O que Freud diria?

Com a quarentena, sessões de psicoterapia à distância foram liberadas de vez. É boa solução — mas a migração para o digital exige cuidados

O trabalho, agora, é em casa — e, por incrível que pareça, a carga aumentou. Entre as inúmeras videoconferências, os filhos pedem ajuda nos assuntos da escola, fechada por tempo indeterminado. Com a quarentena, funcionários do lar estão dispensados, e é preciso dar conta da limpeza e da alimentação. Ir à rua dá medo, porque pode ser contaminado, e a preocupação com os pais, já idosos, é constante. Essas são algumas das dificuldades que uma parcela da população tem vivenciado em razão da pandemia da covid-19. E, justamente num momento em que a saúde mental é tão frágil quanto necessária, as consultas com psicólogos e psicanalistas estão suspensas. Pelo menos presencialmente.

Como fazer psicoterapia à distância? O próprio Sigmund Freud, pai da psicanálise, trocava cartas com alguns pacientes.  A saída para manter a sanidade mental é a mesma que temos usado para trabalhar ou falar com amigos: as ferramentas digitais. O uso oficial de plataformas online de comunicação para esse fim é recente. Foi apenas em 2018 que o Conselho Federal de Psicologia publicou uma resolução regulamentando a prática. “Com a medida, a única restrição passou a ser o atendimento em situações emergenciais ou desastres”, diz Ana Sandra Fernandes, presidente do conselho. No fim de março, o conselho publicou uma nova resolução que permite consultas à distância em qualquer situação enquanto durar a pandemia. “O ideal é que, ao fim da crise, a mediação virtual volte a ser uma possibilidade, e não a única ferramenta.”

A migração dos psicólogos e psicanalistas para o ambiente digital é significativa. A Vittude, startup que conecta profissionais a pacientes, viu o número de usuários da plataforma explodir no último mês. Na comparação entre fevereiro e março, o aumento de novos psicólogos inscritos foi de 744%, e o de empresas que procuraram pelo serviço corporativo da startup foi de 300%. “Muita gente está angustiada: funcionários estão relatando crise de pânico, medo da morte, de perder parentes”, diz Tatiana Pimenta, fundadora da Vittude. “As empresas começaram a se preocupar em oferecer suporte e apoio psicológico.”

Fundador da Zenklub, startup que oferece o mesmo serviço, Rui Brandão também percebeu o aumento da demanda por psicoterapia online. “Vivemos um cenário totalmente diferente, em que as pessoas não estão mais apenas interessadas, mas precisando.” Segundo ele, dois temas são especialmente abordados pelos pacientes: a ansiedade e as questões de relacionamento interfamiliar. “O nervosismo com a falta de expectativa e a obsessão com álcool em gel e contaminação estão em primeiro lugar”, diz. “As relações vêm na sequência. Nunca passamos tanto tempo com filhos, cônjuges e pais, o que suscita questões de ordem familiar.”

Para Pimenta, da Vittude, a efetividade do processo terapêutico à distância é alta, tem a vantagem de evitar o deslocamento e não exige muitos preparos do paciente. Ela pondera, no entanto, que há mudanças para os terapeutas. Se, no consultório, a pessoa a ser tratada senta em frente ao psicólogo (ou ao lado, no divã), a psicoterapia virtual reduz a visão que se tem do paciente. “Essa diferença exige mais atenção do profissional à fala do paciente”, diz Pimenta. “Há uma perda da linguagem não verbal, como um bater de perna ou o fato de a pessoa suar.” Essa dificuldade é amenizada à medida que o psicólogo ganha experiência no atendimento virtual.

Popular no YouTube, o psicanalista Christian Dunker enxerga outras questões implicadas na transição para o online, como a diferença no tempo de fala em ambiente virtual, com perguntas e respostas em sequência. “É o que os linguistas chamam de troca de turno: uma pessoa fala e a outra diz algo logo em seguida”, explica. “Isso não é muito positivo para a prática da psicoterapia que envolve a fala livre, ficar em silêncio e tornar o discurso menos retilíneo do ponto narrativo.” Nesse sentido, os possíveis atrasos na comunicação, que ocorrem quando há falhas nas plataformas ou instabilidade na conexão, também podem interferir na qualidade do atendimento.

Dunker reforça que a psicoterapia virtual não é recomendada para casos de risco, pessoas impulsivas ou em estado de vulnerabilidade e crianças. Para ele, pacientes em geral se beneficiam da prática, principalmente os que moram em regiões mais interioranas do Brasil, onde é mais difícil encontrar profissionais para consultas presenciais. “O tratamento psicoterápico começa com uma série de entrevistas preliminares que podem durar semanas. Profissional e paciente estão se escolhendo, e não há obrigação de continuar se não fluiu bem”, diz Dunker. “Nesse tempo de adaptação às plataformas digitais, é preciso ser tolerante: vão acontecer contratempos, e nem sempre sabemos bem o que fazer. É parte da experimentação.” 

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