Livro faz uma implacável crítica ao pensamento de esquerda

Conservador britânico rebate e questiona os principais pensadores da esquerda do último século

Tolos, Fraudes e Militantes

Autor: Roger Scruton

Editora Record

406 páginas

Preço: 54,90

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A polarização política que confronta ideias da esquerda e da direita, e que se intensifica internacionalmente, tem um aspecto interessante quando provoca o debate fundamentado das ideias. Mas enquanto a turma da esquerda se vangloria de ter grandes pensadores, os da direita lamentam a pouca projeção, e até mesmo o preconceito, em relação aos intelectuais que representam o pensamento conservador. Mas não é bem assim.

A prova disso é Roger Scruton, um honrado escritor inglês, autor de mais de 30 livros, e considerado o maior intelectual do pensamento conservador britânico — e, certamente, uma referência mundial dessa linhagem. Aliás, trate-o como “Sir”, título com o qual foi agraciado em 2016 pela (conservadora) rainha Elizabeth II.

Na vasta obra de Scruton sobressai uma mensagem principal: a crítica implacável a todo o pensamento de esquerda, notadamente os seus representantes mais célebres. Neste seu livro mais recente, Tolos, Fraudes e Militantes , o assunto não é outro e, aliás, o título já diz tudo.. Com um detalhe que espanta as críticas apressadas: ele tem crédito, conhecimento e consistência teórica para apoiar as análises impiedosas que faz às celebridades da esquerda. Sim, é possível acusar Scruton de se deixar levar pela emoção, de se seduzir pelas ideias radicais e até por manipular, às vezes, a sua lógica argumentativa. Mas é inegável que ele sabe o que está falando e suas críticas são procedentes para quem está disposto a refletir com imparcialidade.

Scruton analisa, rebate e questiona os principais pensadores da esquerda do último século: Lacan, Habermas, Lukacs, Sartre, Foucault, Jacques Derrida, ,Hobsbawm e outras figurinhas carimbadas pela filosofia, história, psicanálise, literatura e sociologia. O curioso, e uma prova de que Scruton não é uma besta enfurecida, é que, ao discorrer sobre suas “vítimas”, deixa claro, antes de tudo, a sua admiração que tem por elas, ressaltando pontos válidos das obras em questão. Mas, em seguida, investe um ataque implacável para destruir os conceitos e reflexões principais de cada um, elaborando críticas quase sempre bem fundamentadas, ainda que esbarrem em avaliações apressadas de aspectos pessoais, numa narrativa que chega, muitas vezes, a ser cômica — ou pelo menos capaz provocar aquele sorriso de canto da boca que consagra o humor britânico. O resultado é uma leitura agradável, em algumas passagens pelo menos, mas sempre gratificante e reflexiva.

O principal alvo de Scruton é a chamada geração soixante-huitard, a expressão em francês que poderia ser traduzida por algo como “sessentoitista”, aqueles que atuaram e militaram nas manifestações de 1968. Ou seja, a Nova Esquerda, que adotou o ativismo social, em detrimento do ativismo trabalhista, para defender os direitos civis, combater a opressão sexual, o racismo e, na época, fortemente engajada contra a Guerra do Vietnã. Essa geração foi responsável pela produção de boa parte dos paradigmas de esquerda que vigoram até hoje e se merecem um lugar na história, não é, segundo Scruton, por suas qualidades e sim, por seus defeitos.

Um exemplo é a análise que faz sobre o filósofo húngaro Georg Lukács, uma importante referência marxista, inclusive da Nova Esquerda (morreu em 1971). Passou a vida inteira em conflitos com os governos socialistas, foi preso,esteve perto de ser executado e morreu com dificuldades financeiras. O seu discurso foi se radicalizando com o passar do tempo, merecendo de Scruton a qualificação de “esnobismo antiburguês”, ao mesmo tempo em que se derrama em elogios ao seu trabalho como crítico literário. De fato, Lukács é uma referência no estudo da teoria literária, frequentemente elogiado pelo que fez antes de sua adesão radical ao marxismo — elogio e restrição feitas inclusive pelo nosso Antonio Candido, que sempre se declarou socialista.

É com reverência ainda maior que Scruton trata, pelo menos a princípio, o filósofo francês Michel Foucault, cujos teses talvez sejam as mais influentes para aquela Nova Esquerda e certamente até nossos dias. E a crítica que faz está cercada de interpretações atenuantes: “Lendo suas ultimas obras, fui constantemente tomado pela ideia de que seu beligerante esquerdismo era não uma critica da realidade, mas uma defesa contra ela, uma recusa em reconhecer que, apesar de todos os seus defeitos, a normalidade é tudo que temos”, escreve ele.

