(Kevin Lamarqu/Reuters)
Ex-ministro do Turismo (Governo Temer), cientista político pela Universidade Americana de Paris, Sênior Fellow do Milken Institute (EUA)
Publicado em 16 de abril de 2026 às 08h00.
Organizar a competição entre Estados Unidos e China é o desafio central do nosso tempo, e o Brasil pode contribuir se agir com maturidade e visão de longo prazo.
O mundo vive momentos de gravíssimas rupturas, e o Brasil ainda não decidiu com clareza qual papel pretende exercer nesse cenário.
A defesa da construção de uma Pax sino-americana, baseada no entendimento estratégico entre Estados Unidos e China, não seria neutralidade. Seria uma escolha ativa de interesse nacional e uma contribuição concreta à estabilidade global, em um momento de crescente desorganização internacional e riscos inéditos.
O Brasil já vive essa equação de forma objetiva. Os Estados Unidos são os maiores investidores no país há mais de um século, estruturando cadeias produtivas, inovação e tecnologia. A China, por sua vez, é o principal parceiro comercial brasileiro, responsável por superávits decisivos para o equilíbrio das contas externas. É dessa combinação que o Brasil exporta, cresce e sustenta sua economia. Vivemos disso.
O erro está nas falsas escolhas. O Brasil não precisa optar entre Washington e Pequim. Precisa saber operar com ambos com inteligência estratégica. Precisa dos Estados Unidos, líder do hemisfério, para investir, inovar e integrar cadeias globais de valor. Precisa da China para sustentar sua força exportadora e gerar divisas. Essa complementaridade é uma vantagem rara e deve ser tratada como ativo central da política externa.
Mais do que isso, o Brasil pode ser destino de investimentos de todos os polos, norte-americanos, chineses e europeus. Para isso, porém, precisa deixar de ser um ambiente hostil ao investimento produtivo. O excesso de burocracia, a insegurança jurídica e a lentidão nos processos de licenciamento continuam a afastar oportunidades concretas. Podemos ser grande parte da solução para os capitais voláteis pousarem.
O mundo atravessa uma reorganização geopolítica acelerada que não vai sair de cena. É melhor que isso aconteça sem uma guerra mundial, porém a guerra na Ucrânia e as tensões no entorno do Irã indicam um sistema internacional sob pressão contínua. Episódios recentes mostram que a negociação permanece possível, mas tréguas localizadas não resolvem o problema. O risco tornou-se sistêmico.
É nesse contexto que a Pax sino-americana se impõe como conceito organizador do século XXI. Sem coordenação entre as duas maiores potências do mundo, qualquer estabilidade será precária. Com ela, a competição pode ser canalizada para o progresso.
A China disputa poder pela construção, não pela destruição, ancorada em comércio, infraestrutura e tecnologia, com horizonte estratégico de longo prazo. Trata-se de competição por posição e influência, não de aniquilação do adversário.
Há, contudo, forças que operam fora dessa lógica. O radicalismo islâmico, em suas vertentes extremas, propõe uma ruptura civilizacional baseada na rejeição da modernidade e na restauração de um modelo fechado de poder, frequentemente associado à ideia de um califado mundial. Em algumas interpretações, a apostasia pode ser tratada como crime passível de pena de morte, o que evidencia a distância em relação aos valores de convivência global.
Essa visão contrasta com países islâmicos moderados, como Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita em transformação e Indonésia, que buscam integração econômica e inserção no mundo contemporâneo. Confundir a dinâmica retrógrada de regimes como o dos aiatolás no Irã com a disputa entre grandes potências é um erro analítico perigoso. Os ganhos táticos desse jogo seriam ilusórios e custosos demais.
O mundo atual não comporta uma repetição das guerras do século XX. A interdependência econômica, a densidade tecnológica e a presença de múltiplas potências nucleares tornam qualquer escalada potencialmente catastrófica.
A história já ofereceu um alerta. Na crise dos mísseis em Cuba, em 1962, Nikita Khrushchev e John F. Kennedy levaram o mundo ao limite. A contenção evitou o desastre. Hoje, há mais atores, mais armas e menos margem para controle.
Um entendimento direto entre Estados Unidos e China seria mais do que um acordo bilateral. Seria o início de uma Pax sino-americana efetiva, um sinal ao mundo de que a estabilidade deve prevalecer sobre a escalada.
Os efeitos de uma Pax sino-americana seriam amplos. A partir desse eixo, outras potências tenderiam a se reposicionar, reduzindo tensões e reabrindo caminhos para o progresso global.
E é exatamente isso que está em jogo. A humanidade dispõe hoje de instrumentos sem precedentes: inteligência artificial, avanços energéticos e ciência aplicada em escala. Há condições reais de enfrentar desafios históricos, recuperar áreas degradadas e avançar em novas fronteiras, até as espaciais.
Mas esse futuro exige estabilidade.
Exige uma escolha.
Nesse contexto, o Brasil poderia ter um papel à altura de sua dimensão física. Inserido na esfera do Ocidente e com relações profundas com a China, pode contribuir para esse equilíbrio. Ao fazê-lo com firmeza, poderá projetar seu soft power como um país que olha para frente, e não para trás.
Atacar os Estados Unidos ou a China não é contribuição. As falas duras do presidente Lula contra os EUA e de Bolsonaro contra a China reduzem nosso horizonte e nossa projeção mundial. Geram ciclotimia e desconfiança persistente. Países não esquecem.
A defesa de uma Pax sino-americana não tem custo para o Brasil. Está alinhada à tradição diplomática de Rio Branco e à vocação de um país que sempre construiu mais do que confrontou. As falas têm poder. Podemos escolher o que dizer.