Audi RS4 Avant, a perua do Senna, chega à quarta geração

A perua RS4 Avant da Audi, herdeira dos carros esportivos que Ayrton Senna sonhava em trazer para o Brasil, chega à quarta geração
 (Audi/Divulgação)
(Audi/Divulgação)
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Chico Barbosa

Publicado em 28/03/2019 às 05:24.

Última atualização em 04/06/2020 às 15:13.

O dia prometia. Olhei para a previsão do tempo e confirmei que aquela chuva que castigava o trânsito de São Paulo logo cedo se estendia ao interior do estado, para onde eu me dirigia cheio de expectativas. Destino: Mogi Guaçu, cidade localizada a pouco mais de 150 quilômetros da capital. Lá está o autódromo Velo Città, cujo circuito, com seus 3.493 metros, 14 curvas e desnível de 45 metros, é considerado bastante técnico. Um campo, molhado (minado, no caso?), para testar a habilidade de pilotos e aprendizes e evidenciar quem leva jeito para o traçado e quem fica melhor do lado de fora, tomando tempo dos ases indomáveis e batendo palmas. A prova se tornava ainda mais desafiadora porque o que me esperava ali era nada menos do que a Audi RS4 Avant, perua que de comportada só mantém a pose de família — se é que suas dissimuladas curvas não entregam as verdadeiras intenções.

Para entender o que representa a RS4 Avant, é preciso saber de onde ela veio: nasceu da costela da RS2, primeiro RS da marca (RS é a abreviação de Rennsport, “corrida”, numa tradução livre do alemão), desenvolvido em parceria com a Porsche. De tão cultuado, esse modelo, produzido em 1994 e 1995, ganhou até o RS2 Club no Brasil — único país da América a receber um quinhão (menos de 100) das 2.908 unidades vendidas mundo afora. E certamente seria ainda mais reverenciado se Ayrton Senna, que se tornou importador oficial da Audi no país pouco antes da trágica morte, tivesse tido tempo de trazê-lo e dirigi-lo por aqui… Pela S4 com que rodava, é notório que o tricampeão tinha uma queda pelos esportivos da marca.

Ayrton Senna com a S4 com a qual rodava pelo Brasil: fã dos esportivos e importador da marca | Marco de Bari

Ao chegar ao Velo Città, fui recebido nos boxes por uma linha do tempo, que começava com o primogênito icônico até chegar a esta quarta geração, que carrega a denominação RS4. O exemplar de teste estava logo adiante, a postos, como que me dando uma piscada e chamando com o dedo indicador. Adianto que não era a primeira vez que nos víamos. Tivemos um relacionamento casual e relâmpago no ano passado em Munique, na Alemanha, assim que a, digo, o modelo chegou ao mercado europeu. Agora tinha tudo para ser diferente. Com todo o respeito à permissiva autobahn alemã, uma coisa é estar na estrada, sabemos, e outra é estar em uma pista de competição, onde o único propósito é… acelerar, oras!

Antes de montar na máquina, dei um giro em volta para evocar as recentes e calientes  lembranças de uma primavera que se anunciava na Europa. Minha opinião não mudou. A RS4 é a prova cabal de que o estilo faz o carro. Por mais que tenha amplo compartimento em que caibam as compras da feira, as tralhas das crianças, a bagagem da viagem, bugigangas e tudo o mais, ao passar os olhos por suas linhas, ato contínuo, a vontade é de acelerar. Deixei as divagações de lado e assumi o comando. Quem viu de longe deve ter ficado impressionado, porque, a despeito da ausência de macacão, coloquei balaclava e capacete e andei como um escolhido prestes a realizar uma missão. O instrutor, ao meu lado, também deve ter achado que falava com um expert quando me viu, olhar compenetrado, assentir com a cabeça para todas as suas recomendações sobre a pista, sem levantar uma dúvida sequer. A ver!

A saída dos boxes foi tranquila, como tinha de ser, até entrar propriamente na pista e ir memorizando os pontos de frenagem, de tangência da curva, de retomada da velocidade, de aceleração. A RS4, arisca e obediente, segue à risca e instantaneamente o que o piloto — ops, o motorista — pede para ela fazer, sem titubear, sem tergiversar, sem desviar. A chuva, até então branda, a ponto de romantizar minha aventura ao volante, de uma hora para a outra passou de coadjuvante a copersonagem principal. Não demorou muito para que, com o passar das voltas, o repertório de um pseudopiloto começasse a ficar restrito. Dotada da cultuada tração Quattro, a RS4 deita e rola no asfalto, como se estivesse trafegando no seco, sem perder a aderência. Tudo o que eu ordenava, o carro respondia, como se não tivesse de pensar, não tivesse de fazer um esforço para agir.

Até que chegou um momento em que, humildemente, o sensato aprendiz entendeu que, às vezes, é carro demais, pista demais, chuva demais para piloto de menos. A conta não fecha. Sabiamente, dei mais uma volta como um tradicional motorista ou, vá lá, um piloto light que curte um esportivo, respeitando a criatura e seu habitat. Eis o segredo. Desci do carro sorrindo.

Ficou a lição. Não se deixe enganar pela aparência. De perua, a Audi RS4 Avant só tem a categoria.