Como investidor, você olha para cima?

Usando a metáfora, em assuntos muito importantes das nossas vidas, inclusive sobre finanças e investimentos, somos da turma do “não olhe para cima”
 (Netflix/Divulgação)
(Netflix/Divulgação)
Por Panorama EconômicoPublicado em 07/02/2022 10:00 | Última atualização em 05/02/2022 10:11Tempo de Leitura: 4 min de leitura

Por Gabriel dos Reis*

Se você assistiu ao filme “Não Olhe Para Cima” da Netflix, provavelmente percebeu (consciente ou inconscientemente) que esse filme tem um peso especial aos brasileiros. Somos, como nos orgulhamos de dizer, um povo resiliente, “que não desiste nunca”. Porém, infelizmente, muitas vezes essa resiliência e persistência existem porque sequer entendemos o que está acontecendo. Somos persistentes por ignorância.

Não conseguimos lidar bem com a realidade e suas dificuldades. Ver a realidade nos convoca a mudar as coisas e não gostamos de mudar. Mudar dá trabalho, nos faz pensar, estudar outras possibilidades, entender outros pontos de vista e por fim perceber que o fizemos até então já não serve mais, e é exatamente isso que nos pesa. Não somos assim.

O filme não passa de uma metáfora, uma analogia onde poderíamos mudar a história e, no lugar do risco de um meteoro cair na terra, colocar questões urgentes e vitais que fazem parte da nossa realidade. A própria pandemia que ainda enfrentamos, questões ambientais graves, atentados, tragédias e, por que não, situações econômicas e financeiras.

Cada uma dessas situações hipotéticas possui pontos complexos, difíceis de resolver, paradoxos éticos e até mesmos preços e consequências inevitáveis nas suas soluções. E nós, brasileiros, na nossa incapacidade de pensar e entender a realidade como ela é, nos mantemos ignorantes, distraídos nas redes sociais e assistindo televisão.

Usando a metáfora, em assuntos muito importantes das nossas vidas, inclusive sobre finanças e investimentos, somos da turma do “não olhe para cima”. Somos o povo do jeitinho, do carisma, da torcida e da oração. Procurando onde está o atalho mais rápido e fácil, onde está a vantagem, quando acontecerá o milagre. Vivemos numa fantasia, exemplificada na fala do personagem Peter Isherwell no momento crucial do filme, quando dá tudo errado: “everything is fine”. Mas negar a realidade não é uma maneira de resolvê-la.

Talvez possa parecer contraditório ou até irônico falarmos sobre o filme e suas metáforas para assuntos importantes e guiarmos a conversa para um ponto de vista econômico e financeiro, mas não é. Para parecer contraditório teríamos que partir do princípio que ter recursos, investir e se preocupar com uma vida financeira confortável é uma prática ruim e que estaria acompanhada de visões limitadas de mundo e de futuro. O que, além de não ser verdade, não representa a realidade dos milhões de investidores do nosso país.

A esmagadora maioria pensa muito no futuro e deseja estabilidade, segurança e liberdade tanto para si e sua família quanto para o mundo. Porém, a nossa ignorância resiliente faz com que continuemos indo pelo caminho errado. Não olhando para as coisas como são, com riscos, incertezas e complexidades, e comprando as respostas mais fáceis, rápidas e frágeis para o futuro.

Existem diversos discursos e soluções no mundo de investimentos que se aproximam muito do negacionismo: esperança em lucros milagrosos, possíveis pílulas magicas que multiplicariam capital ou gurus que descobriram o segredo. Normalmente são operações extremamente alavancadas, a próxima memecoin ou qualquer outra estratégia de pirâmide. Quem defende e tenta vender essa ideia está gritando na nossa cara para não olharmos para cima, para nos mantermos ignorantes e alienados de como as coisas realmente funcionam.

Quem estuda, se qualifica e realmente está preocupado com o futuro, atua nesse mercado com muito mais responsabilidade, olhando, com calma e cautela, para a realidade. Onde não existe almoço grátis. Onde não existe fórmula mágica. Onde ninguém tem a capacidade de prever o futuro.

Não existe investidor ou profissional no mundo que sabe qual será a ação que mais subirá em 2022 ou qual será o fundo mais rentável do ano. O que existe é uma “ciência” chamada alocação de recursos e que, somada a matemática e seus cálculos de distribuição de probabilidades, nos apresenta a forma mais eficiente, entediante e lucrativa de se administrar recursos.

Pois é, viver a realidade não é euforia e prazer o tempo todo. São muitas mudanças de rota e readaptações, mas ainda assim, é o único lugar onde se pode encontrar estabilidade, segurança e liberdade daqui a 10, 20 ou 50 anos. Qualquer outra fantasia não resolve nenhum problema e não constrói nenhum futuro.

*Gabriel dos Reis, CFP ® é graduado em administração de empresas, especialista em Wealth Management e Family Office pela PUC-RS, Consultor de Valores Mobiliários CVM e Diretor Executivo da Auge Wealth Management.  Para fundar a AUGE em 2020, Gabriel contou com uma bagagem de 6 anos atuando como líder em uma das maiores empresas de assessoria de investimentos do país. Dedicou sua formação e atuação profissional a estudar e entender o processo de construção e perpetuação de patrimônio de indivíduos e famílias. Para mais informações acesse @augewm ou entre em contato com gabriel.reis@augewm.com.br.