Centro de Inteligência Artificial da USP (C4AI), responsável por integrar línguas indígenas ao modelo LatAm GPT. (USP/Divulgação)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 22 de outubro de 2026 às 15h48.
Ken Griffin, fundador da Citadel, comprou de Moishe Mana terrenos em Wynwood, Miami, por US$ 1,1 bilhão para integrar o novo campus da Carnegie Mellon, universidade de Pittsburgh. O projeto faz parte de uma doação de US$ 3 bilhões anunciada por Griffin à instituição, dos quais US$ 2 bilhões destinados a Miami e US$ 1 bilhão ao campus original, numa aposta no futuro da Flórida.
Referência mundial em computação, inteligência artificial e robótica, a Carnegie Mellon pretende reunir em Miami ensino e pesquisa voltados à saúde, à energia e à manufatura avançada, aproximando pesquisadores e empresas para transformar conhecimento em tecnologias, negócios e empregos qualificados.
Essa iniciativa oferece ao Brasil uma reflexão sobre o nosso desenvolvimento: ampliar a base de conhecimento do país e de suas regiões, fortalecendo as instituições existentes e mobilizando a sociedade civil para criar novas universidades de pesquisa, formação e treinamento. Na era da inteligência artificial, ciência e talentos determinam a capacidade regional de atrair empresas, elevar a produtividade e criar oportunidades. A proposta de Miami é ousada, ser uma capital latina, das Américas e para o mundo.
Em Wynwood, o investimento imobiliário já caminhava com a arte contemporânea, a música e a moda, dando identidade e valor ao bairro; com a chegada da universidade, Mana viabiliza uma nova etapa, enquanto sua Mana Tech conecta empreendedores latino-americanos a investidores e mercados americanos, inclusive pela parceria com a ACATE, apoiada pelo Floripa Sustentável, em Santa Catarina.
Miami fortalece sua posição de capital latino-americana de negócios, enquanto Northeastern e Babson já mantêm unidades na cidade e Vanderbilt prepara um campus em West Palm Beach. Desenvolver regiões exige transplantar conhecimento, atraindo instituições, pesquisadores e suas conexões para formar talentos e ampliar a capacidade produtiva.
A força dos Estados Unidos deve muito a elites empresariais e educacionais que converteram patrimônio em instituições capazes de atravessar gerações. Stanford nasceu da iniciativa de Jane e Leland Stanford, cuja fortuna veio do comércio e das ferrovias; Carnegie Mellon tem raízes na filantropia industrial, enquanto Harvard, criada pelo poder colonial, consolidou-se com sucessivas gerações de doadores.
Os endowments dão permanência a essa cultura, preservando fundos patrimoniais cujos resultados sustentam bolsas, professores e pesquisa, com incentivos tributários a doações elegíveis. Desde 1917, a dedução federal para doações favorece essa combinação de filantropia, financiamento público e cooperação empresarial.
Essa ambição atravessa fronteiras: os Emirados Árabes Unidos atraíram a NYU para Abu Dhabi, enquanto a China acolheu a NYU Shanghai, criada com a East China Normal University. Miami busca conhecimento em outra região americana; esses países recorrem à cooperação entre nações. O Brasil pode seguir ambos os caminhos, conectando vocações regionais à ciência mundial.
USP, Unicamp e universidades federais sustentam grande parte da pesquisa brasileira, mas precisam de reforço para superar limites de financiamento, escala e alcance regional. Ampliar esse esforço exige também novas instituições, com autonomia acadêmica e de gestão, capazes de contratar talentos, desenvolver pesquisas e cooperar internacionalmente.
Já temos experiências promissoras: FAAP, Mackenzie e PUCs expressam tradições da sociedade civil; a Saint Paul integra o ecossistema de educação da EXAME e do BTG Pactual (do mesmo grupo que controla a EXAME). Já o Insper oferece engenharias e ciência da computação, e o Inteli, fundado por André Esteves e Roberto Sallouti, dedica-se à tecnologia. O próximo passo é dar a essas iniciativas escala, continuidade e presença em mais regiões brasileiras.
Conhecemos os frutos dessa aproximação: o ITA, concebido com participação de Richard Smith, professor do MIT, ajudou a formar a base da qual emergiu a Embraer, enquanto as engenharias da UFSC construíram relações duradouras com a indústria metalmecânica catarinense. O conhecimento cria raízes, a economia regional ganha novas possibilidades, mas a conexão internacional deve, obrigatoriamente, ser acelerada. São novos tempos e movimentos.
A Lei de Fundos Patrimoniais, de 2019, é um ponto de partida para que empresários, bancos e fundos de investimento aportem patrimônio e compromissos duradouros; educadores assegurem excelência e liberdade acadêmica; e governos aperfeiçoem incentivos à doação e condições para a cooperação internacional. Bolsas devem abrir essas instituições aos jovens talentosos de qualquer origem.
Uma rede brasileira de universidades de pesquisa, uma “Ivy League” voltada ao futuro e conectada ao mundo, merece lugar nos programas presidenciais e nas estratégias dos estados. Nossas elites têm a oportunidade de transformar patrimônio em conhecimento e conhecimento em prosperidade para novas gerações. Construir essa base deve ser uma prioridade nacional.