O mundo tem um problema com a Alemanha

Se Trump der início a uma guerra comercial com a Europa com certeza seria um cenário de perde-perde, ainda mais do que no caso da guerra comercial dos EUA com a China
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Paul KrugmanPublicado em 26/08/2019 às 16:35.

Qualquer pessoa imaginaria que os eventos recentes – turbulências no mercado, crescimento enfraquecido, produção industrial em queda – poderiam estar provocando alguns questionamentos na Casa Branca, em particular na visão do presidente Trump de que “guerras comerciais são boas, e fáceis de ganhar”. Isto é, é de se imaginar isso se você for o tipo de pessoa que não tem prestado atenção alguma às últimas atitudes de Trump.

O que ele está fazendo de fato é sem dúvida atribuir os problemas da economia a um enorme complô de pessoas decididas a pegá-lo. E as declarações recentes sugerem, no mínimo, que ele está se preparando para abrir uma nova frente na guerra comercial, desta vez contra a União Europeia, que ele diz que “nos trata de modo horrível: barreiras, tarifas, taxações.”

O engraçado aqui é que existem alguns aspectos da política europeia, em especial da política econômica alemã, que de fato prejudicam a economia mundial e merecem condenação. Mas Trump está indo atrás da coisa errada. A Europa não trata mal os Estados Unidos; os mercados dela são tão abertos aos produtos americanos quanto os da América são para a Europa. (Os Estados Unidos exportam quase três vezes mais para a União Europeia do que para a China.)

O problema, em vez disso, é que os europeus, e os alemães em particular, se tratam mal, com uma obsessão catastrófica quanto à dívida pública. E os custos dessa obsessão estão transbordando para o mundo como um todo.

Algum contexto: por volta de 2010, políticos e comentaristas políticos dos dois lados do Atlântico contraíram um caso grave de febre de austeridade. De alguma maneira, eles perderam o interesse em combater o desemprego, mesmo que ele continuasse desastrosamente alto, e passaram em vez disso a exigir cortes de custos. E esses cortes de gastos, sem precedentes em uma economia tão enfraquecida, desaceleraram a recuperação e atrasaram o retorno ao emprego pleno.

Enquanto o alarmismo quanto à dívida predominou tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, em algum momento se tornou claro que havia uma diferença crucial nas motivações implícitas. Os falcões do déficit da América eram hipócritas que, de uma hora para outra, perderam qualquer interesse na dívida assim que os republicanos assumiram a Casa Branca. Já os alemães, por outro lado, realmente se preocupavam.

É verdade que os alemães forçaram países europeus com problemas com dívidas a adotar cortes punitivos e que destruíram sociedades; mas a Alemanha também impôs bastante austeridade a ela mesma. A cartilha econômica diz que os governos devem ter déficits em tempos de desemprego alto, mas a Alemanha basicamente eliminou o déficit dela em 2012, quando o desemprego na eurozona estava acima de 11%, e começou a ter superávits cada vez maiores.

Por que isso é um problema? A Europa sofre de uma escassez de demanda privada: consumidores e empresas não parecem querer gastar o bastante para manter o emprego pleno. As razões desta carência são alvo de muito debate, embora o culpado mais provável seja o emprego pleno. A natalidade baixa está deixando a Europa com um número cada vez menor de adultos em idade de trabalhar, o que se traduz em demanda menor por novos imóveis, prédios de escritórios e por aí vai.

O Banco Central Europeu, o equivalente europeu à diretoria do Federal Reserve, vem tentado combater essa fraqueza crônica com taxas de juros extremamente baixas – de fato, ele tem forçado as taxas abaixo de zero, o que os economistas costumavam achar impossível. Além disso, quem investe em títulos claramente espera que essas políticas econômicas extremas durem um longo período. Na Alemanha, até mesmo os títulos de longo prazo – que vencem em até 30 anos! – pagam taxas de juros negativas.

Alguns analistas acreditam que essas taxas de juros negativas prejudicam o funcionamento do setor financeiro. Nesse ponto eu sou agnóstico, mas o que está claro é que, com a política monetária esticada ao seu limite, a Europa não tem como reagir quando as coisas derem errado. De fato, grande parte da Europa pode muito bem já estar em recessão, e há muito pouca coisa que o banco central pode fazer, se é que há algo a ser feito.

Existe, contudo, uma solução óbvia. Os governos europeus, e a Alemanha em particular, deveriam estimular suas economias por meio de empréstimos e aumento de gastos. O mercado de títulos está efetivamente implorando a eles que façam isso; de fato, ele está disposto a pagar à Alemanha para emprestar, ao conceder empréstimos com juros negativos. Fora que não há falta de coisas com o que gastar: a Alemanha, assim como a América, tem uma infraestrutura deteriorada que precisa desesperadamente de reparos. Mas eles é que não vão gastar.

A maioria dos custos da teimosia fiscal alemã recai sobre a Alemanha e seus vizinhos, mas há algumas coisas que acabam sobrando para o resto de nós. Os problemas da Europa têm contribuído para um euro fraco, o que torna os produtos americanos menos competitivos, e é um dos motivos pelos quais a produção americana está ficando para trás. Porém, caracterizar essa como uma situação em que a Europa está tomando vantagem da América é entender tudo errado, e não ajuda.

O que ajudaria? Sendo realista, a América não tem condições de pressionar a Alemanha a mudar a política econômica interna dela. Os Estados Unidos poderiam ser capazes de dar um pouco de conselhos morais se a liderança do país tivesse qualquer credibilidade intelectual ou política, mas ela não tem. Existe uma ideia de que o mundo inteiro tem um problema com a Alemanha, mas cabe aos próprios alemães resolverem ele.

Uma coisa é certa: dar início a uma guerra comercial com a Europa com certeza seria um cenário de perde-perde, ainda mais do que no caso da guerra comercial dos EUA com a China. É a última coisa de que a América ou a Europa precisam. O que significa que provavelmente Trump irá fazer isso.