As redes sociais são capazes de se autorregular?

Linchamento virtual e operações coordenadas de desinformação demandam regras claras para convívio no mundo digital

O fenômeno do linchamento virtual é característico de nossos tempos, e não dá sinais de que irá embora. Citemos como exemplo o caso recente do casal do “cidadão, não; engenheiro civil formado, melhor do que você”. Segundo ambos, além da mulher ter perdido o emprego, eles estão agora sendo vítimas de ameaças e hostilização online ininterrupta.

Por mais que um ou outro caso de linchamento virtual lhe pareça uma punição justa pela falha ética de alguém, lembre-se que o tribunal das massas conectadas não julga de maneira minimamente imparcial ou consistente: uma punição potencialmente severa que obedeça ao sabor da opinião popular, e não a um processo objetivo e racional, é algo inerentemente injusto, mesmo que às vezes calhe de ser aplicada com justiça.

Não está claro ainda como faremos para mitigar o comportamento de manada violento e autoritário que as redes sociais permitem. Isso quando ele é espontâneo. Isso para não falar da difusão inédita de informações falsas, fake news e propaganda disfarçada de jornalismo que corre pelas redes. Mesmo quando puramente espontâneos, já são motivos de preocupação.

Mas há algo ainda pior: o uso consciente dessa dinâmica das redes por quem busca potencializar e operacionalizar o ódio da turba – transformando-o numa arma direcionada a inimigos e desafetos. Chamo à estrutura de financiadores, perfis e automatizações que operacionalizam e buscam direcionar o linchamento virtual de “milícia digital”. O tal Gabinete do Ódio, agora investigado pelo STF – e que conta com assessores pagos com dinheiro público em gabinetes de políticos e até na Presidência da República – é o maior exemplo disso na atualidade. E é uma prática que precisa ser punida se quisermos preservar a liberdade de expressão. Enquanto nossa Justiça e Legislação demoram a endereçar esse problema, as empresas de redes vêm fazendo avanços importantes.

O Facebook essa semana suspendeu páginas e perfis que exibiram “comportamento inautêntico coordenado”: ou seja, inclui perfis falsos ou perfis verdadeiros que tenham de forma coordenado ajudado a divulgar notícias (muitas vezes falsas), manipulando a rede para tornar seus conteúdos mais populares e de maior alcance do que teriam de maneira puramente espontânea.

Para surpresa de absolutamente ninguém, diversos perfis bolsonaristas foram derrubados. E para nossa vergonha nacional, o próprio Facebook indicou a participação dos gabinetes de Eduardo, Carlos e Jair Bolsonaro nos esquemas desonestos para promover ataques e desinformação (ainda que, é preciso ressaltar, a ação do Facebook não fez qualquer juízo acerca dos conteúdos veiculados, e sim apenas da maneira inautêntica e coordenada com que foram veiculados).

Há uma acusação recorrente de que as redes sociais são muito parciais em sua aplicação das regras. Mais especificamente, figuras da direita afirmam que só eles são censurados. Penso que essa afirmação carece de evidências. Vide, por exemplo, a suspensão de contas de envio automático de mensagens do PT nesta semana. Em um famoso expurgo de páginas com “comportamento inautêntico coordenado”, feito em 2018, com foco nas eleições mid-term nos EUA, tanto páginas de direita quanto de esquerda foram deletadas.

Essa suspeita de viés das redes, ainda que infundada, é sintoma de algo real: a pouca transparência que temos visto na aplicação das regras. Cabe ao Facebook, Twitter, Youtube e outras comunicarem com clareza os seus critérios para suspender uma página ou desmonetizar um vídeo. Sem isso, é inevitável que os afetados se sintam injustiçados.

Cada vez mais, as redes sociais são um palco privilegiado do debate público. Esse debate, por ser mais democrático do que jamais foi, dando espaço a todos, precisa também contar com mais responsabilidade por parte de seus participantes e com regras claras aplicadas de forma consistente para impedir tentativas maliciosas de manipulá-lo. É positivo que o Facebook promova o expurgo do comportamento inautêntico coordenado. Ele não vai erradicar comportamentos de manada espontâneos que já são preocupantes (como o linchamento virtual), mas pode ao menos reduzir a manipulação desses comportamentos por parte de atores políticos mal intencionados. Isso enquanto a Justiça não chega.

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