Sem pessoas, não há geração de valor

Em sua coluna desta semana, Viviane Martins, CEO da Faconi, traz reflexões a partir da carta de Musk, que exigiu o retorno ao trabalho presencial
 (Jeremy Moeller / Colaborador/Getty Images)
(Jeremy Moeller / Colaborador/Getty Images)
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Viviane Martins

Publicado em 06/06/2022 às 09:03.

Última atualização em 07/06/2022 às 15:30.

No mundo dos negócios (e, principalmente, no LinkedIn), o mês de junho começou com discussões acaloradas. Elon Musk, megaempresário, CEO da Tesla e da SpaceX e pessoa mais rica do Planeta Terra, teve uma polêmica carta para os funcionários da sua empresa de veículos elétricos compartilhada. Na mensagem, confirmada por executivos da companhia, Musk dava um ultimato ao time: ou os colaboradores retornavam ao trabalho presencial, ou deveriam se demitir.

A carta conta com frases (fortes) como: “Qualquer um que deseje fazer trabalho remoto deve estar no escritório por um mínimo de tempo de 40 horas semanas ou sair da Tesla”; “Trabalho remoto não é aceitável”; e “O escritório precisa ser a estação principal de trabalho da Tesla, não uma filial remota”.

Discussões do tipo já vinham ganhando força, e polarização, mesmo antes da pandemia. Com a crise do coronavírus, o tema ganhou urgência dentro das corporações. Desde o início deste delicado momento – até os dias de hoje –, acredito que as lideranças devam manter dois focos prioritários: preservar seu time e a perenidade da sua companhia. Afinal, sem pessoas, não há geração de valor. E isso só é possível a partir da comunicação diária e do fomento à cultura ágil. 

Esses fatores impactam diretamente nas relações de trabalho e na capacidade de inovação. Se um negócio busca agilidade, ele precisa entender que relações hierarquizadas não cabem mais nesse tipo de estrutura organizacional. E o home office, que tanto desagrada Musk, é apenas mais um elemento nessa equação, mais um tempero no caldo. A cultura ágil e a necessidade transformação demandam conexões mais diretas entre os líderes e liderados e mais autonomia. No modelo remoto, é muito mais importante combinar o resultado final e alinhar as entregas do que controlar o funcionário. 

Se antes o foco total dos negócios era no cliente, agora os tempos são outros, são mais amplos. Na era do ESG (Sustentabilidade, Social e Governança), temos que falar em experiência total – do cliente e do funcionário, com responsabilidade social corporativa. Ignorar tais mudanças é ignorar as pessoas. Uma pesquisa da Page Outsourcing mostrou que a grande maioria dos profissionais brasileiros sonha em trabalhar em uma grande corporação, no modelo remoto, e com acesso a plano de saúde e oportunidades para desenvolver sua carreira.

No total, mais de 66% dos 6,3 mil participantes da pesquisa buscam, parcial ou integralmente, trabalhos que possam fazer sem se locomover ao escritório. Até mesmo Jeff Bezos, fundador da Amazon, que há pouco ocupava o lugar de Musk como pessoa mais rica do mundo, já sinalizou a importância da People Centricity nos negócios. Ou seja, buscar resultados a qualquer preço, indo contra aquilo que os colaboradores buscam enquanto qualidade de vida, não aparenta ser um caminho sustentável para as empresas, principalmente para aquelas interessadas em deixar um legado positivo no mundo. 

Não há dúvidas de que determinados trabalhos funcionam bem modelo remoto, enquanto outras atividades demandam uma troca presencial, com maior nível de colaboração entre as pessoas. Em termos de processos, resta às empresas entender e mapear os ofícios (e os momentos desses ofícios) de forma a saber quais são os que exigem maior ou menor presença física do colaborador. Igualmente, é essencial que se mantenham atentas à flexibilidade e produtividade no modelo remoto. Combinar esse mix e construí-lo como processo pode ser o caminho para dosar na justa medida as vontades e necessidades dos negócios e das pessoas.