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Gasoduto da discórdia: por que o russo Nord Stream 2 desafia os EUA

A gigantesca malha de dutos que transportam gás natural da Rússia para a Europa está causando uma crise diplomática

Malha de gasodutos Nord Stream, da russa Gazprom (Gazprom/Divulgação)

Malha de gasodutos Nord Stream, da russa Gazprom (Gazprom/Divulgação)

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Juliana Estigarribia

16 de julho de 2020, 14h27

Um verdadeiro "monstro" da Rússia de mais de 1.300 quilômetros de extensão, que distribui gás natural da estatal Gazprom, está tirando o sono do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O governo americano acaba de anunciar mais uma medida para limitar o alcance do gasoduto Nord Stream 2, em um embate que deve se acirrar ainda mais daqui para a frente.

A disputa, entretanto, não é de hoje. Há muito tempo o gasoduto vem causando discórdia. O empreendimento é a segunda fase de um grande projeto da Gazprom, o Nord Stream. Somados, os gasodutos têm mais de 2.600 quilômetros de extensão e cortam o velho continente.

A malha de dutos que permite o transporte de gás natural — insumo amplamente utilizado na Europa para combater as baixíssimas temperaturas do inverno — reduziu consideravelmente os custos com logística na região. 

O Nord Stream 2 teve o apoio maciço da chanceler alemã Angela Merkel, uma vez que a Alemanha quer reduzir a dependência do carvão por preocupações ambientais. O objetivo é substituir o insumo pelo gás natural para aquecimento. 

O apoio tem causado uma crise diplomática. De um lado, a líder defende a malha de gasodutos e, do outro, o presidente dos Estados Unidos não perde a oportunidade de atacar o empreendimento russo. 

Para os americanos, o Nord Stream 2 aumenta ainda mais a dependência europeia em relação ao Kremlin. Cerca de 40% do gás natural consumido na região vem da Rússia. Vale lembrar que, em meados de 2009, uma disputa entre a Gazprom e a estatal ucraniana Naftogaz fez com que o fornecimento de gás fosse cortado por completo em alguns países em pleno inverno, com temperaturas que chegam a -20° C. 

Mas o buraco é ainda mais embaixo. Com a expansão do shale gas americano, os Estados Unidos passaram a produzir volumes colossais de óleo e gás. O país tem ambição de exportar grandes volumes de gás natural liquefeito — o insumo em estado líquido, ou simplesmente GNL — por navios, o que poderia abrir um novo e vasto mercado para o shale americano e diminuir a participação do gás russo na Europa.

Com a conclusão do Nord Stream 2, porém, essa ambição torna-se improvável. Os custos do gás russo são muito menores do que importar GNL dos Estados Unidos: além do transporte, manter estações de regaseificação do insumo é uma despesa adicional à operação.  

Neste cenário, o governo americano impôs sanções ao Nord Stream 2. Nesta quarta-feira, 15, Mike Pompeo, secretário de Estado dos Estados Unidos, anunciou a eliminação de uma norma que evitava a imposição de sanções a empresas envolvidas no gasoduto. 

Em entrevista coletiva, Pompeo foi enfático sobre o tema, mandando um recado às empresas que participam do projeto, principalmente russas e alemãs: “Saiam daí ou enfrentarão as consequências”, ameaçou.

O secretário acrescentou que esta é uma advertência clara para as empresas que contribuem com os “projetos malignos de influência russa e seus cúmplices.”

O Nord Stream 2 está quase todo concluído, faltando cerca de 15% do projeto para finalização. Além de levar gás natural para a Alemanha, também passará por Finlândia, Suécia e Dinamarca, pelo Mar Báltico.

Até lá, os ânimos devem ficar ainda mais acirrados. Principalmente após a pandemia e a recessão que a maioria dos países do mundo deve enfrentar no curto e médio prazo. Em um cenário de necessidade de corte de custos, os países da Europa estariam dispostos a manter essa queda de braço com os Estados Unidos? O clima de uma nova “guerra fria” no setor de energia está se desenhando desde o ano passado e, a depender da disposição dos atores envolvidos, os próximos capítulos podem ser ainda mais acalorados.