Foucault mudou muito de posição política ao longo da vida, mas sempre manteve um tom crítico de esquerda, concentrado no desmascaramento da burguesia e na convicção de que a sociedade civil está sempre destinada a praticar alguma forma de dominação. Scruton elogia o brilhantismo de Foucault, mas critica sua abordagem em relação à sexualidade, manifestando, sutilmente, restrições ao comportamento do filósofo, sem apontar de maneira explícita a sua homossexualidade e o fato de ter sido a primeira grande celebridade da França a morrer de Aids (em 1984).

E é com esse mesmo tom, sempre fundamentando seus pensamentos e críticas, que ele ataca outro astro-rei intelectual, Jean Paul Sartre, também referência máxima da Nova Esquerda. “O comprometimento escolhido por Sartre é, na verdade, um tipo totalmente ultrapassado de marxismo. Encontramos, emergindo de suas páginas, as mesmas fantasias destrutivas, as mesmas falsas esperanças e o mesmo ódio patológico pelo imperfeito e pelo normal que caracterizaram todos os seguidores de Marx, de Engels a Mao”, escreve ele. Scruton, nas suas críticas pessoais, afirma inclusive que Sartre, ao contrário do que anunciou, não teria recusado o prêmio Nobel — apenas não compareceu à cerimônia, o que é verdade, porque, naquela época (1964), não havia a opção de recusar o prêmio.Mas é claro que ele coloca uma dose a mais de veneno do que seria necessário. Ao mesmo tempo em que eleva às alturas o grande talento literário de Sartre, destrói seu hesitante pensamento político e suas práticas sexuais “esquisitas”, notadamente com sua mulher, a brilhante feminista, filósofa e escritora Simone de Beauvoir. “Embora fosse feio, com corpo flácido e rosto de sapo, Sartre fazia muito sucesso entre as mulheres — uma das quais, Simone de Beauvoir, foi sua mentora e companheira por toda a vida. Seu arranjo livre permitiu que ela assistisse a suas muitas seduções e aproveitasse os próprios relacionamentos frequentemente lésbicos, vivenciando, tanto como observadora quanto como participante”, escreve ele. Dessa forma, Scruton exclui todas as interpretações mais românticas e ousadas da vida do casal que, embora não tenham nunca se casado, ou mesmo morado juntos, juraram devoção mútua com total liberdade, num gesto que buscava combater a hipocrisia burguesa das uniões formais. Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir formaram, talvez, o casal mais influente do século 20, mas Scruton prefere ser reticente ao explicar as relações ousadas dos dois, optando por uma análise azeda e mal humorada — e a essas alturas, o leitor fica em dúvida se ele é brilhante ou um chato. Provavelmente os dois.

Quando se reúne o conjunto dos acontecimentos que marcou os anos de 1960, invadindo um pouco os anos 1970, é comum haver uma valorização daquela época. E há bons motivos para isso. Afinal, é inegável que houve uma transformação cultural, comportamental e política e o surgimento de grandes criadores e pensadores cujas influências se prolongam até nossos dias. Mas essa admiração raramente abre espaço para uma abordagem crítica, necessária para filtrar essa admiração incondicional.

Por isso, muitas críticas que Scruton faz, ainda que contaminadas por mentalidade inflexível, são valiosas. É o caso, por exemplo, de seus comentários sobre a linguagem, justamente quando analisa o trabalho de outro ícone da Nova Esquerda, o suiço Ferdinand de Saussure. Apesar de ser de outra época (morreu em 1913), foi ele quem deu à linguística a condição de ciência, desenvolvendo o conhecimento e interpretação dos símbolos, ou seja, a semiótica, com idéias que seriam largamente exploradas na literatura e nas manifestações culturais da geração soixante-huitard.

Scruton respeita o trabalho de Saussure, mas se revolta contra a apropriação vocabular exercida pela Nova Esquerda, por ele dominada como “novilíngua” — expressão retirada do romance 1984 de George Orwell, em que um governo autoritário cria um novo idioma, com palavras condensadas, para limitar a capacidade de raciocínio da população. Vocábulos como “capitalismo”, “liberdade”, “luta” passaram a fazer parte dessa novilíngua assumindo sentidos restritos, ideológicos e manipulados, segundo Scruton. ” A linguagem política tem sido o principal legado da esquerda, e um dos objetivos deste livro é resgatá-la da novilíngua socialista”, avisa ele. Sua crítica é ainda mais feroz com a expressão “justiça social”, um ingrediente indispensável para o discurso de qualquer orientação ideológica de esquerda. “É o tipo de ‘justiça’ imposta por um plano que invariavelmente envolve privar os indivíduos de coisas que adquiriram através de negociações justas com o mercado. E o governo deverá ser o criador e gerenciador de uma ordem social modelada de acordo com uma ideia de justiça social e imposta ao povo por uma serie de decretos de cima para baixo”, argumenta ele.

A última pitada de ressentimento é quando Scruton lamenta, de maneira enfática, o limbo obscuro para o qual o pensamento conservador, ou de direita, é condenado de uma maneira já consagrada, identificando-o, por exemplo, com o fascismo — numa espécie de assimetria moral que atribui à esquerda o monopólio da virtude.

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