Fintechs pegam carona no auxílio emergencial para ganhar clientes

Mercado Pago, iti, PicPay e PayGo, do C6Bank, são algumas startups que lançaram serviços ou adaptaram produtos para atender a nova clientela

O pagamento do auxílio emergencial fez com que diversas fintechs se movimentassem para atender os 65 milhões de brasileiros beneficiados pela ajuda do governo. Algumas adaptaram produtos, enquanto outras lançaram serviços de olho nesse público. É o caso da PayGo, empresa de tecnologia de pagamentos do grupo C6 Bank, que está lançando uma alternativa para que empreendedores façam vendas virtuais mesmo sem ter uma estrutura própria de e-commerce. O link de pagamento — que pode ser enviado aos clientes por e-mail, SMS, WhatsApp ou redes sociais — tem interface com a conta digital da Caixa e, portanto, aceita os 600 reais repassados pelo banco.

“É uma forma de tornar a transação não presente mais segura, pois evita que o cliente envie os dados do cartão”, afirma Philippe Katz, CEO da PayGo. Na fase de lançamento, o produto é oferecido sem taxa de adesão e só tem a cobrança de 0,35 real por geração do link, seja para pagamento no débito ou no crédito. Já a taxa de transação da venda no débito é de 1,85% e o dinheiro fica disponível ao empreendedor em um dia útil e no crédito é de 3,29%. “O propósito é facilitar a vida do consumidor e do estabelecimento comercial, e a pandemia acelerou a digitalização”, diz o executivo. No ano passado, a PayGo fez mais de 350 milhões de transações que somaram 25 bilhões de reais.

Outra fintech que está indo na mesma direção é o Mercado Pago, do Mercado Livre, que já ganhou mais de 3,5 milhões de usuário desde o início do repasse do auxílio emergencial. Além disso, a companhia registrou um aumento de 63% no uso da funcionalidade de pagamento de contas pelo aplicativo. A fintech oferece a possibilidade ao beneficiário de pagar um boleto e assim transferir os recursos para sua carteira. Além disso, integrou o cartão de débito virtual da Caixa na plataforma do Mercado Livre e criou a opção de colocar os 600 reais na plataforma diretamente via conta digital da Caixa.

“Foi uma grande oportunidade para mostrarmos que somos uma opção para pagar contas sem ficar na fila da lotérica ou supermercado durante a pandemia. É uma funcionalidade que a população mais carente nunca teve acesso. Tem grande relação com dinheiro físico”, diz Rodrigo Furiato, diretor de carteira digital do Mercado Pago. “No começo os usuários pegavam o dinheiro e não entravam mais no app. Com o passar do tempo, conseguimos explicar melhor e mantê-los na carteira digital. Eles são um grupo diverso, mas a maioria não tem grande acesso ao mercado financeiro. O auxílio acelerou uma tendência que talvez levássemos anos para conseguir atingir.”

Estudo realizado pela fintech alt.bank mostra que a inclusão financeira pode ter impacto econômico expressivo para o país. Quando 91% da população brasileira estiver inserida no sistema financeiro que é a média dos países desenvolvidos , isso vai representar um acréscimo de 400 bilhões de reais no produto interno bruto. Atualmente, o Brasil tem 22 milhões de pessoas sem-banco, número bastante expressivo que implica desigualdade social e de gênero. “A desbancarização é maior no Norte e no Nordeste do país”, afirma Fabio Silva, diretor da alt.bank. “Quando as pessoas precisam viajar 15 quilômetros para sacar os recursos do Bolsa Família ou do auxílio emergencial por não ter caixa eletrônico em sua cidade, o consumo também se desloca. O comércio local vende menos e assim arrecada menos impostos, entrando em uma espiral perversa que leva ao aumento do desemprego.”

Silva sabe do que fala. A conta do alt.bank tem como foco o cliente da classe C e oferece a ele a possibilidade de fazer recarga do celular, compras virtuais e até ter acesso a consultas médicas, além, é claro, de produtos mais tradicionais como transferências e saques. A parceria com o Dr. Consulta começou antes da pandemia do novo coronavírus é verdade , mas mostrou que a estratégia era correta. “Falta a muitas fintechs a vontade genuína em conhecer esse cliente. Antes de dar crédito, é preciso ensiná-lo a fazer a gestão do dinheiro”, acrescenta.

Para atender o público sem-banco, a Cash.in fez um caminho diferente: se uniu a empresas que contratam autônomos, e a fintech se responsabiliza pelo pagamento desses trabalhadores por meio de uma conta digital. O usuário final pode usar o dinheiro ali mesmo ou sacá-lo em uma lotérica. “Durante a pandemia, vimos um aumento do interesse por parte das empresas em contratar nossos serviços”, afirma Nani Gordon, presidente da Cash.in, que hoje atende 16 empresas, como a Tigre, e tem 6.500 usuários. A expectativa é que, ao todo, passem pelas contas 50 milhões de reais até o fim do ano. “Em 2021, vamos começar a testar atendimento direto aos usuários, que serão convidados por clientes atuais”, conta.

Mas não são apenas as fintechs que estão de olho nesse público. O Tribanco que pertence ao Martins, grupo que é referência em distribuição e varejo no país — está lançando um superaplicativo para acelerar a bancarização das classes C e D. “Não queremos nos posicionar como banco digital, mas como uma conta simples que leva produtos e serviços para a população”, comenta Ricardo Batista, CEO do Tribanco. A ideia é inicialmente oferecer a conta para os 1,2 milhão de clientes que hoje usam o cartão de crédito e pagar o salário de alguns colaboradores dos supermercados. “Nosso grande diferencial é o cashback, já que podemos oferecer inúmeros produtos, de sandálias a chocolate”, comenta. A expectativa é encerrar o ano com 200.000 contas. “A gente já nasce com a maior rede de ‘agências’ do país, são os 15.000 supermercados, onde já é possível fazer o saque rápido.”

Outro banco que viu uma oportunidade foi o Itaú. Com o aplicativo iti, os beneficiários do auxílio emergencial podem receber os 600 reais em um dia útil. O saldo pode ser usado para pagar boletos, recarregar celular, fazer transferências para qualquer banco, pagar alguém com QR Code ou até sacado na rede do Banco24Horas. Desde o início da distribuição do auxílio emergencial, mais de 2,9 milhões de usuários concluíram a transferência do benefício para o PicPay. Resta saber se, quando a ajuda do governo chegar ao fim, os usuários vão permanecer com suas contas ativas ou se voltarão a integrar o grupo de desbancarizados.

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