Como responder aos chineses em uma invasão a Taiwan?

A visita de Nancy Pelosi acelerou uma discussão que tinha chance de aparecer mais no final desta década
 (SAM YEH/AFP/Getty Images)
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Sérgio ValePublicado em 05/08/2022 às 15:03.

Enquanto ainda passamos pela Guerra da Ucrânia, a questão Taiwan-China começa a aparecer com mais intensidade. A visita da presidente da Câmara dos Deputados dos EUA, Nancy Pelosi, acelerou uma discussão que tinha chance de aparecer mais no final desta década.

Se por um lado a China viu o que pode acontecer como resposta depois da invasão ucraniana, por outro a questão doméstica de incorporação de Taiwan pesa cada vez mais em um mundo em que os americanos e os chineses cada vez mais se distanciam. Nesse sentido, o desejo de certa pacificação que vemos, por exemplo, no recente livro de Ian Bremmer, The Power of Crisis, parece não apenas distante, mas irreal.

Taiwan está mais concentrada em defender seus valores democráticos e menos fragilizada do que Hong Kong, que, a essa altura, está perdendo o papel de capital financeira da Ásia para Cingapura. Mas Taiwan tem um interesse maior para os chineses, pois é a sede da principal companhia de semicondutores do mundo, a TSMC. O futuro é mais de inovação tecnológica do que inovação financeira e nesse sentido Taiwan é foco de atenção muito maior para os chineses do que Hong Kong.

Quem detiver a dianteira na fronteira de inovação tecnológica terá um poder econômico mais do que relevante e é o que os chineses não querem abrir mão. Assim, parece inexorável que o processo de anexação de Taiwan, pacífico ou não, aconteça.

A resposta ocidental será muito mais difícil do que já está sendo no caso ucraniano. As sanções econômicas conseguiram diminuir o volume de vendas de comodities, mas com efeito reverso nos preços, que subiram de forma a contrabalançar a perda de volume das vendas russas. Além disso, a força militar russa tem limites, pois os ucranianos conseguem ser ajudados por terra com certa facilidade pelos europeus e americanos.

No caso de Taiwan, a distância dos americanos e o mar do Pacífico, cada vez mais dominado pelos chineses, coloca dificuldades a uma reação como estamos vendo com os ucranianos. Sem força militar relevante no Japão, Coréia do Sul e Austrália, e a neutralidade esperada da Índia, será difícil de contrapor militarmente aos chineses.

Mas, diferentemente dos russos, uma resposta via sanções econômicas contra os chineses poderia ter um impacto econômico muito mais severo. Diferentemente dos russos, que são produtores importantes de comodities, os chineses são importadores líquidos, a não ser em terras raras em que eles têm domínio de produção. Uma resposta do Ocidente teria que passar por uma ação coordenada de diversos países em torno da venda de comodities para lá. Isso seria possível certamente pensando em americanos e australianos, importantes produtores de commodities agrícolas e metálicas, mas teria que ser muito bem trabalhado com o Brasil também. Uma resposta via comodities teria a capacidade de estrangular a economia chinesa com mais força do que o simples banimento de compra de bens e serviços finais. Para um país autoritário, forçar uma recessão em um país que parece cada vez mais fragilizado em sua política interna poderia acelerar um processo de distensão política no futuro. Ou não, piorar ainda mais o autoritarismo infelizmente.

De qualquer maneira, nosso país poderá se tornar peça chave importante de resposta vias sanções da forma que poderia funcionar, que seria via corte de vendas de comodities para os chineses. Certamente o Oriente Médio não participaria e continuaria negociando petróleo com os asiáticos, mas será um ponto importante das relações internacionais brasileiras como nos posicionaríamos.

Apesar de Taiwan não ser reconhecido pela maior parte do mundo como país independente, inclusive pelo Brasil, seria a invasão de um país autoritário em um país democráticos, nos moldes da Guerra da Ucrânia.

Evidentemente, o peso econômico das exportações de comodities no Brasil poderá ser um peso que distancia mais ainda nós dos americanos e faça com que tenhamos que estreitar os laços cada vez mais com os chineses, às custas de aceitar uma perda democrática no mundo. Seria, de novo, a economia dominando a geopolítica como de certa forma tem sido na própria Guerra da Ucrânia, em que as sanções econômicas têm funcionado muito menos como dissuasão do que se gostaria. Sem falar que o inverno europeu será um divisor de águas para sabermos o quando os europeus de fato conseguirão se desvencilhar dos russos rapidamente.

No ambiente atual em que Bolsonaro apoio os russos e Lula também deu sinais não muito diferentes, culpando os ucranianos, fica a dúvida se os valores democráticos vão se impor à economia. Provavelmente não e veremos mais uma quebra na democracia mundial às custas da commodities. Dessa vez, talvez com peso importante do Brasil.

*Sergio Vale é economista-chefe da MB Associados.