Azzas 2154: Birman e Jatahy levaram três meses para desfazer casamento de dois anos
Acordo separa Arezzo&Co e Soma após disputa societária que chegou à Justiça e à Câmara de Arbitragem da B3


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 11:37.
Última atualização em 2 de setembro de 2026 às 17:04.
A solução para separar Alexandre Birman e Roberto Jatahy na Azzas 2154 levou cerca de três meses para ser costurada, segundo pessoas diretamente envolvidas nas negociações ouvidas pelo EXAME Insight. O prazo é curto diante do tamanho da operação e, sobretudo, do conflito que a antecedeu: a sociedade criada há pouco mais de dois anos terminou com divergências sobre a condução do grupo levadas à Justiça e à Câmara de Arbitragem do Mercado, da B3.
O desenho da separação foi antecipado pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo. Pelo acordo anunciado nesta quarta-feira, 2, a Azzas será dividida em duas companhias abertas independentes, ambas listadas no Novo Mercado da B3. A Arezzo&Co, liderada pelo bloco de Birman, ficará com os negócios de calçados e bolsas — Arezzo, Schutz, Anacapri e Alexandre Birman —, além da operação da Vans, de Carol Bassi e da Hering. Já a SOMA, sob liderança do bloco de Jatahy, reunirá Animale, NV, Maria Filó e Cris Barros, além de Reserva, Oficina e Foxton.
A composição acionária das duas novas companhias também procura manter uma base relevante de ações em circulação. Segundo os termos divulgados, ambas terão 67,87% de free float. O bloco Birman ficará com 32,13% da Arezzo&Co e ainda terá 6,18% da SOMA, enquanto o bloco Jatahy deterá 25,95% da SOMA. A reorganização prevê ainda níveis de endividamento semelhantes entre as duas empresas. A conclusão está prevista para o primeiro trimestre de 2027 e depende, entre outras etapas, de aprovações societárias, de credores e do Cade.
O desenho final é bastante diferente daquele que circulava quando a cisão começou a ser discutida publicamente, em maio. Naquele momento, um dos arranjos em análise previa concentrar Arezzo&Co, Hering, Reserva e até a Farm sob Birman, enquanto Jatahy ficaria com as demais marcas de moda feminina. A própria Azzas foi questionada pela CVM sobre essas informações e respondeu, em 22 de maio, que não havia então decisão tomada, proposta formal ou instrumento vinculante envolvendo uma cisão.
Quando um não quer, dois não brigam
A rapidez das negociações dos últimos três meses contrasta com uma crise que vinha amadurecendo havia bem mais tempo. A combinação entre Arezzo&Co e Grupo Soma, anunciada em fevereiro e concluída em 2024, reuniu dois grupos que haviam crescido com culturas e modelos bastante diferentes. Birman vinha da construção de uma plataforma centrada em calçados, bolsas e acessórios, que depois avançou para vestuário com aquisições como Hering e Reserva. Jatahy havia transformado o Soma em uma plataforma de moda feminina em torno de marcas como Animale e Farm. A tese da fusão era justamente somar essas competências e extrair escala, sinergias e maior capacidade de expansão.
A convivência entre os sócios sempre teve rachaduras. Pessoas próximas à companhia já relatavam dificuldades em conciliar estilos de gestão e diferentes visões sobre a organização dos negócios. A união chegou perto de desandar ainda em 2025, quando essas diferenças ficaram mais evidentes, mas o ponto de ruptura público veio em maio deste ano, em torno de uma marca que agora, ironicamente, ficará com Jatahy: a Reserva.
Em 12 de maio, Jatahy entrou com uma ação cautelar para impedir que a Reserva fosse retirada da unidade de negócios de vestuário masculino que vinha sendo gerida a partir do Rio de Janeiro. A ideia de Birman era aproximar a marca da Hering em uma reorganização da operação masculina. Jatahy alegou que a mudança feria a estrutura pactuada entre os acionistas e conseguiu uma liminar obrigando a manutenção temporária do desenho então vigente. A Azzas informou ao mercado que havia sido “surpreendida” pela ação e sustentou que, pelo estatuto, decisões dessa natureza estavam entre as prerrogativas do CEO, cargo ocupado por Birman.
A disputa rapidamente deixou de ser apenas judicial. Em 15 de maio, Birman protocolou um pedido de arbitragem contra Jatahy na Câmara de Arbitragem do Mercado da B3. Segundo documento divulgado pela própria Azzas, a discussão envolvia alegadas violações ao acordo de acionistas e ao estatuto da companhia, inclusive no que dizia respeito às prerrogativas do CEO. Ou seja, a briga pela Reserva havia se transformado numa discussão muito mais ampla sobre quem tinha poder para decidir o quê dentro da estrutura criada pela fusão.
Foi justamente essa necessidade permanente de arbitrar fronteiras entre os dois blocos que a cisão procura eliminar. Segundo pessoas envolvidas na construção da solução, ouvidas pelo EXAME Insight, Birman e Jatahy continuavam reconhecendo um no outro empresários de referência na indústria, mas chegaram à conclusão de que suas formas de operar e suas prioridades estratégicas funcionariam melhor em estruturas separadas. As conversas que produziram o acordo foram cordiais, apesar da dureza da disputa anterior, o que levou ao entendimento relativamente rápido.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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