Macroeconomia é guerra campal. Microeconomia é guerrilha

Em seis meses, o governo Temer estruturou uma agenda macroeconômica voltada a reduzir a inflação e garantir o reequilíbrio fiscal. Os resultados sobre a inflação são notórios. Esse ano devemos ter a inflação no centro da meta ou mesmo abaixo dela. Em contrapartida, os resultados fiscais estão longe de serem alcançados, por conta da fraca […]
Por Ricardo SennesPublicado em 10/03/2017 19:06 | Última atualização em 22/06/2017 18:23Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Em seis meses, o governo Temer estruturou uma agenda macroeconômica voltada a reduzir a inflação e garantir o reequilíbrio fiscal. Os resultados sobre a inflação são notórios. Esse ano devemos ter a inflação no centro da meta ou mesmo abaixo dela. Em contrapartida, os resultados fiscais estão longe de serem alcançados, por conta da fraca recuperação econômica, baixa arrecadação e dos limites constitucionais para reduzir a maior parte dos gastos públicos. A recuperação do equilíbrio fiscal depende, em grande medida, da volta do crescimento. Nesse campo, entretanto, o governo ainda não mostrou sua cara ou sinalizou que está disposto a enfrentar tais desafios.

Para crescer é necessário desenvolver uma agenda de temas que favoreça o investimento e a inovação nas empresas. Parte dessas decisões está ligada à agenda macroeconômica, mas o grosso delas depende de questões microeconômicas, como ambiente de negócios, agilidade em ajustar fatores de produção, baixo custo de administração e burocracia, facilidade para contratar pesquisas, acesso a novas tecnologias, etc. É a combinação desses fatores que permitem que empresas consigam ganhar e manter eficiência.

Do ponto de vista político, as diferenças de implementação de agendas micro e macroeconômica são consideráveis, principalmente em relação ao tipo de confronto político envolvido. Ao mexer com os agregados da economia – como questões fiscais, taxa de juros -, agenda macroeconômica afeta toda a população, possui instrumentos e responsáveis claros, além de grande visibilidade por parte da mídia, que acompanha com interesse e razoável grau de conhecimento. Trata-se de uma grande disputa, com parâmetro internacional e análises abundantes. As disputas nesse nível ocorrem entre grandes blocos políticos, cada qual com uma certa visão sobre a natureza do jogo econômico. É uma guerra de posição entre grandes exércitos.

Já a agenda microeconômica exige várias pequenas batalhas em caráter permanente e em campos variados. Os assuntos são mais técnicos e os detalhes, decisivos, o que dificulta a cobertura jornalística e inibe a pressão da opinião pública. Para alterar questões microeconômicas negativas, é preciso então uma guerra de guerrilha e não de posição – para usar o jargão militar.

A disputa em torno de mudanças nesse campo, em geral, está associada a privilégios ou benefícios concentrados em alguns poucos atores econômicos e a prejuízos pulverizado entre inúmeros outros. Ou seja, as mudanças significariam retirar o ganho fácil de alguns e viabilizar um ganho sistêmico que não será apropriado por nenhum agente específico, mas disperso entre vários atores. Isso porque, conforme Zeina Latif afirmou recentemente, “cada tema da agenda microeconômica tem um dono”.

Os aguerridos grupos interesses por trás dos temas microeconômicos são um dos responsáveis por ineficiências da economia brasileira e pela dificuldade de eliminá-las. Por exemplo, a ineficiência de uma agência em fornecer um certificado ou uma licença gera um poder discricionário dos burocratas para agilizar ou não tal procedimento. A redução drástica de exigências ou a automação de procedimentos elimina funções, empregos e órgãos públicos que sobrevivem dessa ineficiência. Da mesma maneira, serviços ágeis e informatizados de gestão de informações sobre crédito e inadimplência, e possibilidade de antecipar soluções negociadas de contenciosos entre credores e devedores, retiram os privilégios monopolistas dos cartórios em registrar e comunicar possíveis devedores. Milhões de empresas e consumidores, que poderiam ter serviços mais ágeis e baratos, bancam os ganhos dos poucos proprietários de cartórios.

Por conta da dificuldade de enfrentar essas batalhas, governantes tendem a adiar o máximo possível a essa agenda de microeconomia. O cálculo que parece prevalecer é que o custo político de criar poucos mas mortais inimigos não compensa os benefícios dispersos em milhões e com pouca visibilidade. Acumulado ao longo de décadas, o peso dessas ineficiências microeconômicas inibe investimentos e inovações no país. Consequentemente, derrubam o potencial de crescimento e de ganho de produtividade das empresas.

Temer ainda não mostrou como pretende lidar com essa agenda de crescimento e de destravamento da microeconomia, o que aumenta a dificuldade em atingir o reequilíbrio fiscal. As eleições em 2018 são uma nova oportunidade para trazer à tona o tema. De qualquer forma, será necessário um líder disposto a fazer uma disputa política de novo tipo: enfrentar os pequenos cartéis e privilégios que cercam cada ineficiência do ambiente de negócio no Brasil.

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