*Por Rodrigo Fernandez, da Systemica
Após um ciclo de forte expansão seguido por uma crise de credibilidade, o Mercado Voluntário de Carbono (VCM) passa por um processo de reestruturação que redefine sua dinâmica de valor.
O mercado se afasta gradualmente da lógica de transações spot para um modelo baseado em investimentos diretos em projetos e contratos de longo prazo para aquisição futura de ativos.
Estima-se que acordos diretos de compra antecipada, os chamados offtakes, tenham superado US$ 7 bilhões em 2025, cerca de cinco vezes o valor movimentado no mercado spot.
Esse movimento é, em grande medida, uma resposta à crise de integridade que atingiu o setor entre 2022 e 2023, período marcado por questionamentos sobre a qualidade das metodologias utilizadas na certificação de créditos.
Como consequência, empresas passaram a adotar uma postura mais cautelosa na aquisição de offsets, enquanto certificadoras e iniciativas de governança iniciaram um amplo processo de revisão de metodologias e critérios de qualidade.
Dados reunidos no relatório VCM in Review 2025, elaborado pela Systemica, refletem esse momento de transição. Em 2025, a emissão de novos créditos de carbono recuou pelo quarto ano consecutivo, registrando queda de 10,6% em comparação com 2024.
Essa retração decorre do descompasso entre a capacidade de emissão sob metodologias mais robustas e a crescente demanda por ativos de maior integridade. Certificadoras têm ampliado prazos de validação enquanto o mercado aguarda a consolidação de padrões mais rigorosos, como os associados aos Core Carbon Principles (CCP).
Apesar desse ajuste na oferta, a demanda corporativa permanece resiliente. Em 2025, cerca de 178,8 MtCO₂e foram aposentados, volume próximo ao observado nos últimos anos. Mais de 8 mil empresas participaram ativamente do mercado ao longo do ano.
O desafio central reside na qualidade dos ativos disponíveis. Aproximadamente metade do estoque em circulação apresenta classificação de qualidade B ou inferior, enquanto apenas cerca de 15% atendem aos critérios do mais alto nível de integridade ambiental.
Essa assimetria reflete-se nos preços: em 2025, créditos melhor avaliados foram negociados em torno de US$ 8 por tonelada, enquanto ativos de menor qualidade permaneceram próximos de US$ 2.
A retomada do mercado tem sido impulsionada por uma mudança nos modelos de financiamento. Em vez de depender predominantemente do mercado spot, empresas passaram a investir diretamente em novos projetos por meio de contratos de offtake.
Esses acordos permitem garantir acesso a ativos de maior qualidade e previsibilidade de oferta, além de viabilizar o financiamento de atividades em estágio inicial — aspecto relevante para iniciativas como projetos de reflorestamento.
O volume financeiro desses contratos cresceu de forma expressiva desde 2022, passando de cerca de US$ 300 milhões para aproximadamente US$ 7,1 bilhões em 2025 — um crescimento de mais de 20 vezes no período.
Esses acordos estão concentrados em um grupo relativamente pequeno de compradores, responsáveis por cerca de 75% das transações, tendo a Microsoft como um dos principais expoentes. Observa-se também crescimento relevante na participação de compradores de menor escala, cujos contratos cresceram aproximadamente sete vezes no mesmo intervalo.
Paralelamente, avanços no ambiente regulatório internacional oferecem sinais positivos. A consolidação das regras do Artigo 6 do Acordo de Paris e o desenvolvimento de novos mecanismos de certificação vinculados à ONU tendem a elevar os padrões de transparência.
Iniciativas como o CORSIA e discussões na União Europeia indicam um movimento gradual de convergência entre mercados voluntários e regulados.
Nesse cenário, o Brasil reúne condições particularmente favoráveis. A combinação de grande potencial de mitigação baseada na natureza, capacidade de geração de créditos de remoção e experiência acumulada em projetos florestais posiciona o país como um dos principais candidatos a fornecedor global de ativos ambientais.
Transformar esse potencial em vantagem econômica dependerá de fatores críticos. O avanço da regulamentação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) poderá oferecer maior segurança jurídica, padronização contratual e clareza sobre a gestão de ajustes correspondentes — elementos fundamentais para integrar o mercado doméstico a mecanismos internacionais.
Se bem estruturado, o SBCE pode funcionar como catalisador para posicionar o Brasil não apenas como fornecedor de créditos, mas como plataforma de geração de ativos climáticos de alta qualidade, capaz de atrair investimentos internacionais e contribuir para o financiamento da transição climática.
A reorganização do VCM indica que o valor futuro não estará mais no volume de créditos disponíveis, mas na qualidade técnica, ambiental e social dos ativos. Em um cenário em que integridade e transparência se tornam determinantes, países que estruturarem projetos robustos e marcos regulatórios claros terão vantagem competitiva.
O Brasil possui os recursos naturais e a escala necessários. 2026 será decisivo para transformar esse potencial em estratégia.
*Rodrigo Fernandez é coordenador de inteligência da Systemica
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