(Divulgação)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 23 de março de 2026 às 14h44.
Última atualização em 23 de março de 2026 às 14h45.
O Brasil tem um “jeitinho” recorrente de lidar com temas complexos: retira-os do contexto, simplifica o debate e, ao final, toma decisões que não resistem à realidade. No caso dos jogos, conseguiu ir além e vem errando em sequência.
Durante décadas, a discussão sobre cassinos foi capturada por uma visão moralista que evitou enfrentar o tema como política pública, como vetor econômico e como instrumento de organização de uma atividade que nunca deixou de existir. O país não decidiu, apenas adiou, e, ao adiar, permitiu que o fenômeno se desenvolvesse fora de qualquer desenho institucional coerente.
Enquanto o Brasil hesitava, o mundo avançou de forma consistente e pragmática, como deve ser.
Hoje, está claro que, em cidades como Las Vegas, Macau e Singapura, a receita direta do jogo representa apenas uma fração do impacto econômico total. Em Las Vegas, por exemplo, menos de um terço da receita dos grandes resorts vem do jogo; o restante decorre de hotelaria, eventos, alimentação, entretenimento e convenções. Em Singapura, os resorts integrados geram dezenas de milhares de empregos diretos e indiretos e respondem por parcela relevante da arrecadação turística e tributária do país.
Cassino, no século XXI, não é um fim em si mesmo. É uma âncora de desenvolvimento, capaz de ativar cadeias inteiras de serviços, gerar empregos em larga escala e ampliar de forma consistente a base de arrecadação.
Nos Estados Unidos, a indústria de jogos emprega diretamente mais de um milhão de pessoas e sustenta milhões de empregos indiretos, segundo a American Gaming Association. Em destinos integrados, cada grande resort pode gerar dezenas de milhares de postos de trabalho diretos e indiretos ao longo de sua implantação e operação. Trata-se de emprego formal, intensivo em serviços, com forte efeito multiplicador sobre renda, consumo e arrecadação.
O Brasil, que reúne condições naturais e econômicas para participar desse circuito, permaneceu à margem não por falta de potencial, mas por falta de decisão. Estudos apresentados ao Congresso Nacional indicavam a possibilidade de mais de R$ 20 bilhões em investimentos iniciais, centenas de milhares de empregos e arrecadação relevante em tributos. Mais importante do que os números diretos era a capacidade de elevar o país a um novo patamar na atração de eventos, congressos e feiras internacionais. O impacto nos esportes e no “show business” seria enorme, mas nenhum dos dois mega setores se mexeu: ficaram esperando Godot.
Nada disso se materializou.
Em paralelo, o país assistiu à expansão acelerada das apostas digitais. As chamadas bets já movimentam algo entre R$ 100 bilhões e R$ 150 bilhões por ano, com forte presença nas camadas de menor renda, onde o jogo passa a ocupar parcela relevante do orçamento familiar. Trata-se de um modelo difuso, acessível e de difícil controle, cujo impacto social cresce de forma silenciosa e cuja geração de empregos formais e arrecadação estruturada é proporcionalmente muito inferior ao modelo de resorts integrados.
Criou-se, assim, uma inversão que desafia a lógica mais elementar. O país manteve restrições sobre empreendimentos físicos passíveis de controle, fiscalização e rastreabilidade financeira e, ao mesmo tempo, permitiu a expansão de um sistema digital que escapa, em grande medida, à supervisão efetiva.
O projeto de lei que trata da autorização de cassinos em resorts integrados, já aprovado pela Câmara dos Deputados, encontra-se atualmente no Senado Federal. Foi debatido em comissões e está pronto para deliberação em plenário, ainda sem data definida para votação. A proposta prevê número limitado de licenças, exigência de investimentos elevados, concentração em grandes complexos turísticos e possibilidade de decisão local por estados e municípios.
Trata-se de um modelo restritivo, seletivo e alinhado às melhores práticas internacionais, justamente para maximizar investimentos, empregos qualificados e arrecadação consistente.
Ainda assim, o país não decide.
E, pior, discute avançar novamente no erro.
A tentativa de aprovar, no mesmo pacote, cassinos em resorts integrados, bingos e jogo do bicho revela uma incapacidade de distinguir modelos completamente distintos. Resorts integrados são empreendimentos de grande escala, intensivos em capital, altamente regulados e com forte geração de empregos e impostos. Já bingos e jogo do bicho operam de forma difusa, com menor controle, maior capilaridade e maior risco social.
Misturar esses universos não é apenas um equívoco técnico. É um fator de instabilidade regulatória que afasta investimentos bilionários, compromete a previsibilidade do ambiente de negócios e reduz a capacidade do país de capturar os benefícios econômicos do setor.
O risco é claro: ao tentar fazer tudo ao mesmo tempo, o Brasil pode acabar inviabilizando o que realmente importa.
É nesse ponto que o país se aproxima do teatro do absurdo.
Na peça Esperando Godot, de Samuel Beckett, os personagens aguardam indefinidamente por algo que nunca chega. O tempo passa, o mundo muda, mas a decisão é sempre adiada. No Brasil, quando a decisão finalmente vem, muitas vezes surge não como escolha estratégica, mas como exaustão do processo. É a legislação do cansaço, aquela que se aprova não porque é a melhor, mas porque se esperou demais.
O Brasil, no tema dos jogos, vive exatamente esse risco.
O primeiro erro foi permitir a expansão das apostas digitais sem estruturar adequadamente o restante do sistema. O segundo pode ser misturar modelos incompatíveis em uma mesma legislação, comprometendo o futuro de investimentos estruturantes.
Antes de acertar, o Brasil precisa parar de errar.
No passado, cassinos como o da Urca foram centros de produção cultural e econômica. A proibição de 1946 foi uma decisão de seu tempo, mas o erro histórico foi não ter sido capaz de substituí-la por um modelo melhor ao longo das décadas seguintes.
Hoje, o país perde investimentos, empregos formais, arrecadação e relevância internacional, enquanto vê crescer um modelo que incide com mais força sobre os mais vulneráveis e gera menos retorno estruturado para a sociedade.
O problema nunca foi o jogo. Foi, e continua sendo, a incapacidade de tratá-lo com racionalidade, contexto e visão de longo prazo.
O Brasil não precisa mais decidir se quer ou não jogos, porque essa decisão já foi tomada pela realidade. O que precisa é escolher, com clareza, qual modelo deseja incentivar.