Novo Desenrola inclui dívidas de cartão, cheque especial e crédito pessoal em atraso de 90 dias a dois anos (Leandro Fonseca/Exame)
Colunista
Publicado em 7 de maio de 2026 às 21h14.
Última atualização em 8 de maio de 2026 às 21h49.
Com a eleição se aproximando, o governo corre para recuperar a popularidade perdida. Entre os instrumentos à mão, está novamente o programa de ajuda à população, feito em 2023, o Desenrola, agora na versão 2.0, muito mais amplo e também com mais dúvidas quanto à efetividade.
Com o aumento da taxa de juros e o efeito ainda pouco conhecido das Bets, especialmente na população mais pobre, a inadimplência nesta faixa de renda aumentou de forma significativa, muito mais do que no restante da população.
Os dados do Banco Central, desde 2022, mostram um aumento significativo nessa faixa de renda e, em praticamente todos os tipos de crédito, houve piora entre os tomadores com renda de até 2 salários mínimos. Com a eleição se aproximando, esse quadro volta a assustar o governo.
Para tentar amenizar isso, o governo lançou o Desenrola 2.0 e, nesse sentido, vale entender se o programa funcionou quando foi lançado em meados de 2023. Para isso, comparamos a evolução da inadimplência em dois grupos entre janeiro de 2022 e fevereiro de 2026: os tomadores com renda de até 2 salários mínimos, público-alvo da Faixa 1 do programa, e os tomadores com renda acima de 10 salários mínimos, que não foram beneficiados, usando como base os dados do Sistema de Informações de Crédito do Banco Central e quatro especificações econométricas distintas para garantir robustez.
Até o lançamento do programa, as duas curvas caminhavam em paralelo, o que valida a comparação. A partir daí, abre-se um descolamento progressivo: a inadimplência das famílias mais pobres cai 2,2 pontos percentuais a mais do que a do grupo de alta renda já no início de 2024, atinge o pico de 3,5 pontos no fim daquele ano, um trimestre após o encerramento do programa, quando as últimas renegociações foram concluídas, e o crédito pessoal não consignado lidera a queda, com efeito diferencial de até 3,1 pontos. Como teste de falsificação, refizemos o exercício usando a faixa de 5 a 10 salários mínimos como “falso tratado” e, nesse caso, o efeito desaparece, confirmando que o resultado é específico ao público que o programa de fato alcançou. O problema é que, a partir do segundo semestre de 2025, o efeito se dissipa completamente: em pouco mais de 18 meses, a inadimplência diferencial voltou ao patamar pré-Desenrola e, em muitos casos, superou esse patamar. Isso sugere que o programa funcionou como uma limpeza pontual de carteira, sem alterar os determinantes estruturais do endividamento, como o nível de juros, o comprometimento de renda e o acesso a crédito rotativo de alto custo. A deterioração observada em 2025 e no início de 2026, agora em máximas históricas, reforça essa interpretação.
Essa deterioração, aliás, tem sido observada nos últimos meses em praticamente todos os tipos de crédito de baixa renda. Interessante observar que também a faixa mais alta de renda foi a que mais cresceu em termos de taxa de crescimento, basicamente devido à piora da inadimplência nas linhas rurais e agroindustriais. Esse setor é o que mais tem piorado nos últimos anos, fruto da conjunção de juros elevados e de alta alavancagem nos anos de bonança pós-pandemia. Os pequenos produtores são claramente os que mais sofrem nesse momento, com um histórico de inadimplência de 16% em fevereiro.

Em praticamente todas as linhas de crédito, a inadimplência tem subido com força, como é o caso do setor de veículos, no qual a população mais pobre também dá sinais de piora significativa e já apresenta um nível de inadimplência de 10% em fevereiro.
Isso fica mais claro na Tabela 1, na qual vemos as fortes variações da inadimplência de fevereiro do ano passado até agora, com apenas a faixa habitacional mostrando estabilidade, o que é esperado, pois é a última coisa que o brasileiro deixa de pagar. Esses números mostram por que o governo está sob pressão para apresentar o Desenrola 2.0. Mas, como vimos, é um programa que serve como anestesia eleitoral e pode ter efeito político se as quedas observadas no Desenrola 1.0 se repetirem. Será, no fim, mais um paliativo com custo elevado para o Tesouro e para os instrumentos parafiscais, como o FGTS, sem solucionar o problema de uma vez. Isso só vai acontecer com um ajuste fiscal mais definitivo que reduza os juros.
Dessa vez, o programa estendeu as faixas de renda atendidas à classe média e a outros instrumentos, como o FIES. Tornou-se muito mais amplo do que o anterior e reforça a percepção do governo de que essa faixa de renda pode fazer a diferença na eleição deste ano. Não por acaso, a última pesquisa da Nexus mostrou que a população não endividada tem apoio muito maior a Lula na reeleição do que a Flávio Bolsonaro, mas aqueles que estão endividados e inadimplentes têm uma natural insatisfação com o governo de ocasião, e o apoio ao Flávio Bolsonaro se torna maior do que ao Lula nesse caso.
O problema adicional que surge desse pacote é que ele pode ser um primeiro dentre outros que podem pressionar ainda mais o fiscal em ano eleitoral. Já houve gasto extra por subvenção no setor de combustíveis, com a ideia de que será compensado pelo aumento da arrecadação com o petróleo. Mas são oportunidades perdidas para reduzir o déficit público, em que o governo aproveita cada fiapo de receita extra possível para tentar aumentar sua popularidade. O fiasco da derrota da candidatura de Messias ao Supremo só reforça a atenção extra a um governo tão emparedado neste momento.