Tarifa de Barreira Comercial dos EUA como Protecionismo Econômico Americano e Isolamento Comercial ou Política Protecionista do governo dos EUA como impostos de importação ou tarifas sobre importações. (wildpixel/Getty Images)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 19h05.
Escrevo de Istambul, onde participei como keynote speaker da Conferência Anual da Aliança das Cidades Turísticas da Rota da Seda. Vim falar sobre turismo e investimentos, mas estar nesta cidade, há séculos entre Oriente e Ocidente, oferece uma perspectiva privilegiada sobre algo maior: o mundo está se rearranjando diante de nós.
A antiga Rota da Seda transportava mercadorias, ideias e culturas; a nova transporta também energia, tecnologia, capital e poder por ferrovias, portos e corredores econômicos que redesenham a Eurásia. Enquanto escrevo, em Bishkek, no Quirguistão, a Organização de Cooperação de Xangai reúne Xi Jinping, Vladimir Putin, Narendra Modi e líderes do Irã, Paquistão e Ásia Central para discutir segurança, comércio, energia, tecnologia e integração. A ferrovia China–Quirguistão–Uzbequistão, em construção, materializa essa nova geografia. Não são apenas obras: são estruturas de poder.
A China tem seu projeto por escrito, articulando indústria, tecnologia, infraestrutura, energia e segurança em horizontes longos. Os Estados Unidos também colocam suas estratégias no papel, e seria um erro atribuir esse movimento apenas a Donald Trump. O establishment americano trata indústria, energia, minerais críticos, semicondutores, inteligência artificial e cadeias de suprimento como partes da mesma equação de segurança econômica e nacional. Presidentes mudam; interesses estratégicos permanecem.
A Europa também percebeu que precisa adaptar-se e discute ampliar o uso da maioria qualificada em áreas ainda submetidas à unanimidade, especialmente na política externa. Até uma das mais sofisticadas construções institucionais da história ajusta suas regras a um mundo que não espera.
China planeja, Estados Unidos reorganizam capacidades e Europa revê seus mecanismos. O mundo se move como placas tectônicas, sem uma guerra mundial, mas não em paz: a guerra da Ucrânia mantém a instabilidade na Europa e o Oriente Médio continua sob enorme tensão. Geopolítica, comércio, inteligência artificial, energia, alimentos, minerais e infraestrutura se reorganizam simultaneamente.
Recentemente entrevistei, para a Exame, em Miami, o empresário Moishe Mana, que levanta uma questão essencial: por que as Américas não compreendem sua própria escala? Do Canadá à Patagônia somos mais de um bilhão de pessoas, reunindo capital e tecnologia com alimentos, energia, minerais e biodiversidade. A Europa construiu escala pela integração; China e Índia possuem escala continental. As Américas têm escala e complementaridade, mas ainda não transformaram essa dimensão em projeto.
Isso nos leva ao Brasil. Há uma frase atribuída a Franklin D. Roosevelt segundo a qual a América Latina caminharia para onde o Brasil caminhasse. A provocação permanece atual. Não se trata de hegemonia, mas de responsabilidade: sem um Brasil organizado, próspero e consciente de seu papel, dificilmente a América Latina poderá apresentar-se ao mundo com a escala de um grande conjunto econômico, político e civilizatório.
Quando o Brasil não se posiciona, o mundo se posiciona em relação ao Brasil. Nossos recursos, mercado, energia, alimentos, minerais e biodiversidade entram nas estratégias dos outros sem necessariamente integrar uma estratégia nossa.
Parte dessa vulnerabilidade nasce dentro do país. O pensamento e as práticas políticas ainda marcados pelo paroquialismo e pelas ideologias da década de 1970 reduzem nossa capacidade de compreender um mundo que mudou radicalmente. Enquanto outros planejam as próximas décadas, ainda consumimos energia reproduzindo antagonismos do século passado. Isso nos fragiliza.
Nossa história oferece uma referência. Durante a Guerra Fria, o Brasil acompanhou como observador o Movimento dos Não Alinhados e, mais tarde, o Pragmatismo Responsável e Ecumênico diversificou nossas relações. O mundo é outro, mas permanece uma lição: países relevantes não terceirizam a definição de seus interesses.
Não precisamos escolher entre Washington e Pequim. Precisamos saber o que queremos de Washington, o que queremos de Pequim e, sobretudo, o que queremos para o Brasil. A China é nosso maior parceiro comercial, assim como Estados Unidos, Europa e nossos vizinhos são essenciais à nossa inserção internacional. Autonomia não é equidistância: é possuir agenda própria e capacidade para defendê-la.
Precisamos, portanto, de um plano de país, democraticamente discutido e legitimado pelos brasileiros, capaz de atravessar governos e eleições. Não um plano de partido, mas uma agenda nacional que reconheça nossas vulnerabilidades, organize nossas forças e diga ao Brasil e ao mundo onde queremos chegar.
E não adiantará reclamar depois. Países também pagam o preço das tarefas que deixam de fazer. Vimos isso com o crime organizado: seus riscos foram advertidos durante décadas antes de alcançarem a dimensão atual. Na reorganização mundial, os sinais também estão diante de nós. Estamos avisados.
Um Brasil forte ajuda a construir uma América Latina forte; uma América Latina forte dá escala às Américas; e Américas fortes contribuem para um Ocidente mais capaz de dialogar, com equilíbrio e confiança, com um Oriente que também se organiza — e no qual a China ocupa posição central.
O que acontece em Istambul, Bishkek, Washington ou Estrasburgo não fica nesses lugares. Suas decisões chegam até nós na forma de comércio, investimentos, tecnologia, energia, segurança e poder.
Há uma expressão inglesa perfeita para este momento: rise to the occasion. Estar à altura da circunstância. Para isso, precisamos crescer, organizar-nos, reduzir nossas vulnerabilidades e voltar a ser proponentes de alternativas para o Brasil e para o mundo.
Se não fizermos nossa parte, não teremos como reclamar amanhã de uma ordem construída segundo os interesses de quem soube agir.
O Brasil precisa enxergar e decidir se será definido pelo que tem — ou reconhecido pelo que é capaz de fazer.