A confraria agora é no houseparty

Os amigos continuam participando de degustações coletivas, só que separados pela tela do computador

Bárbara Belaunde abriu um Miolo Seival Sauvignon Blanc, da Campanha Gaúcha, com alguns acepipes para comer na frente do computador. Mariza Cardozo optou por um Dostoiévski Tannat Reserva 2014, da vinícola Enos Vinhos de Boutique, com uvas da Campanha, mas vinificado na serra. Já Fernanda Oyama bebeu um Don Guerino Torrontés Vintage, branco da Serra Gaúcha, que estava aberto na geladeira. Elas fazem parte da Confraria Delle Donne, com 204 membros, todas mulheres, no Facebook. Com a quarentena, mantiveram os encontros, por Skype, com Oyama, no Jardim Paulista, Belaunde, no Morumbi, e Cardozo, na Aclimação, em São Paulo.

Com as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde para que as pessoas fiquem em casa, vários encontros como esse têm ocorrido pelo país. As pessoas continuam bebendo vinhos juntas, só que separadas. A consultora Fernanda Fonseca, da Pandora Experiências de Vinhos, costumava organizar pequenos eventos com boa comida regada com ótimos vinhos, dos quais fala de maneira muito informal. “Só profissional se interessa por explicações muito técnicas”, diz. Com a quarentena, ela decidiu reeditar a Caixa de Pandora, uma ideia da época do Natal, quando vendeu 260 garrafas. Cada caixa vem com, no mínimo, quatro vinhos, escolhidos entre 30 de uma lista preparada por ela, com preços a partir de 80 reais. “As pessoas confiam na minha escolha. Sabem que ali só tem vinho que eu tomo”, afirma.

O pacote agora inclui um serviço extra: lives com Fonseca que reproduzem a atmosfera das experiências presenciais, sempre num clima animado de festa. Na primeira edição, no fim de março, ela convidou clientes que haviam comprado o espumante espanhol Vintage Loxarel Brut Nature Reserva, o branco Sarah Selections Latido de Sara, de garnacha blanca, ou o tinto Castelli di Grevepesa Rosso di Toscana. O encontro, que estava marcado no Instagram, acabou migrando para o ­Houseparty. Era para durar 30 minutos. Prolongou-se por 3 horas e meia. “Sinal de que estava bom”, comenta Oyama. “Foi uma live que virou rave.”

No mundo virtual, as distâncias se igualam. De repente, torna-se possível conversar com um especialista do outro lado do mundo. No iníco de abril, por exemplo, Rodrigo Malizia, sócio da Cellar Vinhos, fez uma live em seu Instagram, ­­@malizia_vinhos, para a qual trouxe o produtor Thibault Liger Belair, da Borgonha, para degustar o Nuits Saint Georges La Charmotte 2017 junto com seus clientes. Malizia tem feito várias lives para seus seguidores e sempre anuncia os rótulos com antecedência para que a experiência seja de fato uma degustação guiada.

Pessoas que trabalham com vinho não raramente se divertem bebendo nas horas vagas. O publicitário e consultor de vinhos Déco Rossi, proprietário da Winet, organiza três confrarias com amigos de diferentes áreas: a Confraria dos Publicitários, a Confraria dos Tenistas e a Confraria dos Embaixadores. Esta última reúne embaixadores de marcas de vinhos de diversas partes do mundo. Rossi representa as vinícolas Altos Las Hormigas (Argentina) e Odfjell (Chile). Philippe Germa é embaixador da italiana Vinícola Dai Terra Rossa. Claudio Silva, da argentina Finca Sophenia. Ana Paula Oliveira, da uruguaia Bodega Garzón. E Fernando Perazza, da chilena Bisquertt. Na última sexta-feira de março, a Confraria dos Embaixadores se reuniu pelo aplicativo Zoom. “Como era o primeiro encontro virtual, pensamos na harmonização de Páscoa como tema.” A maioria levou vinhos brancos, pensando no bacalhau da Sexta-Feira Santa. Rossi levou um tinto leve da Alto Las Hormigas; e Germa, um rosé. Alguém, de repente, comenta que tinha pensado em levar um vinho de sobremesa que harmonizasse com chocolate. “Ah, chocolate!”, diz Oliveira. Alguém diz: “Arruma um chocolate pra gente aí, vai!” De repente, ela sai da tela e volta com uma barra. Todos riem.

O italiano Massimo Leoncini, ­sommelier executivo da Grand Cru Importadora, acredita que confrarias online vieram para ficar. Mesmo passada a quarentena. Como a maioria dos funcionários da empresa, ele está em home office. “Estou fazendo vídeos e degustações guiadas. Divulgamos os vinhos degustados para que mais pessoas possam acompanhar.” Leoncini­ já viajou o Brasil inteiro fazendo esse mesmo trabalho, só que ­presencial, com a Grand École, Experiências no ­Mundo do Vinho. “O alcance agora é muito maior. O mundo virtual nao será abandonado.”

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