Com Polymarket e Kalshi proibidos, B3 vai estrear em predições com pouca concorrência
Bolsa brasileira vai lançar seis contratos de eventos na próxima segunda-feira, 27; plataformas de predições foram suspensas hoje


Mitchel Diniz
Editor de Invest
Publicado em 24 de abril de 2026 às 17:09.
Última atualização em 24 de abril de 2026 às 19:15.
O timing não poderia ser melhor. Na próxima segunda-feira, 27, a B3 começará a negociar contratos de eventos. Uma novidade que já vinha sendo ventilada nos últimos meses. Disponível inicialmente para investidores profissionais (com mais de R$ 10 milhões investidos ou certificados pela CVM), esses contratos são semelhantes às opções já negociadas na bolsa. Mas, em vez do direito a comprar ou vender um ativo a um determinado preço em dado momento, a lógico do negócio de eventos é binária: o retorno do investidor vai depender se um evento acontecer — ou não. Dinâmica parecida com a de plataformas de predições como Polymarket e Kalshi que, coincidência ou não, foram proibidas de operar no Brasil a partir de hoje.
No último ano, esses sites ganharam notoriedade por funcionarem como um termômetro da sociedade sobre eventos de todo tipo, de resultados de eleições e confrontos geopolíticos... até o dia da volta de Jesus. Diferente das bets, em que as donas das plataformas ficam com uma parte do valor apostado independentemente do resultado, os sites de predições funcionam no modelo peer to peer em que a cota adquirida aumenta de valor quando o investidor acerta a previsão ou é zerada quando erra.
No ano passado, os mercados de predições movimentaram US$ 63,5 bilhões de acordo com a empresa de segurança em blockchain Certik. Essas plataformas são empresas privadas que viram seus valuations dobrarem em um ano. Tanto Kalshi quanto Polymarket podem ser avaliadas em US$ 20 bilhões em rodadas de captação, segundo o Wall Street Journal. A lógica binária desse mercado também foi abraçada por ativos financeiros em Wall Street, como o contrato que só vai trazer retorno ao investidor caso a Nvidia continue sendo a empresa mais valiosa do mundo daqui a um ano.
Brasileiros conseguiam acessar essas plataformas com facilidade, podendo apostar com cartão de crédito e PIX. As bets, que pagam licenças de 30 milhões para operar no Brasil, ficaram logo incomodadas e passaram a pressionar o governo para que algo fosse feito, como noticiou a Folha de S. Paulo. Afinal, essa plataformas de predições vinham operando em um "limbo regulatório". Sediadas no exterior, Polymarket e Kalshi, por exemplo, não tem licença para operar no Brasil, nem são fiscalizadas por órgãos brasileiros. Os contratos oferecidos nesses sites se comportavam como investimentos, mas sem a devida regulação financeira. E é por esse motivo que estão sendo retirados do ar pela Anatel, junto com outras 25 plataformas.
A resolução do Conselho Monetário Nacional anunciada hoje proibiu predições com temas que não sejam atrelados a variáveis financeiras, como juros, inflação e dólar. Automaticamente, isso faz com que as plataformas percam seu principal apelo com os investidores: poder apostar em eventos do cotidiano, como a vitória de um candidato nas eleições presidenciais deste ano ou o participante que vai ganhar o prêmio do próximo reality show.
Além disso, qualquer negociação de contratos ligados a variáveis econômicas são obrigatoriamente supervisionados pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), que regula o mercado financeiro brasileiro. Estando totalmente em conformidade com o que a regulação prevê, a B3 estreará seus novos contratos sem a concorrência das plataformas de predições.
Os seis contratos disponíveis serão o BWI (Futuro Mini de Ibovespa), BBV (Índice Bovespa à vista), BWD (Futuro Mini de Dólar), BDO (Dólar à vista), BBI (Futuro de Bitcoin) e BBC (Bitcoin à vista), todos com liquidação exclusivamente financeira, garantia de contraparte e supervisão da CVM.
O preço de cada contrato varia de R$ 0 a R$ 100, e tanto o ganho máximo quanto a perda máxima já são conhecidos no momento da entrada, o que torna a operação muito mais simples e transparente do que as opções tradicionais, diz a B3 no anúncio da novidade.
Em março deste ano, o BTG Pactual (do mesmo grupo de controle da EXAME) também lançou uma plataforma de predições, o BTG Trends. Ela permite que investidores negociem contratos baseados na probabilidade de eventos financeiros específicos ocorrerem. O preço do contrato reflete a chance estatística do evento ocorrer, funcionando como um termômetro da percepção econômica coletiva. Se o investidor acertar a previsão, recebe um valor fixo por contrato; se errar, perde o prêmio pago na operação.
Comunicado enviado pela B3:
"Mercados preditivos vêm ganhando espaço internacionalmente como uma evolução do ecossistema de derivativos e da experiência de digitalização do investidor. E isso precisa acontecer também no Brasil, para evitar exportação de mercado. O CMN deu um passo muito importante por ter reconhecido esse mercado, diferenciando-o de apostas, e atribuído à CVM determinar as regras no Brasil e restringir mercados irregulares no país, porque estamos diante de um mercado disruptivo, e é extremamente importante para o país que ele se desenvolva em ambiente seguro e regulado."
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Mitchel Diniz
Editor de InvestJornalista há 20 anos, com MBA em Informações Econômico-Financeiras e Mercado de Capitais pela FIA Business School. Passou pelas redações de Valor, Folha de S. Paulo, GloboNews e InfoMoney.
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