o encontro. Wajngarten havia dito, no dia anterior, que não tinha contato com Carlos, “muito menos” por telefone, e negou participação dele em eventos no Planalto.


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