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Sem água, sem cerveja: como uma fábrica da Heineken virou uma das mais eficientes do mundo

“Precisamos olhar para a água do campo ao copo”, diz diretora de sustentabilidade da gigante de bebidas, que já trata o recurso como um risco crítico para o negócio

A fábrica em Alexânia reduziu em cerca de 23% o consumo hídrico por litro produzido desde 2018 e se tornou referência global (Divulgação)

A fábrica em Alexânia reduziu em cerca de 23% o consumo hídrico por litro produzido desde 2018 e se tornou referência global (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 30 de março de 2026 às 15h00.

Última atualização em 30 de março de 2026 às 17h58.

Não existe cerveja sem água e é a partir dessa premissa que a Heineken colocou o recurso natural no centro da estratégia de negócio. Mais do que um insumo, é um fator crítico para a operação e crescimento da companhia.

“Uma das maneiras de calcular nossa eficiência é o quanto de água usamos para cada litro de cerveja produzido”, resume Lígia Camargo, diretora de Sustentabilidade do Grupo HEINEKEN no Brasil, em entrevista à EXAME. O indicador hoje é um dos principais KPIs da operação.

É nesse contexto que a cervejaria da companhia em Alexânia, no interior de Goiás, ganhou destaque global. A unidade está hoje entre as mais eficientes do mundo no uso de água dentro do grupo, que reúne cerca de 160 fábricas.

No Brasil, são 14 cervejarias da marca, a maior parte concentrada no Sudeste.

Desde 2018, Alexânia reduziu em cerca de 23% o consumo hídrico por litro produzido, fruto de uma transformação operacional que combina tecnologia, gestão e cultura.

O avanço é ainda mais expressivo quando se olha o ponto de partida: há duas décadas, a planta operava com um consumo próximo de 10 litros de água para cada litro de cerveja. Hoje, esse número caiu para cerca de 2,2 litros.

“Nos últimos anos, estruturamos uma jornada consistente para reduzir o consumo em Alexânia. Hoje monitoramos cada gota em tempo real e conseguimos atuar rapidamente para evitar desperdícios”, afirma Cícero Rodrigues, diretor da cervejaria, também à EXAME.

Se Alexânia mostra o que é possível dentro da operação, o maior desafio está fora dela, garantem os executivos. Segundo a Heineken, cerca de 90% da pegada hídrica da cerveja está na agricultura através do cultivo de cevada e lúpulo.

“A gente precisa olhar para a água do campo ao copo, de maneira integrada”, diz a diretora de sustentabilidade. “É um dominó: se você não olha o sistema inteiro, tudo pode colapsar".

Essa visão levou a empresa a ampliar sua estratégia para além das fábricas, com foco em cadeia de valor e gestão de bacias hidrográficas.

A estratégia da gigante de bebidas considera eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. “Crise hídrica não é só seca — o excesso também é crise”, lembra a executiva: isto significa que impactos indiretos também entram na conta.

Queimadas, por exemplo, podem comprometer a infiltração de água no solo e afetar a recarga de aquíferos, efeitos que chegam a fábricas a dezenas de quilômetros de distância.

“A gente não pode usar água para fazer nossos produtos e deixar a comunidade no entorno sem acesso", destaca Lígia.

Eficiência que começa na operação

O desempenho da unidade está diretamente ligado à lógica industrial. Mais do que projetos pontuais, a redução do consumo hídrico passou a ser tratada como um indicador central de eficiência.

“Quanto melhor a performance da linha, menos água a gente consome”, explica Cícero.

Na prática, isso significa operar com alto nível de previsibilidade e menos interrupções, fatores-chave que evitam limpezas adicionais e uso desnecessário de recursos.

A fábrica conta com monitoramento em tempo real e sensores distribuídos por toda a operação, capazes de identificar variações no consumo e perdas quase instantaneamente.

“A gente consegue contabilizar cada gota de água da cervejaria”, afirma o executivo.

Apesar dos avanços, há um limite físico para a redução do consumo hídrico e isso acontece especialmente em processos que exigem alto rigor sanitário.

“Existe uma barreira tecnológica porque a gente precisa garantir a qualidade do produto”, explica Rodrigues. “A gente não pode abrir mão dos processos", complementa.

Ainda assim, a companhia continua avançando com soluções como reaproveitamento de água em subprocessos industriais e análises criteriosas de parâmetros como pH e turbidez para permitir o reuso seguro.

Dentro das fábricas, o diretor reitera que eficiência hídrica também depende de um fator menos visível: comportamento.

“O engajamento precisa estar em toda a cadeia: do jardineiro ao mestre cervejeiro”, diz Cícero. “Quando vira KPI de negócio, todo mundo se incomoda com qualquer desperdício.”

Restaurar florestas é cuidar da água 

Em regiões de maior estresse hídrico, a atuação vai além da eficiência industrial.

Em Itu (SP), onde a companhia mantém uma de suas maiores unidades, a estratégia inclui projetos de restauração ambiental em larga escala, com foco na recarga hídrica.

“Estamos plantando uma ‘fábrica de água e carbono", contou Lígia.

As iniciativas envolvem recuperação de áreas degradadas, construção de microbacias para retenção de água da chuva e parcerias com organizações como a SOS Mata Atlântica, com o objetivo de aumentar a infiltração no solo e estabilizar o fluxo hídrico das bacias.

O desafio até 2030

A Heineken estabeleceu metas globais para reduzir o consumo médio de água para 2,4 hl/hl em áreas de estresse hídrico e 2,6 hl/hl nas demais localidades até 2030.

O case de Alexânia, agora replicado em outras operações, mostra que o caminho passa menos por soluções isoladas e mais por uma combinação de tecnologia, gestão e visão sistêmica.

Porque, para a indústria, a água deixou de ser apenas um insumo e virou condição de sobrevivência do negócio. 

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