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CTO e VP de Soluções Digitais da Falconi
Publicado em 30 de julho de 2026 às 15h49.
Já se passaram mais de quatro anos desde que a IA generativa se popularizou, e ainda não há dados consistentes que comprovem que as empresas que a adotaram estão mais eficientes. Ganho individual, sim, existe e é mensurável. Agora, ganho real, de forma sistêmica, não. E posso garantir que o problema não é a IA generativa. A grande questão é confundir rapidez com produtividade, e produtividade com eficiência.
Rapidez é fazer uma mesma ação em menos tempo. E é justamente aí que a IA generativa mais impressiona, porque reduz de horas para segundos o que antes exigia leitura, digitação ou pesquisa manual. Mas tarefa não é processo. As empresas não as competem entre si, mas sim processo por processo. A rapidez isolada não diz nada sobre o que acontece depois de cada atribuição. De nada adianta um colaborador responder e-mail mais rápido se o processo em volta continua com aprovação redundante, retrabalho e dados ruins no início do processo.
Enquanto isso, produtividade trata da combinação de três variáveis que precisam se sustentar ao mesmo tempo: velocidade, qualidade e volume. Por exemplo, um colaborador que produz dez relatórios em uma hora com ajuda de IA está ganhando velocidade; se essas entregas têm erros que exigem retrabalho, a qualidade cai e a produtividade real desaparece; e se esse ritmo de dez relatórios por hora só se sustenta enquanto alguém está testando a ferramenta, sem se repetir de forma confiável semana após semana, falta volume consistente para que isso vire produtividade de fato, e não apenas um experimento pontual.
O estudo AI Index Report 2026, da Stanford HAI, mostra que essas três variáveis raramente aparecem juntas na prática. No primeiro cenário, o trabalho é estruturado, repetitivo e fácil de monitorar. Aí o ganho é real e mensurável. Agentes de suporte resolveram de 14% a 15% mais chamados por hora com um assistente conversacional; desenvolvedores com GitHub Copilot completaram 26% mais “pull requests”, ou solicitações de mudanças na base de código; equipes de marketing com IA multimodal produziram 50% mais por pessoa. Nesses casos, velocidade, qualidade e volume conseguem andar juntos, porque a tarefa tem critério claro do que é certo e errado.
No segundo cenário, o trabalho exige julgamento e raciocínio mais profundo, onde o padrão se inverte. Um estudo da organização de pesquisa norte-americana METR, citado pela Stanford HAI, encontrou desenvolvedores experientes de open-source 19% mais lentos ao usar IA em tarefas complexas. O tempo ganho por esses profissionais na hora de gerar códigos foi perdido depois, ao revisar e corrigir os resultados. A velocidade pareceu evitar um custo que, na verdade, só foi adiado.
Existe ainda um terceiro efeito, mais sutil, chamada "penalidade de aprendizado". Profissionais que dependem demais da IA para aprender algo novo não apresentam ganho de velocidade e correm o risco de comprometer sua própria competência ao longo do tempo. Isso ameaça diretamente a variável “volume”, um ganho que só existe com a “muleta da IA” e não se sustenta de forma independente no futuro. Isso não é produtividade. É dependência disfarçada de produtividade.
Por fim, chegamos à eficiência, com uma conta mais completa. Esse fator inclui o custo de manutenção da solução de IA que foi produzido, a dívida técnica que se acumula quando o processo em volta continua mal desenhado, o risco assumido quando a decisão automatizada pela IA é a decisão errada e o efeito de tudo isso daqui a um, três ou dez anos.
Por exemplo, uma empresa pode estar mais rápida, reportar ganho de produtividade em um indicador pontual, e mesmo assim ficar “menos eficiente” como sistema, porque está pagando, sem perceber, uma conta que só vai vencer mais adiante. Isso é pensar sistemicamente para a verdadeira “Transformação pela IA”.
O questionamento que toda empresa deveria fazer antes de comemorar um ganho com IA não é "ficamos mais rápidos?", mas sim "ficamos mais eficientes, quando se soma todos os fatores?". Enquanto uma organização continuar reportando velocidade como se fosse eficiência, ela vai seguir confundindo o sintoma com a cura. A verdadeira “Transformação pela IA” não é a que aparece no indicador do próximo trimestre. É a que ainda faz sentido daqui a dez anos.