Freio na retomada: 3 gráficos que mostram desaceleração da economia

Rápida reação da atividade à crise pode não ser sustentável no curto prazo, e alguns indicadores começam a sugerir uma redução desse ritmo no 4º trimestre
Comércio no Rio de Janeiro, em 29 de junho de 2020: movimento pode sentir a redução do auxílio emergencial (Lucas Landau/Reuters)
Comércio no Rio de Janeiro, em 29 de junho de 2020: movimento pode sentir a redução do auxílio emergencial (Lucas Landau/Reuters)
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Ligia Tuon

Publicado em 19/11/2020 às 12:55.

Última atualização em 19/11/2020 às 15:02.

Após ser atropelada pela pandemia do coronavírus, a atrividade econômica mostrou no terceiro trimestre que, de modo geral, passou por uma recuperação em "V". Essa rápida reação, no entanto, pode não ser sustentável já no curto prazo, e alguns indicadores começam a sugerir uma redução desse ritmo no quarto trimestre.

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O movimento já é esperado, de acordo com o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, que disse em evento internacional no início da semana, que a atividade deve começar a perder força daqui em diante.

Um ponto que chama atenção é como a confiança do empresário e do consumidor perderam força de recuperação em outubro e, de forma preliminar, em novembro, segundo Arthur Mota, economista da Exame Research. "Vale pontuar que essa perda de força está muito concentrada nas expectativas, o que pode impactar nos próximos meses", diz.

Por sua vez, o setor industrial mostrou que conseguiu sair melhor desta crise do que de crises anteriores, mas a falta de insumos e bens intermediários pode frear esse movimento também nos próximos meses, alerta Mota.

A falta de insumos no país atingiu em outubro os maiores níveis em quase vinte anos, segundo pesquisa da FGV publicada pelo Estadão nesta semana. O problema já afeta 14 dos 19 segmentos da indústria, com destaque para o setor de vestuário, no qual 74,7% das empresas reportaram queixas nesse sentido. Grande parte das reclamações é sobre dificuldade em comprar embalagens.

"Para outubro já temos uma redução da carga de energia elétrica (muito ligada ao apagão no Amapá), e também da expedição de papel ondulado (papelão para embalagens), que são boas proxys e indicadores para acompanhar a atividade industrial', diz.

Vale ressaltar que essa desaceleração pode ser pontual, já que é mais ligada à falta de insumo do que com a demanda, destaca Arruda. "A indústria deverá ter uma sobrevida em relação aos outros setores, por conta dos estoques", diz.

Por fim, para o varejo os dados de faturamento também mostram uma certa estabilização no ritmo de recuperação ao longo de outubro, o que preocupa sobretudo o setor de serviços, que ainda precisa recuperar o que perdeu durante a pandemia.

"Nesse sentido, é ainda mais importante acompanhar a evolução da pandemia nas regiões brasileiras, mesmo com notícias muito mais positivas de vacina. Se tivermos uma situação de aumento de restrições (ainda que brandas e parciais), provavelmente, o setor de serviços terá ainda mais dificuldade de retomar seu nível anterior e a confiança pode ser novamente afetada", diz Mota.

Enquanto o resto do mundo volta a registrar númros recordes de contágio pela covid-19, o Brasil passa por um aumento acentuado nos registros, com a média móvel dos últimos sete dias atingindo o maior número desde 11 de outubro, segundo dados do consórcio de veículos de imprensa divulgados nesta quinta-feira, compilados a partir de informações das secretarias estaduais de Saúde. Por essa métrica, já são 584 mortes, uma alta de 49% ante a média de 14 dias atrás. É a maior variação desde maio.

Outro importante catalisador do freio é a redução do valor do auxílio emergencial de R$ 600 para R$ 300. O movimento é um dos maiores desafios do governo e alimenta incertezas sobre como o motor da economia que vem do consumo vai reagir, já que reduz a renda disponível das famílias.

"O varejo foi um dos grandes destaques da recuperação. Chama atenção que voltamos a ter um consumo em patamares de 2014, quando o desemprego ficava pouco acima de 4%. Agora, porém, o desemprego bate nos 16%, não faz sentido que o consumo se mantenha alto", diz Gustavo Arruda, economista chefe do BNP Paribas.

Enquanto não surgirem vacinas e medicamentos seguros e eficazes para lidar com a pandemia, muitos setores altamente empregadores de mão de obra permanecerão deprimidos, dificultando, portanto, a recuperação do emprego, escreveram os economistas José Júlio Senna e Marcel Balassiano, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV), nesta semana:

"Acresce que a insegurança e as incertezas decorrentes da pandemia continuarão atuando de maneira a inibir gastos de maneira geral, sejam de consumo, sejam de investimento".

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