A medalha presidencial para charlatões e malucos

A influência de economistas como Laffer, que consistentemente está errado em suas previsões, só cresce dentro do governo norte-americano
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Paul KrugmanPublicado em 27/06/2019 às 15:00.

Há mais de 20 anos, N. Gregory Mankiw, de Harvard, que depois trabalharia como assessor econômico de George W. Bush, publicou a primeira edição de sua cartilha best-seller Introdução à Economia. Logo no início do texto, em uma tentativa de explicar por que os economistas geralmente são retratados como pessoas que discordam umas das outras, ele descreveu o papel desempenhado pelos “charlatões e malucos”. Quando os economistas parecem discordar, escreveu ele, você deveria levar em conta que às vezes a aparente divergência está vindo de “um vendedor de pastel de vento tentando oferecer uma cura milagrosa”.

Ele estava se referindo às pessoas que disseram ao presidente Ronald Reagan que cortar impostos seria algo que se pagaria sozinho e, acima de todos, a um sujeito chamado Arthur Laffer. Como notou Mankiw, os charlatões e malucos estavam errados: os cortes de Reagan reduziram drasticamente a receita. Além disso, o mesmo se provou verdadeiro em todas as ocasiões em que os defensores de cortes de impostos prometeram um milagre. Mais recentemente, o corte de impostos de Trump de 2017 levou a uma queda súbita nas receitas dos impostos das empresas, quase o dobro do que se projetava.

Mesmo assim, décadas estando consistentemente errados em nada contribuíram para diminuir a influência dos malucos do Partido Republicano que defendem cortes de impostos. Pelo contrário, a influência deles vêm se tornando ainda maior. Mesmo supostos republicanos moderados como Susan Collins, do Estado do Maine, justificaram seu apoio à proposta de lei de 2017, conhecida como Lei dos Cortes de Impostos e Empregos, dizendo que ela se pagaria sozinha.

E, na quarta-feira, Laffer recebeu a Medalha Presidencial da Liberdade.

Para ser justo, Laffer é conhecido por outras coisas além de sua fé absoluta no poder milagroso dos cortes de tributos. Ele também é conhecido por ter alertado sobre os desastrosos efeitos colaterais dos esforços do Federal Reserve para combater a crise financeira: “preparem-se para inflação e taxas de juros maiores”, trovejava ele há uma década. Na verdade, não: a inflação se manteve baixa, e as taxas de juros estão próximas a seu menor nível em toda a história.

Claro, qualquer um com uma carreira longa fazendo pronunciamentos econômicos terá cometido alguns erros de julgamento. Deus sabe que eu fiz isso. Porém, o que faz de Laffer e de outros como eles tão especiais é a completa consistência dos enganos que cometem, além do fato de que a influência deles só vem crescendo apesar de estarem errados.

Ou talvez eu devesse dizer que a influência deles na verdade aumenta por causa de seus enganos. Prever com consistência resultados grandiosos obtidos com cortes de impostos dos ricos – e catástrofes caso as taxas de juros mais altas subam – é um jeito ruim de planejar política econômica, mas é também uma maneira bastante boa de cair nas graças de doadores de campanha ricos. Atacar qualquer política econômica que teria ajudado a economia enquanto um democrata era presidente foi uma ótima estratégia profissional também.

O que é notável é que, a essa altura, o Partido Republicano aparentemente não tem utilidade alguma para economistas que não sejam vendedores de pastel de vento. Existem economistas sérios – como Mankiw -, que por acaso são conservadores, em função de alguma mistura de valores e juízos pessoais sobre o papel adequado de um governo. Eu consigo respeitar as posições deles, mesmo quando discordo delas. Mas elas não têm um abrigo político. A medalha dada a Laffer, assim como a indicação do fundamentalmente absurdo Larry Kudlow como economista-chefe e a tentativa de colocar Stephen Moore no Fed, é o mesmo que colocar um cartaz dizendo “vaga reservada apenas para charlatões e malucos”.