74% da energia consumida pela rede do bitcoin vem de fontes renováveis, diz estudo

Rede do bitcoin registrou consumo energético recorde no início de 2021, mas estudo aponta que maioria da energia vem de fontes renováveis

Na última semana, notícias sobre um suposto consumo energético desenfreado causado pela rede do bitcoin ganharam manchetes no mundo todo. O dado sobre o bitcoin consumir mais energia do que países inteiros, como Holanda e República Tcheca, rapidamente se espalhou e levantou questionamentos sobre o risco ambiental da criptomoeda. A realidade, entretanto, está longe de ser catastrófica.

Em primeiro lugar, é importante dizer que, de fato, a rede do bitcoin atingiu um valor recorde em relação à energia utilizada para mantê-la funcionando e certamente existe algum prejuízo ambiental causado pelo bitcoin, como acontece com praticamente tudo ao nosso redor — dos carros à exploração de reservas de ouro; da emissão de um cartão de crédito à sua próxima viagem de férias.

Dito isso, é importante entender o porquê do bitcoin consumir tanta energia, de onde ela vem, e porque o seu impacto ambiental não é tão danoso quanto foi especulado recentemente.

Por que o bitcoin consome tanta energia?

Não é o uso do bitcoin que demanda muita energia, mas a sua mineração, que é a base de funcionamento de sua blockchain. É essa atividade que garante a segurança das transações, dos saldos de cada uma das carteiras num determinado período e da própria rede em si.

A mineração do bitcoin utiliza um sistema de consenso que envolve incentivos econômicos conhecido como Prova de Trabalho (ou, em inglês, proof-of-work, cuja sigla é PoW). A ideia é que participantes da rede, se assim o quiserem, ajudem a mantê-la segura e funcionando, por meio dos registros das transações, e sejam recompensados financeiramente por meio da emissão de novas unidades monetárias.

“Olhando a mineração sob a ótica de sua importância e função na arquitetura da blockchain do bitcoin, ela é um mecanismo de consenso que usa a prova de trabalho para possibilitar o consenso entre pessoas que não se conhecem nem confiam umas nas outras. E isso tem um valor extraordinário”, disse a especialista em tecnologia blockchain Tatiana Revoredo.

A recompensa em novas unidades de bitcoin, naturalmente, gera concorrência entre os participantes. Quanto maior a concorrência na rede, maior também o seu poder computacional (taxa de hash, ou, em inglês, hashrate) e, consequentemente, maior a segurança da rede. Mas o aumento na competição pelas recompensas gera também maior o consumo energético dos computadores para consegui-las, dado que a atividade é intensiva em capacidade de processamento.

Com o preço da criptomoeda nas alturas, é natural que os agentes de mercado vejam uma oportunidade de negócio na mineração, retroalimentando o ciclo de competição versus consumo de energia.

“Sempre que uma nova tecnologia surge, é necessário o desenvolvimento de toda uma infraestrutura. Quando a internet surgiu, por exemplo, foi necessário desenvolver roteadores, modens, etc. Do mesmo modo acontece com o bitcoin, que é também uma tecnologia, da qual a mineração é um dos componentes, e que evoluirá com o tempo”, explicou Tatiana.

O impacto ambiental do bitcoin

A corrida pela mineração do principal criptoativo do mercado elevou o consumo energético necessário para essa atividade, o que gerou um rearranjo geográfico por parte das mineradoras, que passaram a buscar regiões onde o custo da energia é menor. Isso explica porque, por exemplo, mineradoras brasileiras se mudaram para o Paraguai, ou porque a China é o local com maior concentração de mineradores no mundo.

Apesar do alto consumo energético, uma pesquisa da CoinShares Research mostra que 74,1% da energia utilizada por mineradores de bitcoin do mundo todo vêm de fontes renováveis, em especial usinas hidrelétricas, solares e eólicas.

O relatório mostra também que muitos geradores de energia renovável estão mal localizados e, por isso, subutilizados. Nesses casos, a mineração de bitcoin se tornou uma solução para o uso viável da energia produzida. Tudo isso já reduz consideravelmente o suposto dano ambiental do bitcoin.

A província de Sichuan, na China, concentra 50% do hashrate global do bitcoin. Isso acontece porque, durante a estação chuvosa, a hidrelétrica local produz muito mais energia do que o necessário e passa a distribuir energia por preços irrisórios, a fim de dar vazão à sua produção.

“Não faz sentido olhar somente para o consumo energético sem entender a importância e a
necessidade dessa rede. Além disso, diferente de outros setores e países, os mineradores de bitcoin conseguem migrar suas operações para localidades que possuem excedente de energia ou com fontes renováveis”, explica Rudá Pellini, que atua com mineração de bitcoin e está desenvolvendo uma operação sustentável no setor.

A Universidade de Cambridge, em outra pesquisa, aponta que, em 2020, a rede do bitcoin consumiu, no mundo todo, metade da energia consumida por eletrodomésticos sem uso que ficam ligados na tomada, apenas nos Estados Unidos.

Além disso, segundo a universidade, a produção anual global de energia renovável é 53 vezes maior do que o consumo promovido pela mineração de bitcoin, o que indica que é possível, até com certa facilidade, aumentar ainda mais o uso de energia "limpa" para manter a blockchain do bitcoin funcionando.

“É preciso ter cautela ao se ‘rotular pejorativamente’ inovações tecnológicas como o bitcoin, sem ponderar com profundidade o alcance e benefícios que uma tecnologia de núcleo como o bitcoin pode propiciar à sociedade como um todo”, disse Tatiana.

O bitcoin é, atualmente, ainda segundo a Universidade de Cambridge, responsável por 0,54% do consumo de energia no mundo. E, de fato, parte de toda essa energia consumida pela rede vem de fontes não-renováveis. O bitcoin causa, sim, algum impacto ambiental. Saber se o saldo é positivo, entretanto, não depende desse tipo de número, mas de avaliar se os benefícios compensam esse impacto.

“O bitcoin é uma inovação, na medida em que possibilita a automatização da confiança e digitalização de um sistema monetário descentralizado, com impactos culturais, econômicos, políticos e sociais. E como tudo que é novo, causa medo, dúvida e incerteza e aumenta a pressão sobre os que desejam manter seu status quo (os players tradicionais)”, finalizou a especialista.

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