Data Centers (KM Stock/Shutterstock)
Publicado em 13 de outubro de 2026 às 21h10.
A recente sanção da Lei 15.504/2026, que instituiu o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata), colocou a infraestrutura digital brasileira no centro da agenda econômica no país. Mas, para além de criar um regime tributário para um setor específico, o Redata oferece a oportunidade de aproximar duas agendas que ainda são frequentemente tratadas de maneira separada: o aumento da capacidade de processamento de dados em território brasileiro e o fortalecimento de uma cadeia industrial para tornar essa expansão possível.
Data centers são infraestruturas de engenharia de alta complexidade, cujos efeitos ultrapassam o setor de tecnologia, mobilizando verticais estratégicas como energia, construção civil, telecomunicações e serviços especializados. Dentro deles existem muito mais do que servidores de processamento: são utilizados sistemas elétricos, transformadores, painéis e equipamentos de distribuição, UPS, barramentos, sistemas de refrigeração de alta eficiência, automação, controle, cabos, estruturas metálicas e uma extensa cadeia de serviços especializados para instalação e manutenção desses equipamentos.
Isso significa que cada novo megawatt de capacidade de data center no país representa também uma nova demanda para uma cadeia física e industrial - muito maior do que normalmente aparece quando se discute economia digital. Cada novo projeto impulsiona a procura por equipamentos, sistemas, engenharia e serviços, fomenta a criação de postos de trabalho e acelera a necessidade de habilidades verdes (green skills) e qualificações técnicas em pilares essenciais para sustentar o avanço da inteligência artificial (IA).
Um estudo da FGV Projetos, utilizando a Matriz Insumo-Produto do IBGE, ajuda a dimensionar esse potencial. Para cada R$ 1 de demanda final associada ao setor de data centers é gerado R$ 1,45 em valor de produção na economia, considerando desdobramentos diretos e indiretos. Outro dado é ainda mais relevante para a discussão industrial: R$ 1,16 desse resultado ocorre por meio da ativação da cadeia de fornecedores.
O mesmo encadeamento aparece na geração de empregos. Para cada R$ 1 milhão investido, a FGV estima cerca de 7,5 empregos diretos e indiretos, incluindo aqueles originados na cadeia de fornecedores.
Esses números contribuem para tangibilizar o fato de que parcela expressiva do impacto econômico de um data center acontece do lado de fora e, quanto maior a participação de fornecedores instalados no país, maior tende a ser a parcela do investimento que permanece e se multiplica dentro da economia nacional.
Da mesma forma, quanto maior e mais previsível for a demanda doméstica por data centers, maior será a possibilidade de ampliar a escala, a produtividade e a competitividade da nossa indústria, assegurando novas linhas de produção, investimentos em capacidade produtiva, desenvolvimento tecnológico e qualificação de fornecedores.
Estamos falando, portanto, de uma relação de interdependência, na qual data centers competitivos necessitam de uma indústria forte e competitiva, e uma indústria apta a competir globalmente precisa de mercados que gerem escala e demanda tecnológica.
Por isso, o debate sobre o desenvolvimento dos data centers no Brasil não pode correr o risco de ser limitado a uma escolha entre “incentivo ao investimento estrangeiro” ou “proteção da indústria nacional”. Essa é uma abordagem míope que apequena uma lógica de ecossistema a uma falsa dicotomia.
O que a experiência internacional e a dinâmica dos mercados mostram é que é factível atrair capital, tecnologia e capacidade computacional e, ao mesmo tempo, tracionar nossa cadeia de fornecedores, engenharia, inovação e produção nacional.
Isso não implica pressupor que todos os componentes necessários à infraestrutura digital devam ser manufaturados no país – aliás, nenhuma grande economia é autossuficiente na cadeia de infraestrutura digital. Com isso, o desafio de uma política industrial moderna é combinar o acesso competitivo às tecnologias que ainda não produzidas localmente com condições para que a indústria brasileira consolide sua participação à medida em que o mercado doméstico ganha escala.
A primeira premissa para a concretização desse cenário, porém, é que novos projetos sejam viabilizados. É neste ponto que reside a importância da regulamentação do Redata e da aprovação do convênio nacional, no âmbito do Confaz, para reduzir o ICMS sobre alguns equipamentos específicos.
Afinal, se a infraestrutura brasileira continuar mais cara do que a de mercados concorrentes – e atualmente o custo econômico para um data center no Brasil é 26,7% maior do que nos Estados Unidos, por exemplo – o país perde competitividade na disputa global por esses investimentos. Quando um projeto de infraestrutura digital é alocado em outro mercado, ele leva consigo a demanda que poderia alavancar a indústria local - sem mencionar as atividades econômicas habilitadas na cadeia downstream, que dependem de capacidade computacional, nuvem e IA.
Por isso, desenvolvedores de data centers e fabricantes nacionais estão olhando para o mesmo horizonte. Ambos dependem de um ecossistema competitivo, capaz de atrair investimentos, estimular demanda, desenvolver tecnologia e incrementar a produção local. É nessa articulação entre políticas públicas, investimentos privados e indústria de alta eficiência que o tamanho da participação brasileira na nova economia global será definido.
*Rafael Segrera é presidente da Schneider Electric para a América do Sul e líder do grupo de trabalho "Fostering Human and Social Development", da Sustainable Business COP (SB COP)
*Luciano Fialho é vice-presidente Sênior de Desenvolvimento Corporativo, Energia e Imóveis da Scala Data Centers